Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Pandza: Os Cajueiros

É Novembro. Madrugada do dia primeiro. Ainda me deixei sentado, por alguns instantes, antes de me levantar senti ndo o corpo casti gado pelo peso da insónia. O arrastão do chinelo raspava sem pressa o silêncio da noite. Fui até a porta, para confi rmar o que já se previa. A ferrugem da dobradiça rangeu, quando abri a porta, como se me cortasse por dentro.

 

Havia lá fora uma bruma estranha ao verão circundando os cajueiros, e os grilos calados pareciam assustados, brindando a noite com um silêncio medonho.

 

Olhei para toda extensão do quintal e confirmava-se o espectáculo triste. Há dez anos que em Novembro, e sem explicação, os cajueiros do quintal lá de casa começam a enlouquecer, amarelam de forma sinistra e perdem as folhas imitando uma espécie de outono.

As enormes folhas secas caiem e atapetam o chão despindo completamente as árvores, que se tornam estéreis. Ficamos sem o fruto doce, ficamos sem poder fermentar o sumo, e ficamos sem as castanhas.

Aquilo não era, nenhuma doença de cajueiros, era algo que ti nha a ver, obviamente, com espíritos e estava a dar prejuízos incalculáveis a minha economia familiar.

Levei um prato recheado do que ti nha sido o nosso jantar, folhas cozinhadas com amendoins e ingredientes que tais, num copo bebida, daquelas que queimam as papilas e os espíritos gostam.

Atravessei a horta arrastando o chinelo e causando no nevoeiro um som seco. Passei pelo poço, e fui até ao fundo do páti o, lá onde se constelam os cajueiros, e onde a bruma é mais intensa.

Agachei-me, pousei o prato e o copo, refeição para o espírito zangado, no sopé da árvore, como fora sabiamente instruído. Ajoelhei-me, inclinei o tronco para frente, e pus-me na posição de dialogar com os espíritos. Juntei as mãos e dirigi-lhe algumas frases com subserviência acompanhando com bati da de palmas.

O vento, que até agora ti nha estado expectante, serpenteou a bruma e volteou a árvore em que eu me ajoelhava. Percebi o recado e reti rei-me com respeito que se deve as almas, sem olhar para trás. Aquele ritual não resolveria o problema dos cajueiros, mas, de acordo com o curandeiro que me orientou, iria amainar a raiva do espírito evitando males piores.

– Espera! Disse sem gritar, uma voz cuja amplitude parecia estremecer o chão e os céus. Escusado serei em descrever a sensação de frio na espinha.

– Quem está ai? – Virei-me insti nti vamente, só depois me lembrei que não se deve olhar para os espíritos, quanto mais falar.

– Não tenhas medo – disse, com uma serenidade invulgar, causando aquele estrondo majestoso.

– És… és tu? – perguntei, arfando de medo. O fulano comia, a cada gesto seu a bruma dava licença, lentamente. As vezes parecia flutuar. Tinha dificuldades em ser corpo. O corpo parecia uma nuvem disforme trespassada por feixes de luar. Por vezes parecia que esfumava, como a chama duma vela. E a voz estremecia o chão:

– Senta-te, come comigo.

– N… não… não posso! –

– Não tenhas medo, não te faço mal.

– Mas tu já me fazes mal, estes cajueiros já não dão nada, e isso prejudica o PIB lá de casa.

– Hm, hm, hm – gargalhou sem sorrir, estremecendo a noite, coçou a floresta densa que a juba lhe fazia e refastelou-se no conforto do tronco do enorme cajueiro

– Não sou eu que causo esterilidade aos teus cajueiros, eles sentem a minha falta e reagem assim – acariciou o tronco como em vida fazia. Lembrei-me que em vida o tipo gostava muito de cajueiros, tratava-os como se fossem seus animais de esti mação, namorando-os quase.

– Mas a curandeira diz que estás zangado. Que em Novembro foi aqui morto um ndau e o espírito está muito zangado.

– E tu o que dizes?

– Digo que ti nhas o defeito de dizer muitas verdades, o que te tornava incómodo.

– Já não sou?

– Já morreste.

– O que é a morte?

– …???!!! – não lhe soube responder. Calou-se alguns segundos e desabafou:

– Estou cansado de viver assim

– E tu vives…

– Vivo a morte.

– O que é a morte?

– É ter saudades…

– Da vida?

– Não, do que deixamos na vida que ti vemos.

– A morte é materialista? Não me respondeu.

– Tenho saudades do Meti cal… Não entendi se se referia a moeda ou ao jornal, quando lhe quis perguntar já ali não estava.

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!