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“Prefiro o consenso ao confronto”

“Prefiro o consenso ao confronto”

Os seus críticos acusam-no de ser uma figura politicamente bastante apagada, ou melhor, demasiado diplomata para um posto tão político. Ban ki-Moon, o Secretário-Geral da ONU, em entrevista exclusiva ao diário espanhol “El País”, que @ VERDADE agora publica com a devida vénia, falou, entre outras coisas, das alterações climáticas, dos desafios da ONU, das expectativas da Administração de Obama, da ajuda aos países pobres. Tudo num tom calmo e pausado bem à maneira asiática.

P) – A ONU participou na criação da República da Coreia (Sul) e participou igualmente na guerra civil nos anos ´50. Poder-se-á dizer que a ONU é algo de substancial para a sua vida e para a sua carreira?

Ban-ki Moon (BKM) – A ONU, para mim, como coreano, era um grande ícone de esperança. Hoje preocupo-me em estender pontes entre os países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Após superar desafios difíceis, a Coreia é agora um país desenvolvido. Sabemos como melhorar uma situação socioeconómica e como conseguir a democratização. Deste modo, e socorrendo-me do meu exemplo, tento transmitir esperanças aos países em desenvolvimento. Quando noto o seu desespero tento convencer-lhes de que há esperança se trabalharem com as Nações Unidas. Olhem para o caso do meu país e de outros. Tenho argumentos para os convencer.

(P) – Sei que aos 12 anos escreveu uma carta ao então Secretário-Geral da ONU, o general Dag Mammarskjöld…

(BKM) – Sim, é verdade. A guerra civil coreana havia terminado há três anos e nós vimos as tentativas de democratização do país e a opressão que a União Soviética exercia. Por isso escrevi uma carta a Dag e, quarenta anos depois, converto-me em Secretário-Geral! Quando me dirigi pela primeira vez à Assembleia Geral da ONU pensei que não deveria ser Secretário-Geral se não fosse capaz de receber esse tipo de cartas de crianças de todo o mundo pedindo-me liberdade e democracia. Realmente, gostaria de ver o mundo livre da opressão e do medo, um mundo de pessoas livres. Essa é a minha ambição pessoal.

(P) – Toda a sua vida tem estado relacionada com a ONU. Converter-se em Secretário-Geral foi o culminar de um sonho?

(BKM) – Do ponto de vista pessoal, foi uma grande honra. Todavia, sei que há um longo caminho a percorrer e sou muito humilde na hora de pensar se serei capaz de enfrentar todos os desafios. Vejo tanta gente pobre, tanta gente doente, tanta gente oprimida e a sofrer devido a conflitos… Vejo tantos direitos humanos violados, em mulheres, crianças… Muitas vezes pergunto a mim mesmo: “o que posso fazer mais?”. O que posso fazer por esta gente? Isso motiva-me e dá-me muita energia.

(P) – Quando tinha 18 anos foi a Washington e num encontro com o Presidente John F. Kennedy, quando este lhe perguntou o que queria ser disse-lhe que pretendia ser diplomata. Foi assim?

(BKM) – Sim, de facto estive com o Presidente Kennedy, mas éramos 40 jovens estudantes de vários países e eu não tive tempo para falar com ele. Porém, houve um repórter americano que me fez essa pergunta à saída da visita e eu respondi-lhe que queira ser diplomata. Aqueles tempos eram de grande inspiração para um jovem estudante coreano que vinha de uma zona muito devastada de um país pobre. Nessa altura não tínhamos nada na Coreia e eu era um rapaz do mundo rural. Imagine o choque cultural nos EUA!

(P) – Vivia no campo, numa zona pobre do país, mas já tinha tido contacto com soldados americanos que haviam sido enviados para o país?

(BKM) – Sim, sim. Os EUA formam um dos 21 países que enviaram tropas para a Coreia sob a égide da ONU. E, ao contrário de outros, os soldados americanos continuaram na península para nos defenderem da Coreia do Norte. A relação com os EUA foi crucial para a Coreia e, desta forma, tive muito contacto com americanos e com a sua cultura.

(P) – Em relação à sua forma de trabalhar, o senhor é criticado por evitar muitos confrontos inevitáveis. Quer comentar?

(BKM) – Não estou totalmente de acordo com essa ideia. Há vários estilos de trabalho bem como de liderança. O meu estilo pessoal é muito consensual. Dou muito valor ao consenso. Como diplomata, tento abeirar-me dos problemas de uma forma objectiva. Quando realmente se quer resolver algo de complexo e os actores encontram-se em posições muito antagónicas, é necessário escutar ambas as partes e tentar uma solução de consenso. É a melhor maneira para fazer respeitar a autoridade. Além disso, o Secretário-Geral deve representar 192 países e deve mostrar-se equilibrado na defesa dos princípios consagrados na carta das Nações Unidas. Quando estão em jogo princípios globais como os direitos humanos, então tenho uma voz muito activa, como foi o caso recente de Gaza e de outras crises.

(P) – Pede-se que o seu papel seja mais político do que diplomático. Está preocupado com a falta de visibilidade?

(BKM) – O meu trabalho é mais político do que diplomático. Requer liderança política e creio, sinceramente, que tenho demonstrado possuí-la. Orgulho-me de poder dizer que me reuni com mais líderes políticos do que qualquer outro líder político do mundo. Houve dias em que me avistei com 15 líderes e visitei quatro países, como acabo de fazer devido ao conflito de Gaza. Teoricamente, podem encontrar-se 192 estilos diferentes nos líderes dos 192 países. Eu tenho o meu próprio e creio que é bastante apreciado.

(P) – Vivem-se momentos de esperança com a nova liderança norte-americana. O senhor também comunga desse optimismo?

(BKM) – Creio que entrámos numa nova era e que as relações entre os EUA e a ONU vão melhorar bastante.

(P) – Sim para a organização é muito importante ter uma boa relação com os EUA…

(BKM) – Sim, claro. 22% do orçamento da ONU provém dos EUA, o que o torna o membro mais importante da organização. Os EUA e a ONU partilham objectivos e ideais consagrados na carta das Nações Unidas: paz, segurança, desenvolvimento e direitos humanos. Senti-me muito animado quando, no passado dia 23 de Janeiro, falei com o Presidente Barack Obama e pude comprovar o seu grau de compromisso. Falámos das alterações climáticas, da segurança alimentar e também dos conflitos actuais, particularmente o do Médio Oriente. Abordámos igualmente a reforma da ONU, que pretende tornar mais eficaz a organização e gerar maior confiança para os desafios futuros.

(P) – Falaram de uma reforma do Conselho de Segurança?

(BKM) – Considerando os tremendas mudanças ocorridas na cena política desde a sua fundação, há 63 anos, creio que todos estamos de acordo na absoluta necessidade de reforma do Conselho de Segurança. Essa reforma passa pela sua democratização, de modo a torná-lo mais representativo e transparente. Creio que em relação a este princípio não há qualquer objecção. Agora como se vai processar essa reforma e quem deve ter assento permanente tem sido objecto de discussão já há vários anos. Mas essa decisão é dos Estados membros e não do Secretário-Geral.

(P) – Parece-se-lhe que os cinco membros permanentes estão dispostos a debater a entrada de outros membros para o grupo?

(BKM) – Não sei, mas é uma matéria muito sensível sobre a qual não compete ao Secretário-Geral tomar qualquer posição.

(P) – Quer precisar quais os primeiros passos que espera sejam dados pela nova administração norte-americana em conjunto com a ONU?

(BKM) – Este ano de 2009 vai ser crucial em matéria de alterações climáticas. Há também inúmeras crises: alimentar, energética, Congo, Darfur, Zimbabwe, Somália…mas as mudanças climáticas são uma ameaça global para todo o planeta, por isso há que unir esforços e vontades políticas para mobilizar todos os recursos ao nosso alcance. Em Dezembro temos de obter um acordo equilibrado, efectivo e aceitável que substitua o Protocolo de Quioto e nesse campo creio que a administração Obama pode ser muito pró-activa. A luta contra as alterações climáticas deve ser encabeçada pelos países desenvolvidos porque foram as que mais contribuíram para o aquecimento global. Além disso, estes são os que possuem capacidade tecnológica para enfrentar o problema.

(P) – A crise económica pode dar uma ajuda na redução das emissões de gases?

(BKM) – A crise financeira é um assunto muito sério e urgente e, por conseguinte, os pacotes de incentivos que pretendem amenizá-la ou resolvê-la são bem-vindos. Contudo, não se devia esquecer a urgência de enfrentar as alterações climáticas.

(P) – Obama já assinou o documento para encerrar a prisão de Guantánamo. Quer comentar?

(BKM) – Desde o início do meu mandato que pedi, por razões humanitárias, o seu fecho. Congratulei-me com a decisão. Agora os EUA estão em consultas com vários governos no sentido de poder acomodá-los em outros países.

(P) – Se dependesse de si, o que faria com a base de Guantánamo? Construía naquele lugar um memorial, um museu?

(BKM) – Isso é algo que excede as minhas funções (risos).

(P) – Os recentes resgates financeiros aos bancos por parte dos Estados envolveram cifras astronómicas como 700 mil milhões, 300 mil milhões. Comparado com isto, os montantes envolvidos no combate à fome são irrisórios. Esta comparação não será imoral?

(BKM) – Considerando o impacto da crise global, creio que as quantidades dispendidas são necessárias, mas os países mais industrializados não devem esquecer os seus compromissos de ajuda. A Assembleia Geral aprovou que os países ricos direccionem, para 2015, 0,7% do seu PIB à ajuda oficial ao desenvolvimento.

(P) – A tendência geral é reduzir a ajuda. Que opinião lhe merece o facto de os países ricos não cumprirem com os tais 0,7%?

(BKM) – Tenho criticado a redução geral da ajuda, apelando para que se respeitem os compromissos. Um número significativo de países europeus, particularmente os nórdicos, está a efectuar enormes progressos para atingir os 0,7%. Espero que outros sigam o exemplo. Porém, há países importantes como os EUA ou o Japão, que continuam muito longe desse objectivo.

 

Pequena Biografia

Ban Ki-moon nasceu em Cheongju, na República da Coreia (Sul), no dia 13 de Janeiro de 1944.

Filho de um modesto agricultor, Ban ki-Moon obteve, em 1970, o grau de bacharel em Relações Internacionais na Universidade Nacional de Seul.

Em 1985, obteve o Mestrado em Administração Pública na Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. As relações de Ban com a ONU remontam a 1975, quando desempenhou funções na Divisão das Nações Unidas do Ministério dos Negócios Estrangeiros do seu país. Ao longo dos anos seguintes, o seu trabalho foi ganhando revelo, tendo desempenhado sucessivamente os cargos de Primeiro Secretário da Missão Permanente da República da Coreia junto da Organização das Nações Unidas, Director da Divisão das Nações Unidas no Ministério em Seul e Embaixador em Viena em 1999, altura em que desempenhou as funções de Presidente da Comissão Preparatória da Organização do Tratado de Proibição Total de Ensaios Nucleares.

Em 2001-2002, como Chefe de Gabinete do Presidente da Assembleia Geral, facilitou a rápida adopção da primeira resolução da sessão, que condenou os atentados terroristas de 11 de Setembro, e tomou algumas iniciativas que visavam melhorar o funcionamento da Assembleia. Contribuiu, assim, para que uma sessão que começou num ambiente de crise e de confusão acabasse por ser marcada pela adopção de algumas reformas importantes.

Em 2002, ocupou-se activamente das relações inter-coreanas.

Em 1992, como Assessor Especial do Ministro dos Negócios Estrangeiros, foi Vice-Presidente da Comissão Conjunta Norte-Sul de Controlo Nuclear, após a adopção da histórica Declaração Conjunta sobre a Desnuclearização da Península da Coreia.

Em Setembro de 2005, na qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros, desempenhou um papel preponderante na elaboração de um outro acordo histórico destinado a promover a paz e a estabilidade na Península: a adopção, quando das Conversações das Seis Partes, de uma declaração conjunta sobre a resolução da questão nuclear norte-coreana.

No momento da sua eleição como Secretário-Geral, a 1 de Janeiro de 2007, Ban ki-Moon era Ministro dos Negócios Estrangeiros e do Comércio da República da Coreia.

No decurso da sua longa carreira no Ministério, que o levou a Nova Deli, Washington D.C. e Viena, ocupou diversos cargos como o de Assessor Principal do Presidente em assuntos de política externa, Vice-Ministro do Planeamento de Políticas e Director-Geral dos Assuntos Americanos.

A sua carreira foi sempre norteada pela visão de uma península coreana pacífica, capaz de desempenhar um papel cada vez mais importante em prol da paz e da prosperidade na região e no mundo.

 

 

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