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Reis da terra batida assaltam asfalto

Liberdade/Tsalala; Museu/Xiquelene; Baixa/Xiquelene; Xiquelene/Magoanine; Benfica/Kongolote; CMC/Guava e a famosa terminal do Albasine constituem os principais pontos de onde provêm e para onde as carrinhas de caixa aberta se dirigem. Se nos últimos meses elas chegaram ao centro da cidade tornando-se, assim, um problema visível aos olhos do Executivo, o mesmo não se pode dizer da periferia de Maputo, onde representam a única alternativa de transporte para o moçambicano de renda baixa…

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O bairro chama-se Albasine. Ao pé existe um mercado com o mesmo nome. No local há duas estradas: uma lembra a cidade de pedra e vai dar ao Xiquelene (asfaltada); a outra, que bem poderia ser a continuação do asfalto, lembra apenas a ausência de desenvolvimento e vai dar ao distrito de Marracuene.

Porém, antes passa por Guava, Muzungula, Papsido, Abel Jafar entre outros bairros que sugiram das ocupações informais. Na verdade, Albasine é uma metáfora da vida, uma linha imaginária que separa o subúrbio da cidade e o asfalto da terra virgem.

Aliás, o fim do asfalto, no Albasine, representa uma linha vermelha para os autocarros da FEMATRO e dos TPM. Nem o investimento público estimado em 565 de meticais, o qual prevê a importação de 180 autocarros movidos a gás poderá vencer a “terra batida”, acredita Ernesto Fumo, de 42 anos de idade.

Fumo viu os “chapas” a chegarem ao bairro, lá para os meados de ‘98 quando a estrada de terra batida foi dando lugar ao asfalto. Assim como Fumo, Emílio Baloi, de 45 anos de idade, não acredita que os autocarros, tanto do Estado assim como da FEMATRO, possam retirar do mercado de transporte de passageiros as “caixas abertas”. Aliás, observa Baloi, “as carrinhas de caixa aberta são uma realidade em vários bairros de Maputo. Não só aqui no Albasine”, sublinha.

Actualmente, Albasine tem a paragem onde a maior parte dos transportadores de caixa aberta, provenientes de Maputo e arredores, desaguam. Naquela local, o dia começa relativamente cedo, pelas 4h00 da manhã. Pessoas, em grande parte oriundas dos bairros limítrofes, cruzam-se à procura de transporte. “No passado, nós trazíamos as pessoas até aqui. Mas há meses que levámos até onde querem ir”, conta Fumo. “Isso dá-nos outras hipóteses de sobrevivência”, acrescenta Baloi.

Há mais bairros

Esta realidade não é exclusiva de Albasine, pois em bairros como Tsalala, Guava, Boquiso, Muzungulo, Kongolote e Abel Jafar a carrinha de caixa aberta é o único meio de transporte. Contudo, para os citadinos do centro da cidade de Maputo essa realidade tem apenas seis meses.

Já os moradores da periferia têm outra percepção uma vez que em alguns bairros esta actividade tem uma década. No entanto, diz Fumo, há um entendimento, sobretudo para quem mora na cidade, de que o problema de transporte começou hoje. “Isso não é verdade”, nega. Aos seus olhos, trata-se de um problema que põe comida na mesa da sua casa há mais de cinco anos.

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Como começou

Fumo e Baloi não sabem precisar quando a actividade começou. Porém, acreditam que a mesma surgiu e foi ganhando vitalidade à medida que aqueles bairros iam recebendo mais habitantes.

“Depois de chegaram aqui (paragem de Albasini), as pessoas tinham de percorrer longas distâncias para o interior dos bairros”, diz Fumo apontando para uma estrada irregular que por eufemismo dizem ser de terra batida. “Como não havia transporte, algumas pessoas com carrinhas começaram a transportar os residentes a troco de dinheiro”.

Residentes

Oito dias depois da introdução de 50 autocarros dos TPM, o recurso às camionetas de caixa aberta para o transporte de passageiros ainda é uma realidade na zona urbana de Maputo. O filme repete-se todos os dias úteis nas horas de ponta. Os protagonistas são sempre os mesmos e os cenários também: homens, mulheres e crianças digladiam-se para encontrar um transporte que os leve ao destino.

Esperam por um “chapa” normal, mas viajam em camionetas de caixa aberta, concebidas para o transporte de mercadorias, sem condições de segurança e geralmente em estado avançado de degradação. Tem sido assim, nos últimos anos, principalmente desde 2008.

Todos sabem dos perigos que correm. Mas não há alternativas viáveis. Os autocarros normais demoram bastante e nalgumas vezes nunca chegam. Estão cada vez mais raros e não se cansam de encurtar as rotas. São histórias que acontecem em qualquer paragem.

Antes, estas camionetas de caixa aberta eram mais comuns nos bairros periféricos. Agora a acção decorre na zona urbana, particularmente nos terminais do Museu da História Natural, Anjo Voador e da Praça dos Trabalhadores, na baixa de Maputo.

O Governo deve agir de imediato

Segunda-feira (10 de Julho). São 17 horas e estamos na paragem do Museu. Entre as demais pessoas encontramos Alberto Sitoe. Como tantos outros, este cidadão, de 35 anos de idade, residente em Albasine e trabalhador doméstico numa casa no Polana Cimento, gostaria de viajar em boas condições.

Mas sabe que nem com os autocarros movidos a gás da empresa pública de transportes isso será possível. “Não me importa como irei para casa. Interessa-me apenas que chegue lá. Apesar de ser difícil já me habituei à situação”, desabafa, conformado.

No mesmo diapasão alinha Aguiar Tembe morador de Tsalala. De 28 anos, não espera dias melhores nos transportes urbanos e responsabiliza o actual Executivo pelas dificuldades.

“Podia dizer que já nos tínhamos esquecido destes carros. Faz tempo que não víamos crises assim”, diz e acrescenta: “isto é normal no meu bairro, mas na cidade pensei que fosse algo que nunca aconteceria. Até chegar a casa dificilmente viajarei num transporte em que me possa sentar. É inadmissível”.

A conversa com o jovem Tembe fi cou interrompida mal soou uma voz de um cobrador de uma camioneta: “Liberdade, via portagem”. Na Liberdade, Tembe terá de esperar por um outro chamamento de cobrador. Desta vez será de vez: Tsalala. Até pode ser o mesmo cobrador, se entender encurtar a rota. É uma questão de decisão. O Estado não intervém.

Pouco passava das 18 horas e a noite caía. A pouco e pouco a paragem ficava vazia. Antes de abandonarmos, ouvimos Julieta dos Santos, uma mulher de 24 anos, activa e simpática. Diariamente apanha o transporte por ali. Segundo as suas palavras, a rotina é sempre a mesma.

“Nada me surpreende. Aliás, é sempre assim em todas as paragens da cidade. Mesmo com os riscos que representam, as carrinhas de caixa aberta têm sido a alternativa ideal. Graças à iniciativa dos seus proprietários chegamos em boa hora nas nossas casas. Não sei o que seria se tivéssemos de depender só dos chapas”, comenta.

Enquanto conversamos, ao lado uma camioneta de marca Toyota recolhe passageiros. “Tenho de partir com este automóvel. Pode ser o último e não devo esperar mais”, disse a jovem em jeito de despedida.

Eram 19h15 quando cada um de nós seguiu o seu rumo. No dia seguinte, como sempre, Julieta voltará à cidade com o coração nas mãos.

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É um passatempo

“Não olho para isto como um negócio sério porque as autoridades governamentais não deixam. De momento sirvo esta actividade só para passar o tempo. O que ganho daqui é muito pouco, mas consigo resolver alguns problemas pontuais”, quem o diz é Dionísio Afonso, proprietário de uma viatura branca de marca Toyota Canter.

Ele não sabe que o município autorizou a prática daquela actividade a proprietários de viaturas de caixa aberta. Além de pessoas, nas horas vagas transporta material de construção, principalmente areia e blocos. Tal como Dionísio, outro motorista disse igualmente que o transporte de pessoas serve apenas para ocupar o tempo, pois tem outras tarefas.

“Só faço isto às segundas, quartas e quintas-feiras quando estou livre”. Há também quem o faça por altruísmo. Que o diga Xavier, um funcionário público de 50 anos, proprietário de uma carrinha ligeira.

“Fico muito sensibilizado quando vejo as paragens superlotadas e para ajudar a minimizar o sofrimento dou boleia. Cobro cinco meticais por cada indivíduo”, justifica, sorridente, Xavier.

O Governo

Concebida para pouco mais de 900 mil habitantes, a cidade de Maputo alberga actualmente, dois milhões de pessoas, segundo o censo populacional de 2007. Muitas delas trabalham ou estudam na zona urbana. Os transportes públicos quase não existem, por isso nasceram os “chapas”, uma rede de transportadores privados que minimizam a escassez de autocarros.

Num universo de aproximadamente um milhão de munícipes que diariamente se sujeitam às mais adversas condições para se deslocarem de um sítio para o outro, os TPM, Transportes Públicos de Maputo, transportam apenas 75 mil, o equivalente a 8,3%.

“Nos próximos dias, com o reforço da frota, a nossa perspectiva é aumentar para 80 mil passageiros por dia”, acredita o ministro dos Transportes e Comunicação Paulo Zucula, acrescentando a seguir que, “para minimizarmos o problema, precisaríamos mais ou menos de um reforço de 180 autocarros”.

Apesar da fé do ministro, os residentes da periferia de Maputo sabem que as carrinhas de caixa aberta continuarão a circular. Podem desaparecer dos olhos do centro da cidade, mas lá no coração dos bairros só elas podem andar.

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