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Procurando @Verdade – Domingos

Escrevo esta crónica no dia de aniversário do meu filho Domingos. O meu moreno, tímido, misterioso, generoso filho é a minha expedição amazónica, a minha batalha contra os mares inclementes do cabo Horn, a minha estadia entre os aborígenes, as minhas noites de bebedeira entre escritores berlinenses, as piñacoladas num barco nas Caraíbas, a dolce vita romana, um fim de tarde num café parisiense, uma fortuna ganha – ou perdida – no Caeser´s. Ele está nos livros que amei, nos filmes que me entusiasmaram, nas peças que me perturbaram, nas minhas vitórias, nas viagens que fiz e nas que não fiz.

Ele é na verdade muito mais que tudo isso: o meu Mingos é a mais bela e desafiante aventura que um homem pode viver. O nascimento de um filho é o único momento verdadeiramente radical na vida de um homem. As mãos fechadas daquela coisita pequena trazem dentro delas a nossa alma.

A nossa vida deixa de ser apenas nossa para ser a vida daquele ser que anuncia aos berros a nossa eterna dependência. Passamos a viver em função do dia em que ele nos chama pai e tememos o dia em que descobre que numa luta entre nós e o super-homem seríamos nós a levar uma carga de pancada.

Por qualquer magia, quanto mais os nossos filhos descobrem as nossas fraquezas mais e mais o nosso amor por eles se torna absoluto. Como se a descoberta daquelas fosse a poção que os faz crescer, como se a nossa humanização fosse fundamental para eles se tornarem ainda maiores deuses. O Domingos vai-se fazendo homem ao mesmo ritmo em que me vou tornando mais criança.

Sou eu agora que busco a aprovação no seu olhar, sou eu que penso no que ele pensará das coisas que faço, sou eu que espero a graça dum abraço, sou eu que anseio que ele me peça um conselho ou uma opinião, sou eu que corro para ele quando o Porto marca um golo. É ele que na sua generosidade me tenta fazer sentir importante quando me reclama tempo para conversar ou ir a algum lado.

O meu coração mal aguenta quando ele vem naquele passo arrastado – que é só dele – e no seu jeito meio ausente, meio perdido, sussurra: “gosto de ti, pá”. Não há maior amor, meu filho.

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