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“Não acredito naquela mãe que vai deixar de realizar os seus sonhos por causa do filho!”

A primeira pedagoga musical moçambicana, formada no Brasil, Sónia André, é uma mulher de causas. Jovem, solteira, com uma criança de apenas seis meses de idade nas costas (rumando para um país alheio, Brasil, a fim de estudar Ensino de Artes), em 2007, Sónia André experimentou as intempéries de ser mãe e marinheira de primeira viagem.

Foi duro, não dá para duvidar, mas, nos dias que correm, talvez, esta pedagoga na área da música seja um exemplo para milhares de moçambicanas. “Não quero acreditar naquela mãe que vai deixar de realizar os seus sonhos por causa do filho!”, começa por dizer ao mesmo tempo que se prepara para argumentar o seu ponto de vista.

O facto é que as vicissitudes vividas por Sónia André, esta mulher que “abandonou” o país alguns meses depois de ter sido mãe, são uma extensão daquilo que a filha, Thandy da Conceição, irá contar sobre a sua infância no futuro.

Em Moçambique, estudou no Instituto Superior Politécnico e Universitário (ISPU). No Brasil, nos cursos de pós-graduação, formou-se na área de Ensino de Artes na Universidade Federal de Alagoas, onde está prestes a terminar o seu mestrado em Educação Musical. No entanto, como é óbvio, a sua experiência de mulher impele-nos a preterir uma abordagem da personagem – como uma protagonista válida e, talvez agora, perita nos tópicos das metodologias do ensino da música – de modo que ela não passe despercebida em nenhum lugar.

Em certo sentido, ao sujeitar a filha a viajar para um destino quase incerto, obrigá-la a permanecer na universidade – e, em certo grau, participar nas aulas, o que poderia ter gerado nela um impacto indeterminado – Sónia André sacrificou a sua filha. Se ela fosse questionada em relação a esse episódio, sem titubear, André reconheceria que de facto pensou em todos os riscos implicados, “por isso não aconselho a nenhuma mulher – mesmo que seja em Moçambique – a levar um filho recém- nascido para o estrangeiro. Mas também não quero acreditar naquela mãe que vai deixar de realizar os seus sonhos por causa de um filho”, reitera.

A esta mulher, Sónia André – que desenvolve os seus projectos com maior probabilidade de erro, porém sem medo de errar – não faltam argumentos. “Tive de colocar isso na balança, como forma de avaliar onde é que me seria oneroso, porque se eu deixasse de seguir a minha formação e abdicasse de seguir o meu sonho – que possui impacto na vida da minha filha – acredito que seria como se estivesse a jogar a minha frustração na criança. Por essa razão, tive de balançar e arcar com as consequências que pudessem advir”.

Um espaço de tolerância à diversidade

Imediatamente, assim que chegou ao Brasil, Sónia André – considerada pelos brasileiros a negona, o mesmo que mulher negra, vinda de África – foi disputada pelos seus colegas brasileiros. “Penso que me dei bem porque considerei que aquela forma de tratamento podia ser artística, sob pena de me frustrar. Ria, brincava e cantava a nossa Marrabenta”, recorda-se ao mesmo tempo que acrescenta que “talvez, essa fosse uma forma de não me lembrar das minhas origens, Moçambique, da minha badjia, do meu chipfunye sempre que eu sentisse saudades”.

A verdade, porém, é que a implantação de Sónia André no Brasil – ao nível da UFAL, onde no Departamento das Artes era a única africana, negra, ida de Moçambique – aconteceu rapidamente, tanto que “no dia em que eu faltasse, os meus colegas e os meus professores telefonavam-me para saber onde eu me encontrava, ou se algo de errado estaria a acontecer comigo. Fiquei maravilhada quando me apercebi de que, afinal de contas, fazia falta naquele contexto. Uma falta, mas não no sentido académico, mas no espaço da amizade, de respeito à diversidade sociocultural, de interacção, de tolerância sexual, religiosa e até racial. Isso foi fundamental para que eu pudesse estar imersa naquilo que era o horizonte do pensar brasileiro”.

Inspirada na mulher moçambicana

Para fazer face à necessidade de ir à escola, assim que encontrou um apartamento naquele país latino-americano, Sónia André contratou uma empregada doméstica para cuidar da filha. No entanto, “sempre que voltava da escola, a minha filha só me exibia uma cara de um cachorro faminto. No outro dia, devido à má actuação da empregada, a menina queimou a bunda de tal sorte que, até agora, ela tem uma cicatriz – a qual chamo de carimbo do Brasil – de que me vou lembrar por toda a minha vida. A partir daí dispensei a empregada e passei a levar a criança comigo para a academia”, refere.

A partir daí, Sónia André, que era uma estudante que possuía a experiência da vivência da mulher moçambicana – entendida como aquela que, diariamente, acorda de manhã, muito cedo, com a sua criança nas costas, e ruma ao mercado para comprar produtos de diversa natureza; aquela que, todos os dias, desperta as quatro da matina e vai à machamba, com as suas crianças, porque não possui alguém com quem ela possa deixar –, diferente da intelectual, com uma vida bem estruturada, entendeu que não podia resignar.

O que se pretende explicar, de acordo com Sónia, é que “a mulher que se encontra nos mercados informais do nosso país para – debaixo de um sol escaldante – fazer negócio, e manter a família firme, é um grande exemplo. Eu tinha que fazer o mesmo trajecto, porque o que sucedeu é que apenas se havia mudado o cenário, mas a realidade era quase a mesma, a luta da mulher pela sobrevivência”.

Logo, Sónia André despertou para o facto de que à semelhança daquela mulher moçambicana que se não fosse adquirir produtos para vender não podia sustentar a sua família, ela, também, se não se sacrificasse para estudar não se teria formado.

Elevar a qualidade do ensino

Em resultado da nossa experiência de contacto com Sónia André, interessa-nos ressaltar a forma ténue como ela pensa e aborda a cultura de maneira simplista, o que se pode constatar com base no “Projecto Cantando e Brincando Aprende-se” – por si idealizado e obrado, o qual em Moçambique será implementado nos próximos tempos – como forma de melhorar a qualidade do ensino musical nas escolas nacionais.

Nesta iniciativa, “o ponto central é que, para mim, não somente na música – mas em todo o processo do ensino e aprendizagem – se não se souber brincar, a pessoa não evolui”, considera a pedagoga musical ao mesmo tempo que esclarece que “não se trata de ser um brincalhão e fazer da brincadeira uma prática fútil, mas de uma brincadeira que me leve a uma reflexão, a uma construção de ideias, de identidade e de uma maneira de ser e estar na sociedade de modo aceitável”.

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