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Reflex Bigodão: um músico por acaso!

Messias Carlos Canchela, ou simplesmente Reflex Bigodão, como a sua legião de fãs o trata, na província de Nampula, nasceu para a música ao acaso. Depois de superar as vaias dos cidadãos descrentes em relação ao seu talento na arte de cantar, presentemente, esta personagem enfrenta o desafio de ter de ser artista numa cidade em que o músico local é vítima de todo o tipo de desrespeito.

Dos seus 28 anos de idade, cerca de 10 foram dedicados à música. No entanto, só nos últimos quatro anos da sua carreira artística, durante os quais teve de enfrentar muitos obstáculos, é que o músico nampulense começou a colher os frutos da sua relação com a música.

A popularidade das suas músicas, sobretudo nas regiões rurais daquela parcela do país, conduziu os seus admiradores a chamá-lo artística e carinhosamente de Reflex Bigodão. Não obstante, a enérgica paixão que possui em relação ao teatro e à dança, ao que tudo indica, é na música que Bigodão “encontra o buraco para a sua agulha”.

Desengane-se, então, quem pensa que a ligação deste artista à música tem sido, desde sempre, bem-sucedida. “Na altura, sofri muitas críticas por parte de algumas pessoas que não acreditavam no nascimento do músico Reflex. Os companheiros que estiveram a aprender comigo começaram a imitar o estilo de música que eu fazia depois de se terem apercebido de que eu estava a ganhar alguma popularidade”, refere o cantor sem deixar de citar a sua fonte de inspiração e motivação, o seu mestre Rei Costa (já perecido) cuja casa lhe servia de espaço para realizar os primeiros ensaios.

Entretanto, apesar de, actualmente, Moçambique ser chamado de “País do Pandza”, Reflex Bigodão revela que não canta Rap, Dzukuta, muito menos Pandza. Ele explora um tipo de música que se chama Tofia que – além de ser uma extensão da dança tradicional Tufo, bastante praticada em Nampula – está a ser alastrada para outras províncias do norte do país. Aliás, de acordo com o artista, existe um outro tipo de dança, Purty, recentemente criada em Nampula.

Refira-se, então, que nos seus primeiros seis anos de envolvimento com a música – altura em que, mesmo sem cachê, actuava por amor à camisola, como forma de se autopromover – Reflex Bigodão trabalhou com músicos mais experientes como Charifo Victor Salimo, a quem considera o seu instrutor, a par dos seus companheiros de jornada 3C Chocolate, Faia, Mr. Ama, Professor Lay, Marcelo Am Too, incluindo o falecido Nelson Americano.

Personalidades como, por exemplo, os radialistas Docles José, Octávio Fonseca, Victor Máquina e Abdul Cadre – que, imediatamente, acreditaram no seu talento – foram os principais promotores do seu trabalho.

A dura experiência de viver da música

Entretanto, apesar das dificuldades que se devem superar para se viver como músico, a paixão que Bigodão nutre por esta arte é a razão que o move a investir parte dos lucros do seu negócio informal (ele é vendedor ambulante do bairro de Namicopo, algures na cidade de Nampula).

A verdade é que, de acordo com Reflex, em Nampula – como em qualquer parte do país – é muito difícil viver com base nos rendimentos da actividade musical. Trata-se de uma realidade agravada pela prática de contrafacção de objectos artísticos, com enfoque para os discográficos, cuja produção é essencialmente proveniente de operadores “piratas” os quais, por essa razão, não garantem nenhum qualidade do trabalho que faz.

Para fundamentar o seu ponto de vista, Reflex refere que a precária condição em que artistas talentosos como Puto Litos, Tony e a cantora Gilara é disso um caso ilustrativo. Nas palavras de Bigodão, músicos, como ele, sentem-se lesados pela atitude dos donos dos estúdios de gravação musical.

Ou seja, “não se justifica que uma pessoa que se dedica à venda de discos gravados nos bairros esteja a construir residências com material convencional e a melhorar a sua condição social, numa situação em que o artista – a fonte da criação – não ganha nenhuma visibilidade do trabalho que faz”.

Precariedade dos cachês

Quando o assunto é a actuação do músico local – sobretudo, entre os emergentes e jovens – em Nampula, os promotores de espectáculos musicais, incluindo os cantores, manifestam um total desconhecimento, que fundamenta a não aplicação do Regulamento de Espectáculos e Divertimentos Públicos aprovado, no ano passado, pelo Governo.

Invariavelmente, em Nampula, os artistas locais não estabelecem nenhum tipo de contrato na sua relação laboral com os promotores de espectáculos.

É em resultado disso que eles recebem o cachê depois de realizarem o concerto em função da demanda pública ao evento. O imbróglio – nessa conexão de trabalho – cria-se a partir do momento em que determinados promotores de eventos culturais se comportam de forma desonesta para com os músicos. No fim das realizações, eles não pagam os valores combinados, alegando a fraca adesão aos concertos.

O pior é que para Bigodão – apesar de se saber de que a Associação dos Músicos Moçambicanos possui delegações provinciais, em todo o país – em Nampula, não há nenhuma entidade oficial que luta pela defesa dos interesses da classe.

O impacto disso é uma realidade lamentável que se pode perceber nas palavras de Reflex. “Nesta região não temos alguém para defender os direitos do autor de modo que a pirataria seja combatida”.

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