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Pimpolhos de um planeta azul!

Pimpolhos de um planeta azul!

Endemoninhado, mais uma vez, Pascoal Cardoso, um idoso impiedoso de 60 anos de idade, abusou sexualmente uma menor. O mais hediondo no facto (na verdade o perverso e que, por conseguinte, não se deve tolerar no espaço social) é que a vítima é sua filha. Nunca, antes, havia sido pertinente formular uma pergunta: Com que sentimentos, nesta semana, as crianças gritarão – “Viva Um de Junho?”

Uma história desnecessária

Nos dias que correm, a tarefa de trabalhar diariamente com as crianças, orientá-las sobre qualquer prática vital para a sua formação social como pessoas humanas, é uma missão árdua e desafiadora. É que, ao que tudo indica, estão a escassear pessoas com essa vontade.

Ou, pelo menos, o que se tem estado a propalar são exemplos hediondos daquilo que se não devia seguir: pais que agridem sexualmente as próprias filhas, tornando a figura paterna na coisa mais vil que se podia ter na sociedade. Pior ainda, transforma-se o seio familiar – o lugar onde qualquer pessoa se devia sentir segura – num espaço de insegurança.

Por isso, sempre que surge alguém que rema contra essa tendência, a de sem nenhum fundamento lógico, aceitável fazer da própria filha uma vítima para os seus apetites sexuais, vale a pena louvá-lo.

O nosso intróito não é obra do acaso – no dia em que o nosso repórter preparava essa matéria, com a finalidade de publicar e louvar as belas actividades que um grupo de crianças realiza, há mais de 10 anos no bairro suburbano de Chamanculo, um homem de 60 anos, que de forma fictícia chamamos Pascoal Cardoso, olhou para a sua filha, uma menor de dez anos e nada mais viu além de uma mulher a qual, ultrapassando todos os valores éticos e morais, abusou sexualmente.

O evento macabro provocou pânico no espaço suburbano do bairro Unidade Sete, algures em Maputo, onde sucedeu. Acredita-se que a preocupação se tenha alastrado um pouco por todo o país porque determinado de comunicação social audiovisual, bem conhecido na capital, colocou a matéria na mesma tarde.

Crianças, jovens, idosos, pais e filhos, homens e mulheres, indiscriminadamente, acompanharam o rumo que a nossa sociedade está a tomar. É como se se estivesse a glorificar a maldade no país.

Outra história necessária

De qualquer modo, ficámos animados ao perceber que, na mesma sociedade, um outro homem, por sinal muito jovem, Tomás Pires, trabalha com as crianças nos moldes que qualquer sociedade sã, disciplinada, com regras devia elogiar e apoiar. E, em relação ao jovem em alusão, com uma motivação de que vale a pena falar, reservamos espaço e tempo para, através do seu movimento, homenagearmos as crianças moçambicanos e, por extensão, de todo o mundo.

Na primeira pessoa, a sua história pode ser narrada do seguinte modo: “A minha afinidade para com as crianças surgiu há doze anos, concretamente em 1992, quando formei a primeira geração dos Pimpolhos. Os primeiros integrantes dos Pimpolhos já estão crescidos. Outros ainda são pais de família”, começa por dizer Tomás Pires Mbeve.

Ao lançar-se para a aventura, Pires Mbeve abrigava em si um objectivo aparentemente vulgar mas salutar: ocupar os petizes com uma actividade sadia – o canto e a dança, entre outras de caris artístico-culturais – nos tempos livres. Afinal, no bairro de Chamanculo, donde oriundas célebres figuras das artes, desporto e cultura moçambicana, há muitas situações que inviabilizam que as pessoas tenham uma vida bem-sucedida, sem desvios sociais, o que não significa que a população do referido espaço tenha comportamentos desviantes.

Por essa razão, o melhor era trabalhar com as referidas crianças dentro da mesma filosofia de vida. Ou seja, sem nenhuma pretensão formal em relação a música, além de contribuir para a sua educação.

Uma dinâmica peculiar marcada pela participação da colectividade em programas televisivos infantis, em Maputo, aumentou o grau de motivação dos pequenos artistas. Foi nesse contexto que o grupo fez o registo das primeiras músicas de que surgiu o trabalho discográfico Vatsongwana – o mesmo que crianças – em 2003.

Outros projectos impactantes no espaço social moçambicano – dinamizados pelas referidas crianças – aconteceram ao longo do tempo. A agremiação evoluiu de tal sorte que se tornou uma referência incontornável entre as bandas de música infantil que existem no país.

Há dois anos, o colectivo de crianças que compõe os Pimpolhos participou na Conferência Nacional de Pediatria. Comentando acerca do evento, o coordenador do movimento, Tomás Pires, considera que “é muito importante envolver as crianças em diversos programas sociais porque os mesmos dotam-nas de algum conhecimento de uma área em que, futuramente, poderão trabalhar.

Além do mais, a Pediatria, por exemplo, é um sector da saúde que lida com os problemas da criança. Os petizes são o seu grupo alvo. Por isso, nada melhor que envolvê-los”.

Estamos necessitados

Se for/tiver sido uma falsa impressão, reserva-se aos prejudicados por esta o direito ao contraditório. Mas a Associação Cultural e Recria Infantil – Pimpolhos é uma das organizações artísticas bem estimuladas no país.

A verdade é que os apoios nunca são suficientes. E, muitas vezes, eles não satisfazem totalmente as nossas necessidades. Até porque as necessidades multiplicam-se continuamente. No entanto, em muitos dos seus processos laborais, os Pimpolhos têm tido o auxílio de algumas organizações economicamente estáveis em Moçambique.

Referimo-nos ao Banco de Moçambique, o Millennium bim, a Embaixada do Reino dos Países Baixos, a Brithol Michcoma e a Arte Social, o que é bom, afinal está em causa a educação e a formação dos homens do amanhã.

“O problema é que nem sempre as referidas instituições podem apoiar-nos. Por isso, não tem sido fácil gerir a agremiação”, lamenta o coordenador acrescentado que “na nossa organização as crianças beneficiam de apoios como material escolar, equipamento para o trabalho, entre outros que asseguram um ambiente laboral harmónico”, apesar de não possuírem um espaço físico para o efeito.

Seja como for, é importante apoiar a Associação Cultural Recreativa Infantil – Pimpolhos, sobretudo porque ela, em certo grau, representa as crianças moçambicanas no geral. É como diz o seu coordenador quando afirma:

“Esses meninos são o rosto da criança moçambicana. Quando cantam Um de Junho é o Dia da Criança e são imitadas, significa que mexem com as sensibilidades e sentimentos das crianças de todo o nosso país. Moçambicanos de tenra idade, no geral, identificam-se com a mensagem dos Pimpolhos”.

Transferir a responsabilidade para a periferia

É esta a impressão que fica, a de quem transfere a responsabilidade para a periferia, sempre que certos pais – alegadamente, porque são muito atarefados – passam a responsabilidade de educar os filhos para a instituição social escola. É verdade, a escola tem essa virtude e dever, mas ela não é a principal actriz do processo. Ela complementa a família.

A par disso, Tomás Pires realça acreditar “que muitos pais moçambicanos têm tido dificuldades de dedicar tempo para os seus filhos. E não se trata de barreiras de ordem financeira porque eu, com poucos recursos, consigo lidar com os Pimpolhos. O problema prende-se com uma questão de natureza antropológico-cultural. Ultimamente, tem-se dedicado muito pouco tempo às crianças, sobretudo na transmissão de valores como o afecto paterno”.

Convenhamos! Nenhum argumento deve fundamentar o abando dos filhos por parte dos progenitores, muito em particular quando estes ainda estão em tenra idade: “pais e filhos devem dialogar acerca de vários aspectos da vida, sob pena de os segundos crescerem com distúrbios mentais como, por exemplo, o acanhamento na expressão das suas ideias e pensamentos”.

Um de Junho

Refira-se que a Associação Cultural e Recreativa Infantil – Pimpolhos é uma organização cultural que se dedica à arte musical. Como tal, presentemente, tem estado a preparar o seu mais novo trabalho discográfico que (caso tudo corra de acordo com o previsto) será gravado durante a semana internacional da criança e publicado ainda em 2012.

Trata-se de uma entidade que, em certo grau, já está estabelecida no país. Felizmente, sempre que chegam as datas que marcam as festividades alusivas à criança, além de levar a cabo as suas actividades, os Pimpolhos têm sido convidados a participar em inúmeros eventos de caris infantil.

Isso significa que, a partir de hoje, dia um, uma programação que compreende a realização de visitas a algumas estações televisivas moçambicanas (com destaque para a Record Moçambique, onde participarão em alguns programas) bem como ao Museu de História Natural, entre outros, estão agendados e serão efectivados continuamente durante a semana internacional de criança.

Meninos do Planeta Azul

Os trabalhos discográficos que, desde os anos de 2003, os Pimpolhos têm editado contêm músicas com história. Por exemplo, o primeiro álbum, Vatsongwana, foi uma singela homenagem às crianças. Foi um trabalho em que, essencialmente, se explorou o género da música Marrabenta (entre outros de música infantil) com a finalidade de transmitir uma mensagem educativa.

Outros discos registados pelos Pimpolhos – Clube das Crianças, Alegria e Calor, este último em formato de vídeo, podem ser adquiridos no mercado moçambicano.

Ao constatar algum vazio, que se materializa na inexistência e na fraca projecção de imagens animadas e adequadas para serem contempladas por crianças, na promoção de espaços infantis, os Pimpolhos publicaram o referido vídeo como forma de recordar a sociedade acerca de um artista não somente colorido, como também útil para a formação da mente das crianças – o palhaço.

Esta preocupação não surgiu por acaso. É que a televisão moçambicana tem-se preocupado mais com a questão comercial, promovendo imagens de cenas violentas como filmes e novelas as quais (uma vez vistas pelas crianças) acabam por influenciar de forma negativa o seu comportamento.

Como os artistas de que estamos a falar, apesar de serem essencialmente crianças, sentem que já possuem um tempo de existência sufi ciente e que, por isso, consolidaram o seu nome no território nacional, os Pimpolhos, através do álbum Meninos do Planeta Azul, ainda em preparação, pretendem realizar novas abordagens, projectando-se para novos espaços da África lusófona.

Usando o azul como a metáfora do céu, os artistas pretendem direccionar os seus trabalhos para um espaço cada vez mais largo. O impacto disso é que, como grupo, além da Marrabenta os Pimpolhos terão de explorar novos ritmos de música universal, com destaque para os latino-americanos.

Conversámos com os meninos e, de uma forma geral, o que se percebeu de Isa Paula Cuna, Aurora Neves, Júlio Muchanga, Jamelique António e Elísio Anselmo – alguns dos membros integrantes do Pimpolhos – é a existência de sonhos ambiciosos para o futuro. Eles, os Pimpolhos, por diversos motivos, querem tornar-se jornalistas, advogados, carpinteiros, professores, médicos, pedreiros, cientistas.

Em certo sentido, são-no, mas em potencial. O lamentável é a existência de pessoas mal intencionadas, com mentes imundas que – buscando satisfazer os desejos egoístas – nos ofendem com actos de abuso sexual e violência doméstica.

Não é obra do acaso que estas crianças – em uníssono – gritam: “queremos sentir-nos seguros no espaço social, partindo do seio familiar”. Só o apoio, a atenção, o afecto e os demais cuidados materiais que se lhes devem ser dispensados podem tornar a criança moçambicana numa personagem saudável e bem desenvolvida, o que nenhum Pascoal Cardoso é capaz de dar.

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