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Os últimos dias na vila Algarve

Os últimos dias na vila Algarve

Na Vila Algarve vive uma parte dos sem-abrigo que foi obrigada a abandonar o Parque dos Continuadores. Eles ganharam terrenos na Catembe, mas voltaram ao centro da cidade porque “não há moral que resista quando a fome aperta”. Nos últimos dias, um cenário de incerteza abateu-se sobre os moradores da vila Algarve em Maputo. Diz-se que serão retirados, para deixar passar o progresso, mas até então nada lhes foi dito sobre onde irão parar.

Para alguns, trata-se de muita falta de sorte, pois acabaram de chegar após uma expulsão compulsiva noutros pontos do grande Maputo. “Com certeza, tem sido um vaivém muito difícil para nós, sobretudo porque não temos tido garantias de sobrevivência”, responde um deles a uma das perguntas do @Verdade.

Ernesto Ntivala é mais um. Vive nas ruas há cinco anos quando os pais morreram. “Não suportei os maustratos da minha madrasta, por isso resolvi ficar aqui”, afirma com a tristeza vincada no rosto. Ntivala e seus amigos foram retirados do parque dos continuadores para dar lugar a construção da feira do artesanato.

Um mês depois voltou as artérias do grande Maputo porque na Catembe, lugar para onde foi transferido, não reunia condições de habitabilidade. “Além de ser distante, só nos deram terrenos, quando precisávamos também de chapas de zinco e caniço para construir as nossas casas”, diz e prossegue: “muitos dos meus amigos também desistiram e voltaram às ruas. Dar terreno pode ser uma boa ideia, mas não é viável. Como é que vamos começar a vida sem rendimentos? Decidimos voltar as ruas porque aqui ganhamos o pão-nosso de cada dia”.

Depois de várias batalhas, graças ao convite de um amigo, há dois meses encontrou um cantinho na Vila Algarve, um mundo à parte onde subsistem perto de 50 sem abrigos entre homens e mulheres adultos e crianças, numa convivência original. Actualmente está entre ruínas e o lixo fétido, capaz de intoxicar os mais sensíveis, mas os seus habitantes dizem ser aquele o único espaço onde encontram a paz. “Eu e a minha esposa vivemos aqui desde 2000. Ainda este ano, tivemos a nossa filha, que pelos vistos será criada aqui também”, diz Bento Macamo.

Os residentes da Vila Algarve provêm de pontos e circunstâncias diferentes. Encontraram- se ali por acaso, mas o tipo de comunidade que adoptaram faria inveja a qualquer ser humano, se não fossem a falta de protecção e segurança que enfrentam diariamente. “Temos tido poucos momentos de paz, muitas vezes servimos de bode expiatório. Quando a polícia não consegue encontrar criminosos recorre a nós para preencher as celas das esquadras. É uma situação lastimável”, dizem.

Por vezes, no fim do expediente – mendicidade, lavagem e guarnição de viaturas – instalam- se onde calha, sobretudo nas noites quentes de verão quando é possível pernoitar ao ar livre, mas sempre retornam a “vila”, o refúgio que encontraram quando decidiram largar tudo para ganhar a vida na rua. Quando parecia começar a cumprir-se um destino ideal para a Vila Algarve, com o bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique, Gilberto Correia, a garantir em 2008, que por ali funcionaria a Ordem, no mês passado (Outubro), depois de muitas promessas, de reabilitação, foi anunciado pelo Governo que o imóvel deixou de ser propriedade dos advogados. Parece que desta vez é para sempre. Brevemente será reabilitada e transformada num museu.

Onde irão os sem abrigo?

Há dois anos quando se pensou reabilitar o espaço fezse uma protecção e os sem abrigo que por lá moravam foram desalojados. Algum tempo depois, retornaram, num ciclo vicioso que prossegue sob o olhar impávido das autoridades. O sociólogo urbano Eugénio Brás entende que a falta de politicas certas para reassentar os sem abrigo pode trazer consequências directas para a sociedade. É que por serem negados o direito à cidade, acabam por se sentir excluídos e vão aumentar o exército de excluídos, marginais e criminosos.

No entender deste docente da Universidade Eduardo Mondlane, o problema pode ser explicado em quatro vertentes, dos quais a falta de habitação, o facto do espaço ser património cultural, a ausência de cultura urbana dos citadinos e a incapacidade do Governo para dar assistência adequada aos cidadãos. Para a fonte a nossa cultura urbana de muitos é prejudicial a sustentabilidade das cidades, porque a herança colonial foi de exclusão em relação ao acesso a zona urbana, mas também porque o Estado moçambicano sempre subsidiou a habitação e alguns serviços da urbe. Isso atrasou a consciência das pessoas no sentido de que a vida na cidade tem um preço.

As pessoas pensam que tudo tem de ser feito pelo Governo quando, na verdade, nem sempre é assim. “Há gente que não pinta os seus prédios por achar que é tarefa cabe ao governo”, disse. Quanto ao destino dos residentes, @Verdade procurou saber, junto ao Ministério da Justiça – instituição que tutela a infra-estrutura – e o da Cultura – possível futuro proprietário do empreendimento -, a resposta das duas instituições foi de que ainda não se sabe sobre o seu futuro. Breve historial de Vila Algarve A vila Algarve, obra de grande valor arquitectónico, pertence ao património urbano ainda não destruído, foi terminada em 1934 (sendo proprietário José dos Santos Rufi no), alterada em 1936 e ampliada em 1950.

Durante anos foi tida como sede da polícia política portuguesa. Em mais um dos seus poemas a Maria, o poeta José Craveirinha, lembrou, em verso, a “Vila Algarve”, onde, em 1966, à tarde, como diz noutro poema, “pela duodécima vez, abanava a cabeça e dizia – Não sei!”. Ano e momento em que diante de um subchefe Acácio, se confrontava com uma espécie de “deus fantasmagórico envolto na especial nuvem de tabaco, mistura de Virgínia com pele”, sofrendo a dor do “cigarro aceso a fumar de repente o ombro direito”, um cigarro que apagava a sua boca de lume no calor escuro da sua omoplata.

A vila Algarve era, nesse tempo, um lugar sinistro. Depois da independência, expulsa a PIDE, fi cou como o símbolo da infâmia, uma casa de fantasma habitada por “moluenes”, as crianças de rua, e, depois, na fuga para Maputo imposta pela guerra civil, os refugiados, muitos, atormentados pelos demónios do confl ito e que talvez nunca ouviram falar da PIDE.

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