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Arte e(m) moda de qualquer jeito!

Na terceira edição das Ocupações Temporárias – decorrida no mês passado, em Maputo – a designer moçambicana, Sandra Muendane, migrou da moda para as artes, acabando por criar e ampliar a sua esfera de acção e de representação, além de comprovar que a ideia de que “outra moda é possível” se impôs, no seu próprio país, como uma “Estrangeira” a ter em conta…

Há bastante tempo que Sandra Muendane trabalha com a moda. Pelo menos, sob o ponto de vista profissional, decorreram sete anos. Ela formou-se na área de designer de moda em 2005 em Lisboa. No ano passado, altura em que a cidade de Maputo foi, mais uma vez, palco do movimento anual de artes contemporâneas Ocupações Temporárias, não resistiu à ideia de ampliar o seu espaço de acção e de representação da sua produção, participando no evento.

Como corolário da iniciativa em alusão surge a ideia de apresentar aos usuários de um dos mais dinâmicos e estrangeiros espaços que a capital moçambicana possui – o Aeroporto Internacional de Maputo – uma túnica, gigantesca, a qual chama “outra moda é possível”. Se a designer não confundiu o nosso sentido de arte, no mínimo, induziu- -nos a pensar nela e na falta que ela – ainda que raras vezes tenhamos consciência disso – nos faz.

Seja como for, carentes ou não de arte, conscientes ou não desta necessidade, a verdade é que – durante os dias que se implantou nas instalações do aeroporto da capital moçambicana – o monstro “outra moda é possível” incomodou os cidadãos que por lá se fizeram presentes.

Ao longo das duas horas que o nosso repórter sociocultural permaneceu no local em que a obra se encontra, foi possível acompanhar o espanto, os sorrisos contidos no rosto de algumas pessoas, o não saber o que fazer diante daquela obra imponente, ou mesmo, na pior das hipóteses, o recorrer à arte para disciplinar – mesmo que a intenção não fosse necessariamente essa – as mais irrequietas crianças que, com os país, se fazem ao Aeroporto Internacional de Maputo.

Diante da obra, por indução do mote desta edição das Ocupações Temporárias, Estrangeiros, é quase impossível não pensar no dito conceito como também nas implicações que daí derivam. Uma pessoa, em dado lugar, pode ser conotada como estrangeira a partir do seu porte físico, do seu vestuário, da sua carapinha, do modo de falar, de pensar, do seu olhar, das coisas que porta – muito em particular quando se encontra num estabelecimento aeroportuário – e tais qualidades mesclam-se na “outra moda é possível” que se diz ser obra de arte, impelindo-nos a pensar nas relações entre Moçambique e a República Sul-Africana.

A um nível ideológico encontram-se contidas, em si, mensagens sobre uma pretensa necessidade do progresso, as contínuas migrações das pessoas pelo mundo, as complicações que se vivem nas fronteiras, a busca pelo refúgio por parte dos expatriados – filhos que abandonam os seus países em resultado de conflitos bélicos –, as incertezas que açoitam pessoas desta natureza. Esta é a interpretação que fizemos, durante o tempo em que nos sentimos em uníssono com aquela peça.

Ou seja, quando seguimos os seus ritmos internos com o meio exterior, até que a sua criadora nos revelou que a marioneta – que nos recordava a ideia dos homens em movimento – foi simplesmente utilizada como suporte para que a “outra moda é possível”, neste caso, a túnica criada por uma técnica de Patchwork – que se traduz na ligação de tecidos – ganhasse uma forma vertical.

É irrecusável que sendo designer de moda de formação, actuando nesse sector, Sandra Muendane – esta mulher que evolui com uma forte consciência de oportunidade – sempre participou em desfiles de moda, incluindo actividades que envolvem a produção de roupas para o pronto-a-vestir, vivendo, desse modo, trancada no seu atelier preocupada em parir e vender pecinhas de roupa.

Entretanto, diz-nos ela que, a grande novidade, é que “quando tive a possibilidade de participar nas Ocupações Temporárias constatei que podia ser uma boa experiência na perspectiva de que – como se refere no mote da minha obra “outra moda é possível” – eu podia abordar a moda de outras formas diferentes das tradicionais.

Desta vez, como uma obra de arte procurando transmitir mensagens e comunicar-me com as pessoas, incluindo expressar a mim mesma em interacção com os outros. Basta que se tenha em mente que a linguagem patente na criação não é pessoal, abrange uma sociedade inteira. Trespassa uma relação de estilo e moda, essa experiência de ir e vir com modelos”.

Seja como for, designer de moda ou não, nem Sandra Muendane – que com “outra moda é possível” vasculha as possibilidades de ser e estar nas artes – nos consegue convencer de que os indícios dos Paper bags, estes sacos contendo farinha Top Score, aparecem nesta obra simplesmente por/para se tornarem engraçados num país altamente dependente da África do Sul onde o produto é fabricado.

Aliás, a respeito do consumo de produtos importados – ainda que Sandra Muendane exalte as boas relações que se desenvolvem entre ambos os países – não sente muito agrado no facto de Moçambique continuar a sujeitar-se à África do Sul ou ao exterior.

“Eu acho que se desenvolveu uma relação de amizade, em que as fronteiras – entre os nossos países – estão abertas para a circulação de pessoas como de produtos. Mas, infelizmente, penso que quem mais demanda maior partido disso, porque os produtos não são gerados no nosso país, são os nacionais de onde os bens têm origem. Ou seja, seria muito melhor se os bens de que necessitamos fossem produzidos no nosso país, onde também existem (quase) todos os factores de trabalho e de produção. Não sei o que nos falta para revertermos este cenários”, afirma.

Por exemplo, antigamente, na altura em que a empresa TEXLOM estava operacional, a capulana era produzida em Moçambique. Agora, “temos matéria- -prima para o efeito, mas faltam-nos infra-estruturas. Essa é a parte que não é muito agradável. De qualquer forma, penso que a miscigenação faz parte da criação de uma identidade cultural de uma nação, de uma sociedade, e penso que isso é sempre benéfico”.

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