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“Crime e Castigo”: a guilhotina e a cadeira elétrica na arte

Coberta com véu negro, uma guilhotina usada nas praças da França durante muito tempo causa arrepios em uma exibição em Paris que explora a fascinação dos artistas pelo crime, e sua consequência, o castigo. Quase 30 anos depois da abolição da pena de morte na França, o Musée d’Orsay, que abriga os grandes mestres do impressionismo, ousou organizar uma exibição para explorar a relação entre a arte e o crime.

“Esta é a primeira vez que um museu de arte se atreve a mostrar um objeto tão atroz como uma guilhotina”, afirmou o ex-ministro de Justiça francês Robert Badinter, completando que há anos sonhava com uma exposição que abordasse a questão: “por que o homem mata?”. “Só o homem e os ratos matam por matar”, declarou Badinter ao percorrer a exposição, que contou com um dos mais importantes historiadores franceses, Jean Clair, como curador.

Ele reuniu em torno de 475 obras no tempo recorde de um ano. “Os artistas sempre foram fascinados pelo crime, pela violência do sacrilégio, pelo sexo e pela morte. E esta é a primeira vez que uma exposição ilumina essa obsessão dos artistas pelo crime e pela Justiça, que também mata para castigar”, disse. A exibição, que será aberta ao público na terça-feira, “inscreve-se na história das ideias”, explicou Clair, enquanto apresentava dezenas de pinturas e objetos como uma porta de uma prisão marcada com grafites, ou diários da época que revivem a paixão do público pelo crime e pela guilhotina.

A tese do ex-ministro da Justiça é que nenhum escritor, por mais poderosa que seja sua escrita, pode retratar o crime com tal força como fez, por exemplo, Cézanne em “L’Assassinat”, O Assassinato, ou Edgar Degas em “Le Viol”, O Estupro, e que nada pode representar o horror da pena de morte como faz a arte. “A arte é obrigada a dizer o que quer em uma só imagem. Por isso, os artistas retratam melhor que os escritores a violência criminal”, completa.

Clair lembra que o crime sempre apaixonou os artistas surrealistas, que o consideravam um “ato subversivo”. A exposição, de acordo com os organizadores, é um percurso por alguns dos grandes crimes, míticos ou não, que fundaram nossa cultura. “Saturno, que devora seus filhos, o fraticídio de Abel por Caim, o parricídio de Édipo: o crime, o sacrilégio absoluto, e seu castigo, foram retratados por pintores como (Théodore) Géricault, mas também por artistas modernos como Pablo Picasso e Andy Warhol”, afirmou Badinter.

“A exposição é baseada na tese de que o homem leva em si mesmo o instinto da morte, que o conduz ao crime?”, pergunta AFP. “É um instinto que está reprimido, até que se comete o crime”, diz. “E, por isso, fascina os pintores, que não se interessam por temas como escândalos financeiros”, respondeu. Badinter explicou a razão para limitar a mostra ao período da Revolução Francesa até 1939: “Esse período foi de grande estabilidade das instituições legais e de Justiça, onde os processos e a Justiça eram públicos.

Os rostos dos acusados podiam ser vistos, podíamos ouví-los, assistir à execução”. “O castigo – a guilhotina – era um espetáculo público. No entanto, antes de 1789, os processos e o castigo se davam a portas fechadas”, explicou. “Na história da arte, esse período abarca desde David a Picasso”, afirmou Badinter, ressaltando que foi agregada à exposição uma magnífica serigrafia de cadeira elétrica, feita por Andy Warhol, para lembrar que ainda se aplica a pena de morte em diversos países, entre eles, os Estados Unidos.

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