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Quando é que seguimos o exemplo do vizinho?

Quando é que seguimos o exemplo do vizinho?

Na quarta-feira passei, à vol d’oiseau, os olhos pela imprensa sul-africana e detive-me na mais recente polémica ocorrida no poderoso vizinho. No último sábado, realizou-se em Pietermaritzburg um encontro de membros da Vukuzakhe, uma espécie de associação de empreiteiros da região do Kwazulu-Natal. O propósito era homenagear Sbu Ndebele, actual ministro dos Transportes do novo Governo de Zuma que entre 1994 e 2004 deteve o pelouro das obras públicas naquela província. Durante o seu consulado, Sbu, com um vasto programa de auxílio a pequenos construtores avaliado em 10 biliões de rands, beneficiou 30.000 associados da Vukuzakhe. Por conseguinte, no sábado foi a vez destes retribuírem o que ele fez pela instituição durante esses 10 anos. E não foram nada cacatas*: um Mercedes Benz S 500 avaliado em cerca de 1 milhão de rands, um ecrã plasma, vouchers de gasolina e pasme-se… duas vacas. Sbu agradeceu e regressou a casa satisfeito. A imprensa e a oposição é que não mais o largaram até ele largar os presentes. Durante dois dias (segunda e terça-feira), a sua figura esteve presente em 12 chamadas de capa nos jornais e 15 políticos da oposição apelaram à devolução das prendas, inclusive os líderes da SACP e da Cosatu, aliados tradicionais do ANC.

A lei sul-africana, no capítulo da Ética, refere que qualquer dádiva superior a mil rands a figuras que exerçam altos cargos políticos deve ser dada a conhecer ao chefe de Estado e posteriormente integrada numa lista de pertences elaborada pelo Parlamento. Todos estes passos devem ser efectuados num prazo de 30 dias. Sbu informou Zuma em dois dias. E, tanto este como o secretário-geral do ANC, aconselharam-no a ficar com o carro se assim o desejasse. Porém, a pressão da oposição e, sobretudo, a força dos ‘media’ – que mostraram bem porque é que lhes chamam o 4º poder – falaram mais alto. Sbu convocou esta quarta-feira a imprensa para informar que decidira devolver as prendas, dando um exemplo de transparência que o novo Governo tanto advoga, aproveitando para dizer que em 15 anos de governante a única coisa que realmente tinha era o seu bom nome.
Não prevejo, pelos menos tão cedo, que esta moda se possa estender a outros países de África, simplesmente porque na maioria deles faltam duas coisas essenciais que a África do Sul há muito possui: liberdade de imprensa e uma sociedade civil forte e plenamente consciente dos seus direitos. Já imaginaram o que seria dos nossos governantes se fossem pressionados a devolver os presentes que lhes são oferecidos pelos grandes empresários da nossa praça? Ficariam seguramente bem mais “pobrezinhos”.

*Palavra changane que pode ser traduzida para português como sovina ou forreta.

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