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Quem Quer Ser Bilionário? A Realidade

Está uma manhã escaldante de Abril no grande bairro de lata Mumbai, de Garib Nagar, onde vivem os mais pobres dos pobres da Índia. Estou dentro de uma barraca de cerca de 2,5 por 3 m sem telhado, a não ser que se considere como tal o plástico amarelo com um grande buraco, pendurado num dos cantos. A divisão está vazia, à excepção de um televisor partido, alguns pratos lascados, trouxas de roupa em sacos de plástico e três grandes bacias de lata.

As bacias são fundamentais: servem de sanita para a família de quatro que ali vive. Não é um local onde se esperaria encontrar uma das estrelas de Quem Quer Ser Bilionário?, um filme que ganhou vários Oscars e teve uma receita de bilheteira de 380 milhões de dólares nos primeiros oito meses. Mas é o lar de Azharuddin Ismail Sheikh, o rapaz de 10 anos que atingiu a fama ao representar o irmão dominador do herói enquanto criança. Azhar, vestido com uma camiseta vermelha, sentado num tapete sujo estendido no chão de terra, fala da sua viagem maravilhosa a Los Angeles para a cerimónia dos Oscars e da pobreza da sua vida quotidiana. O seu sono, conta, é muitas vezes interrompido por ratazanas que lhe mordem os pés.

Enquanto conversamos, ele está continuamente a lançar e a apanhar um troféu do tamanho de uma bola de ténis que recebeu em Los Angeles pela sua representação. O troféu reluzente está rachado – tal como estão os seus sonhos. Há nove meses, no dia 22 de Fevereiro, Azhar percorreu o tapete vermelho da cerimónia dos Prémios da Academia com gente como Brad Pitt e Angelina Jolie, e depois comemorou no palco o seu filme Quem Quer Ser Bilionário?, que ganhou oito Oscars, incluindo o de Melhor Filme.

“O que gostei mais na América”, diz ele, “é que é limpa. Mas quando regressei à Índia, chorei. Ganhei o Oscar, mas a minha casa continuava a mesma.” Como é que isso pode ser? Como é possível a criança terse tornado estrela aclamada de um êxito internacional e não colher uma recompensa tangível? Como é que pena ainda num dos piores bairros de lata do Mundo? Ao tentar obter respostas críveis, depressa dou com a pista de uma rede de ganância, indiferença institucionalizada, oportunismo e boas intenções mal dirigidas. Uma e outra vez concluo que, não importa quantas vezes as pessoas – incluindo as que fizeram milhões com o filme – dizem que querem melhorar as vidas de Azhar e da sua colega em Quem Quer Ser Bilionário?, as duas crianças acabam sempre pior do que antes.

Até que, por fim, encontro algumas pessoas – incluindo um produtor britânico – que estão a tentar fazer o que deve ser feito. Quando Quem Quer Ser Bilionário? obteve as nomeações para os Oscars, em Janeiro, o realizador Danny Boyle anunciou que tinha conseguido que Azhar e a sua co-protagonista de 10 anos, Rubina Ali, também residente do bairro de lata, passassem a frequentar uma escola inglesa num novo bairro. Boyle disse que, para o efeito, fora criado um fundo para a sua educação, o Fundo Jai Ho. E logo após os Prémios da Academia, o jornal londrino The Sun anunciou que “as estrelas de Quem Quer Ser Bilionário? iam receber novos apartamentos de qualidade” dados pelo Governo Indiano.

Parecia um final feliz. Mas a história verídica estava só a começar. Após mais de dois meses de tais promessas, a edição indiana da Reader’s Digest de Julho publicava uma história de capa revelando que Azhar ainda vivia num bairro de lata sem um tecto sobre a cabeça. Durante a minha visita ao lar de Azhar, a sua mãe, Shamim, dizme que, quando acompanhou o filho a Los Angeles para os Oscars, tinha tentado saber mais sobre as promessas de dinheiro e de uma casa decente. “As pessoas estavam sempre a dizer que íamos ter uma casa”, diz. “Ou que íamos receber um fundo quando ele acabasse os estudos.

Mas não há comprovativos . Não temos uma simples folha de papel. Quando estive em Los Angeles, tentei falar com Danny Boyle. Ele pareceu incomodado. As pessoas que o rodeavam disseram-me que não era a altura nem lugar para fazer exigências daquelas”. Cega de um olho e vergada pelo cansaço, Shamim pede-nos um favor. Talvez nós pudéssemos abordar Boyle por ela. “Passem- lhe uma mensagem, não vá ter-se dado o caso de ele ter entregado o dinheiro e alguém aqui o ter retido”.

Entretanto, Azhar continua a não conseguir dormir de noite por causa do calor sufocante, dos mosquitos que zumbem nos seus ouvidos e das ratazanas que lhe mordem os pés. E, pior que tudo, tem a preocupação constante de que os bulldozers do Governo venham mais uma vez destruir a sua barraca ilegal e os seus poucos haveres em mais um desses espasmos periódicos de erradicação dos bairros de lata nesta cidade de 15 milhões de pessoas, onde mais de metade da população vive na mais desgraçada miséria. Enquanto cinco galinhas cacarejam naquilo que Azhar chama a sua cozinha – um buraco no chão com uma panela pousada sobre uns quantos tijolos -, ele conta: “Muitas vezes, não há electricidade.

Suo muito à noite. E depois a água cai pelo telhado e todas as minhas roupas ficam molhadas.” Escolhido num casting para Quem Quer Ser Bilionário?, que o seu tio lhe conseguiu, Azhar recebeu 2000 euros pelo seu papel – uma mera primeira prestação da nova vida que lhe prometeram quando fez o filme. Mas Azhar diz que hoje não quer falar de dinheiro. Coloca as mãos sobre os olhos para me dizer que já lhe fiz demasiadas perguntas. Após o meu regresso a Los Angeles, tento obter respostas dos responsáveis pelo filme. O realizador Boyle recusa ser entrevistado.

O mesmo acontece com Peter Rice, antigo presidente da Twentieth Century Fox Searchlight, a empresa que comprou o filme para distribuição nos Estados Unidos. Passam-me de um porta-voz da Fox para outro, as evasivas típicas de Hollywood quando ninguém quer falar. Após uma semana de telefonemas infrutíferos, finalmente falo ao telefone com o produtor de Quem Quer Ser Bilionário?, Christian Colson, que está no seu escritório em Londres. Ele mostra-se claramente preocupado: “Sou um produtor, mas tive de me tornar assistente social. Não fiz contrato para isto.” Colson informa-me que ninguém supusera que um filme de baixo orçamento, 15 milhões de dólares, que esteve quase a seguir directamente para o circuito de DVD´s se tornasse um fenómeno a nível mundial.

E, portanto, quem poderia imaginar o efeito que este sucesso iria ter sobre os miúdos? No entanto, insiste que, antes de o filme se ter transformado em ouro na bilheteira, tanto ele como Boyle cumpriram a sua obrigação moral para com os miúdos do bairro de lata. Decidiram colocar Azhar e Rubina numa nova escola e criaram um fundo, estimado em pouco menos de 100 000 dólares, para quando atingirem a maioridade. “Queremos dar a Azhar e a Rubina um incentivo”, diz Colson. “O que estamos a tentar fazer – garantir que os miúdos não deixem a escola – é dar–lhes uma remuneração mensal.

E na ponta do arco-íris (os 18 anos, se se mantiverem na escola) receberão um pote de ouro. Estávamos a conseguir”, prossegue. “Eles inscreveram-se em Junho de 2008, e o Danny e eu fomos vê-los em Janeiro. Estavam na escola e muito felizes. Mas depois o filme tornou-se um êxito mundial. E isso”, remata Colson, “mudou tudo.” Rubina e Azhar começaram a receber ofertas para aparecer em anúncios e em desfiles de moda, e os pais de bom grado autorizaram que faltassem à escola para ganhar dinheiro.

As famílias também começaram a discutir com os responsáveis pelo filme a melhor forma de gerir o fundo e quais as condições. E ficaram mais uma vez desapontadas quando um porta- voz governamental negou as notícias dos jornais de que o Governo iria oferecer a cada família um apartamento nos subúrbios. Depois, quando parecia que as coisas já não podiam piorar, agravaram-se dramaticamente. No dia 19 de Abril, umas meras sete semanas depois dos Oscars, o pai de Rubina foi detido por tentativa de vender a filha por 365000 dólares a um repórter de um tablóide londrino que se fazia passar por um xeque do Dubai. De acordo com o jornal News of the World, da Grã- Bretanha, o irmão do pai diz ao “xeque” que o preço é justo: “A criança agora é especial. Não estamos a falar de uma criança vulgar. É uma criança dos Oscars!”

Apesar da gravação em vídeo, a Polícia retira a acusação ao fim de uma semana por falta de provas, para além da reportagem do tablóide. Três semanas mais tarde, os bulldozers do Governo destroem a barraca de Azhar. Durante a demolição, Azhar diz que um polícia lhe bateu com uma vara de bambu para o forçar a deixar a barraca. A família reconstrói rapidamente a barraca, como tantas vezes fez. Tudo o que necessitam é um plástico para o telhado, alguns tijolos para fazer o lume para cozinhar e tapetes sujos para dormirem.

As famílias chegaram ao fundo do poço. E, finalmente, têm uma oportunidade. Inspirado pela história de capa da edição indiana da Reader’s Digest e pelas gravações em vídeo que fiz de Azhar, um programa de grande audiência da cadeia NBC, o Dateline, divulga nos Estados Unidos a história do drama das duas crianças. O programa e os títulos dos jornais subsequentes parecem ter levado os acontecimentos a um ponto de ruptura. Finalmente, começam a acontecer coisas boas. Com a crescente pressão da opinião pública, os responsáveis pelo filme regressam a Mumbai para tentar resolver aquilo que se tornou uma embrulhada. No dia 5 de Junho, o produtor Colson telefona-me com boas notícias: o seu Fundo Jai Ho vai dar à família de Azhar um apartamento-estúdio de tijolo e cimento, com água corrente, electricidade, uma cozinha e casa de banho.

Fica em Santa Cruz, a uns meros 6 km do bairro de lata de Mumbai, mas a mundos de distância. Adicionalmente, os produtores juram voltar a pagar o estipêndio de 135 dólares mensais a cada família e designar administradores indianos para o Fundo Jai Ho, incluindo Noshir Dadrawala, o respeitado presidente do conselho de administração do Centro Mumbai para o Avanço da Filantropia. “O melhor”, diz Colson, “é que os administradores indianos têm como dever agir empenhadamente no interesse das crianças, e não no interesse dos responsáveis pelo filme ou dos pais das crianças.” Os apartamentos também serão mantidos no fundo para as crianças. Tornar-se-ão proprietárias deles aos 18 anos, sob a condição de continuarem a estudar. “Na ponta do arco-íris, há mesmo um pequeno pote de ouro”, diz Colson. Além de se tornarem proprietárias dos apartamentos, irão ter um montante para cada uma.

“O dinheiro poderá ser utilizado para montar um negócio ou para o casamento”, diz, “mas não poderá ser gasto antes disso.” Haverá um final feliz para esta história? Para Azhar, talvez sim. Ele e a sua família mudaram-se em Julho para o apartamento de cerca de 80 m2 em Santa Cruz, hoje avaliado em 50 000 dólares. Rubina poderá ter menos sorte. O seu pai rejeitou o apartamento oferecido em Junho, a remuneração mensal e o fundo para Rubina, que viria com aqueles. Colson diz que “o pai não quer nada em fundos, quer que tudo seja detido por ele – o dinheiro, a propriedade e o controlo directo dos bens.

É coisa que não estamos dispostos a conceder”. O pai de Rubina disse à Reader’s Digest que sente que o fundo presta “muito mais atenção a Azhar”. Diz que a família de Azhar foi convidada a ver e aprovar a casa há meses, enquanto ele “foi mantido na ignorância”. Neerja Mattoo, um dos administradores, diz que o pai insistiu em que a casa fosse em Bandra, um subúrbio caro. “Para nós, é uma questão de honra”, diz Colson. “Queremos que dentro de cinco anos as crianças digam que fazer Quem Quer Ser Bilionário? tornou a sua vida melhor, e não que a arruinou. Temos de continuar a tentar.”

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