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Passa o tempo e…ficam as memórias!

Passa o tempo e...ficam as memórias!

O @Verdade saiu à rua, a escassos dias do 25 de Junho, dia da Independência Nacional, para ouvir de algumas pessoas da terceira idade (leia-se idosos), a sua opinião relativamente a uma comparação que fazem entre o passado, lá para os tempos de Samora Machel, e os dias de hoje.

Cristina Maposse

Cristina Maposse, de 78 anos de idade, reside no bairro T.3, município da Matola, e é natural de Maputo. Ela guarda boas memórias do passado, neste caso no período pós-independência.

Segundo afirma, mesmo reconhecendo que houve muito sofrimento depois da luta de libertação, os dirigentes do país nessa altura, sobretudo o saudoso Presidente Samora Machel, estava mais virado para as necessidades do povo.

“Samora não admitia que o povo sofresse, ou seja, ele procurava primar por uma distribuição justa e quase equitativa dos bens alimentares, e não só”, conta para depois acrescentar que algumas vezes, quando fosse a um armazém cheio de comida, aconselhava os seus proprietários a tirarem uma parte e distribui-la ao povo.

Segundo Maposse, no tempo de Samora não se toleravam enriquecimentos ilícitos e duvidosos, ou seja, quando a pessoa aparentasse ter uma riqueza que despertasse a atenção, era questionada em relação à sua origem e quando não conseguisse explicar com clareza a proveniência dos seus bens, eram retirados e distribuídos ao povo.

“Na verdade, Samora Machel não foi um Presidente, mas sim um líder cuja perda é irreparável. Ele não era um homem de caprichos e nem mesquinhices. Primeiro, ele queria ver o bem-estar do povo e, depois, preocupava-se com a sua vida”, diz.

Para esta idosa que não teve a oportunidade de ir à escola devido às difíceis condições de vida por que passava, os governantes moçambicanos deviam seguir e inspirar-se em Samora. A nossa fonte diz que os tempos mudam, mas as memórias fi cam para todo o sempre.

“Para nós que tivemos a possibilidade de viver o passado samoriano, ficamos muito chateados e revoltados quando vemos os dirigentes do país, que desviaram dinheiro do erário público para benefício próprio, em detrimento do povo”, desabafa.

Cristina Maposse diz que, com toda convicção, se Samora Machel fosse vivo, Moçambique não teria os problemas que tem. “Há muita coisa inadmissível que acontece neste país. Os governantes fazem-se de distraídos, esquecem o povo que os elegeu”, afi rma.

Rute Nuvunga

Rute Nuvunga não sabe ao certo a idade que tem, mas aparenta pouco mais de 70 anos. Residente no bairro da Zona Verde, quando instada a falar sobre a época de Samora, ela fi cou desconfi ada.

“Vocês querem prender-me, não é? A Frelimo acostumou-nos às ameaças. Naquela altura quando falássemos algo que fosse contra este partido, éramos conotados com a oposição e logo éramos um alvo a abater”, disse e referiu ainda que, na verdade, estamos perante uma situação penosa.

“Lutámos e várias vidas foram sacri ficadas para a libertação do país do jugo colonial português. Mesmo assim, não merecemos o devido valor e respeito pelos governantes”, ajunta.

Rute, que procura ganhar a vida vendendo “badjias” algures na Matola, disse que mesmo com os traumas e sequelas deixadas pela guerra, depois da Independência Nacional, o Presidente Samora Machel soube lidar com o povo. Acrescenta que Samora se sacri ficava para colher benefícios para o povo.

“Naquela altura, se sofríamos não era porque os governantes e dirigentes deste país assim o queriam, mas porque Moçambique passava por uma situação em que tinha de reiniciar a vida, deixar as mágoas de um passado desumano e reconstruir o país”, conta.

Esta idosa diz que mesmo com as difi culdades por que passava conseguiu ir à escola, tendo feito a quinta classe. Segunda avança, Samora era um “Messias” dos moçambicanos, ele trabalhava e dava sempre atenção ao povo, a sua alegria era corolário da satisfação da maioria pobre. Para Rute Nuvunga, nos dias que correm, as coisas em Moçambique vão de mal a pior.

A nossa interlocutora disse ainda que o actual Governo de Moçambique não passa de uma equipa ávida corrompendo tudo e todos. “A cada dia que passa, ouvimos que este ou aquele dirigente ou gestor da coisa pública roubou somas avultadas de dinheiro do erário público”, conta acrescentando de seguida que é neste momento que sente a eterna falta de Machel.

Fernando Soto Fernando

Soto reside no município da Matola e tem 77 anos de idade. À semelhança de tantos outros moçambicanos, quando instigado a fazer uma retrospectiva dos tempos do Presidente Samora, quase que deitava lágrimas. Trabalhou numa instituição do Estado durante pouco mais de 20 anos.

O dinheiro que auferia mensalmente servia para suprir as necessidades básicas do seu agregado familiar. “Os produtos alimentares de primeira necessidade eram vendidos a um preço acessível, permitindo ao cidadão mais pobre que conseguisse comprar alguma coisa para comer”, comenta.

Para Soto, na época de Samora não havia tantos problemas, como a criminalidade, corrupção, fome, entre outros. “Isto era uma prova do esforço que aquele Presidente fazia de modo a proporcionar um clima de tranquilidade no seio da sociedade”, disse tendo acrescentado que se Machel fosse vivo certamente que o país não estaria entregue à sua própria sorte e os governantes prometem isto mais aquilo, mas nada fazem.

Enquanto o povo a cada dia que passa vai vivendo na amargura da vida, eles (os governantes, dirigentes) vão vivendo num eldorado à custa do dinheiro do povo, o qual é quase sempre desviado para ns pessoais em prejuízo dos seus contribuintes, o povo neste caso.

Fernando, que neste momento trabalha como guarda na cidade de Maputo, lamenta o facto de o actual Governo pouco ou nada fazer para acabar ou pelo menos minimizar o sofrimento do povo. “Na verdade, se Samora fosse vivo, não teríamos governantes que comem o que lhes apetece, mudam de carros de topo de gama quando assim o quiserem, roubam o dinheiro do erário público de qualquer maneira e no final do dia saem impunes”, comenta.

Para Soto, é estranho que nos dias de hoje, até os que deram o seu sangue para a independência do país, continuem a sofrer. “Na verdade, se Samora não tivesse sido morto pelos seus compatriotas e camaradas, ele estaria no poder, ou caso não, o país não estaria num abismo como agora, em que o povo está eternamente esquecido e os seus recursos estatais permanentemente delapidados”, a fiança.

Alexandre Chapane Zunguza

Nasceu na vila de Massinga, província de Inhambane, no longínquo ano de 1938, a 1 de Janeiro, num período, como se sabe, duro. Não teve a infância que pretendia, pois cresceu no sofrimento e não teve o devido afecto paternal. Conta que os seus pais eram levados quase todos dias ao trabalho forçado, vulgo chibalo, pelos colonos portugueses.

Apesar da luta dos seus pais para colocá-lo numa escola e confrontado com a situação em que o país se encontrava naquela época, Alexandre Zunguza não teve a oportunidade de se sentar perante uma carteira. A pesca e a pastorícia eram as suas actividades diárias e, segundo conta, enquanto os seus progenitores trabalhavam, ele passava o dia no mato. Não aprendeu a ler e a escrever. Apenas aprendeu a ganhar a vida.

Quando criança assistiu às sucessivas e falhadas guerrilhas de resistência contra o colono e viu muitos moçambicanos e alguns familiares a serem mortos. Sobre a guerra de libertação, iniciada a 25 de Setembro de 1964 pela Frente de Libertação de Moçambique, Alexandre conta que pouco soube, até porque a única informação que a si chegava era por via da rádio que só podia ser ouvida de noite dando conta de que apenas a zona norte do país é que estava afectada.

Ouvia inclusive falar-se de Eduardo Mondlane e teve a oportunidade de vê-lo no Aeroporto Gago Coutinho, hoje Aeroporto Internacional de Mavalane.

Sobre a existência da Frente de Libertação de Moçambique, Alexandre Zunguza ouviu através da rádio. Algo curioso é que naquela época era um crime para os negros sintonizarem a rádio e tal só podia ser de noite em locais bem seguros como, por exemplo, debaixo das mantas e com o volume baixo.

A sua vontade era também de se juntar à Frelimo mas o seu analfabetismo constituiu um obstáculo. “Era preciso saber ler e escrever para entrar na Frelimo e saber como chegar a Dar-Es-Salaam. Ninguém estava para explicar seja lá o que fosse”, conta.

Quando oficialmente terminou a guerra em 1974, Alexandre vivia em Maputo. A independência, que foi proclamada um ano depois, ampliou a sua felicidade. Mas, e apesar de analfabeto, Alexandre questionou certos discursos. Diz que não percebia como mesmo depois da guerra e consequente proclamação da independência subsistia o discurso de “ a luta continua!” e o da “independência ou morte, venceremos”.

Porque a situação do país continuava delicada mesmo depois da proclamação da independência, Alexandre exilou-se na África do Sul tendo regressado a Moçambique em 2007.

“Quando voltei, reparei o quão a situação estava melhor em comparação com o passado. Fiquei feliz em regressar ao meu país” Conta. Todavia, apesar da sua sincera felicidade por regressar a casa e poder viver a paz e a liberdade conseguida a 25 de Junho de 1975, Alexandre sente que ainda há muito por se fazer como, por exemplo, melhorarem- se as condições de vida das populações.

Nota, por exemplo, o crescente aumento de estabelecimentos comerciais mas igualmente lamenta o agravamento dos preços dos produtos alimentares. “Está difícil comprar comida”, remata. “Sinto que estamos entregues à nossa sorte. Não há emprego para os nossos lhos, a escola está cada vez mais cara, não há transporte, o individualismo cresce e cada um quer puxar para o seu lado mesmo sabendo que vai prejudicar os outros”, desabafa.

Alexandre, outrossim, não esconde que como idoso sente que este não é o país ideal para viver. “Não era este o objectivo da luta pela independência. Nós até podemos dizer que estamos livres mas não é esta a liberdade que almejávamos. Escreve tudo isto que digo, não omitas nem acrescentes nada. Sei que serei preso mas eu digo: este país tem muito dinheiro que está a ser aproveitado por alguns”, conclui.

Gertrudes Massango

Nasceu em Manjacaze a 22 de Agosto de 1944. Não se lembra de grande parte da sua infância. Mas, segundo conta, foi anormal. Não pôde estudar e aos seus 14 anos teve o destino naquela época de ser serviçal de uma residência de um colono. O seu trabalho era de cuidar da limpeza do pátio da casa e lavar a roupa. A sua vida era só trabalhar.

Quando atingiu a maioridade, Gertrudes foi entregue à igreja católica para trabalhar como doméstica de uma missão religiosa que cuidava das crianças num centro da cidade de Inhambane.

Foi lá onde soube da guerra de libertação levada a cabo pela Frente de Libertação de Moçambique mas porque não sentiu na pele a dor que os muitos moçambicanos sofriam, manteve- se indiferente e a cumprir com a sua missão junto à igreja católica.

A missão religiosa desapareceu com o desenrolar da guerra de libertação e Gertrudes formou família ainda em Inhambane.

“A independência para mim trouxe liberdade mas não felicidade. Não consegui continuar a fazer o que havia aprendido e que mais gostava: cuidar de crianças desfavorecidas”, diz.

O período que durou a guerra civil foi para Gertrudes a pior era da sua vida e nunca mais queria voltar a vivê-lo. Sente uma dor no peito só de lembrar. Para Gertrudes, “o país hoje está livre e em paz. Mas isso não pode ser o mais importante”.

Ela admite que os dias de hoje são bem melhores comparados com os da era colonial e que as pessoas têm mais liberdade e espaço para lutarem pelo que almejam, mas isso não deve ser ofuscado pela busca incessante do enriquecimento fácil, ou seja, a sociedade transformou-se em individualista onde o sentido moral e ético está degradado.

Independência económica

Alguns cidadãos entrevistados pela nossa equipa de reportagem congratulam as conquistas alcançadas durante os 37 anos de independência nacional, fruto da luta de libertação levada a cabo por lhos desta pátria que decidiram sacri ficar a sua própria vida em prol do bem-estar do povo moçambicano, escravizado pelos portugueses no período colonial.

Das conquistas alcançadas, os nossos entrevistados referiram-se à Paz, Liberdade, Tranquilidade, entre outras situações que os nativos eram proibidos de gozar no seu próprio país.

Roge Ussoni salientou que nas comunidades verifi ca-se uma signi ficativa melhoria na expansão das redes eléctrica, sanitária e escolar.

Não obstante estes resultados, Ussoni, cidadão, que viveu nas etapas colonial e pós-independência, afirma que o país necessita de encontrar políticas claras e abrangentes para a redução dos índices de pobreza e desemprego de pessoas, sobretudo a camada mais jovem, devido ao elevado custo de vida.

Acrescentou que se os jovens se tornaram ladrões e assaltantes é por causa da falta de emprego para garantir o auto-sustento das suas famílias. Recordou, no entanto, que no período colonial a vida era muito facilitada, porque com pouco dinheiro era possível garantir a compra de vestuários, custear a educação dos lhos, entre outras despesas inerentes à vida social dos moçambicanos.

Por seu turno, Jaime Alde considerou preocupante a situação da falta de trabalho formal, pois, de acordo com suas palavras, a nível do país muitas fábricas fecharam alegadamente por causa da crise financeira internacional, facto que causou despedimentos em massa de cidadãos, maioritariamente, nacionais. “Por exemplo, os Caminhos-de-Ferro de Moçambique (CFM) indemnizaram muita gente e concessionou as instalações para serem exploradas por privados, deixando de fora quadros formados naquela área”, concluiu a fonte.

Luís Gimo referiu que a distribuição da riqueza nacional não é feita de forma abrangente, porque nota-se a concentração de empreendimentos na região sul do país em detrimento das comunidades localizadas nas províncias centrais e nortenhas, apesar de se estar a traçar estratégias de exploração dos recursos minerais e florestais para propiciar o desenvolvimento local.

“A economia moçambicana deve ser distribuída equitativamente um pouco por todo o país, sem a exclusão de alguns”, frisou o nosso entrevistado.

Gimo referiu, num outro desenvolvimento, que as ameaças do líder da Renamo de levar a cabo uma guerra ou manifestações pací ficas contra a governação do partido no poder preocupam bastante a população porque causam destruições de infra-estruturas construídas com sacrifício e muito empenho.

“Não queremos voltar a perder os nossos familiares e nossos bens por causa de confl itos sangrentos. Eu tenho lembranças tristes da guerra”, lamentou.

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