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Um país que maltrata os seus enfermeiros

Integram a equipa médica e são os principais responsáveis por prestar assistência aos doentes, observando o seu estado geral, e sempre atentos à higiene e ao bem-estar do paciente. Mas a vida pessoal não tem sido fácil, até porque têm de sobreviver a tudo: baixo salário, sucessivas e infundadas reclamações dos utentes e o custo de vida. Assim são os nossos enfermeiros, cuja dedicação ao trabalho é ignorada.

O dia mal começou, e Maria* já está agitada. Na paragem de Magoanine, luta para garantir um lugar no “chapa” de modo a chegar a tempo e horas ao posto de saúde, seu local de trabalho, algures nos arredores da cidade de Maputo. Como sempre, teve de acordar muito cedo para fazer as tarefas domésticas.

Os transportes semicolectivos passam cheios. A única alternativa é a carrinha de caixa aberta. A maioria chega do bairro de Albazine apinhada de pessoas. Maria consegue um espaço entre a multidão, dentre eles, certamente, enfermeiros, professores, empregados domésticos e outras profissões nobres para a sociedade.

No interior da viatura, não há preocupação com a segurança e, muito menos, em relação às condições em que são transportados, até porque o mais importante é chegar ao posto de trabalho. Numa espécie de solidariedade, cada um vai segurando o braço do outro para evitar cair durante o movimento do veículo.

Maria tem 43 anos de idade, 16 dos quais dedicados a uma actividade importante e mal compreendida: cuidar dos doentes. Abraçou a enfermagem por paixão, a mesma que mantém até hoje, apesar das difi culdades. “Esta é uma profissão que deve ser exercida por gosto, sobretudo no nosso país, pois, ser for por necessidade de sobrevivência, condena-se a uma vida de privações de todo o tipo”, desabafa.

O enfermeiro auxilia directamente o médico, e cuida dos pacientes internados em hospitais ou clínicas. Observa o seu estado, está atento à higiene e ao bem-estar, e aplica remédios, quando necessário. Ou seja, o seu trabalho é no sentido de promover a recuperação do doente. Alguns trabalham no atendimento domiciliar a acidentados ou acometidos por doenças crónicas. “Mas o Estado e a sociedade não dão o devido tratamentoaos enfermeiros. Vivemos na penúria”, diz.

Às 7h45 Maria chega ao posto. Uma enorme fila de gente necessitada de atendimento sobressai aos seus olhos. A primeira coisa que faz é tomar o pequeno-almoço, até porque saiu de casa sem fazê-lo por falta de tempo.

Este grupo de profissionais aufere um salário entre 4779 e 8268 meticais, dependendo da categoria e escalão. Na sua maioria, dispõe de um agregado familiar composto por, pelo menos, cinco pessoas. Com essa remuneração, não dá para suprir todas as despesas, nomeadamente a renda de casa, alimentação e educação dos filhos. Aliás, a questão salarial é o grande constrangimento que afecta a profissão de enfermeiro, o que deixa a classe desmotivada.

João*, enfermeiro há 21 anos, é daqueles profi ssionais de saúde em quem os moradores do seu bairro depositam total confi ança. A qualquer hora do dia há sempre alguém a bater-lhe a porta porque um membro da família está enfermo. “Gosto do meu trabalho, apesar de não ser gratificante”, diz.

Enfermeiro-chefe de um centro de saúde na província de Maputo, João diz que “o país não ama os seus enfermeiros”, facto que se repercute no atendimento ao público. “Grande parte dos profissionais passa por dificuldades nas suas vidas diariamente e tem de trabalhar nessas condições. A atenção já não é a mesma”, afirma.

Flávia* é enfermeira há 31 anos. Actualmente, trabalha num centro de saúde localizado numa das zonas periféricas da cidade de Maputo e enfrenta várias dificuldades no exercício da sua profi ssão, nomeadamente o número excessivo de pacientes que deve atender por dia.

O número de utentes varia de acordo com a estação do ano. No Verão chega a atender perto de 100 pacientes por dia, e no Inverno 60, um facto que afecta negativamente o trabalho. “Atender 100 pacientes por dia não é fácil, uma vez que o enfermeiro que está a atender já está cansado e não tem paciência para ouvir o doente. Os pacientes murmuram devido à demora como se a culpa fosse nossa”, afirma.

Formada em enfermagem básica, categoria anteriormente denominada enfermagem, Flávia revela que ganha mensalmente 4.400 meticais, uma quantia, segundo a enfermeira, insuficiente para suprir as necessidades da família constituída por quatro pessoas.

Apesar de mais de 30 anos a trabalhar como enfermeira não tem casa própria. “Penso que o Ministério da Saúde devia criar condições para os trabalhadores de modo que estes tenham facilidades na aquisição de bens básicos como habitação, entre outros”, sugere.

A paixão pelo trabalho é enorme. Já teve a oportunidade de seguir outras profissões, mas optou pela enfermagem e não se arrepende da escolha que fez. “O meu maior prazer é saber que a pessoa que atendi goza de boa saúde”. Porém, diz não ser muito a favor do critério de admissão de pessoal para o sistema de saúde. “Trabalhar na área da saúde requer amor ou devoção à profissão. Não pode ser simplesmente pela facilidade de obter emprego seguro, porque não é fácil cuidar dos doentes”, afirma.

Flávia conta que o que mais marcou a sua carreira foi o que vivenciou no distrito de Memba, em Nampula, em 1983. Nesse local onde se encontrava a trabalhar, houve uma crise de fome que resultou na morte de muitas pessoas. Aliás, ela e os seus colegas só escaparam graças ao apoio disponibilizado pela Cruz Vermelha de Moçambique.

Nos seus postos de trabalho, estes profissionais lidam com o mesmo problema: a falta de alguns medicamentos – o que deixa as farmácias privadas como única alternativa para quem procura medicamentos.

Quando questionada sobre a higiene e segurança no trabalho, uma vez que, nos últimos tempos se tem registado a propagação de doenças infecto-contagiosas, os enfermeiros afirmam que o sector da saúde evoluiu muito nesse sentido, visto que existem materiais descartáveis, luvas e máscaras, o que confere maior segurança ao trabalhador assim como ao doente.

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