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Os negócios e a Revolução 2.0

Os negócios e a Revolução 2.0

O Google apoiou um dos seus trabalhadores que teve papel destacado nos protestos do Egipto, mas outras empresas de telefonia móvel e provedoras de serviços de Internet obedeceram imediatamente às ordens do governo e desligaram aparelhos, as ligações telefónicas móveis, fixas e as conexões à Internet.

Numa entrevista, transmitida pela Dream TV, Ghonim irrompe em lágrimas, ao ver fotos de alguns dos mortos nas duas semanas de confronto, repetindo várias vezes: “Não somos traidores”. Quem vê também chora.” E foi a explosão emocional do jovem executivo da Google – combinada à sua sempre crescente campanha – que arrastou ainda mais manifestantes para a praça Tahrir no dia seguinte, para manter a pressão até a renúncia do presidente Mubarak.

Até aquela entrevista, a maioria dos egípcios ainda não sabia que Ghonim, da Google, era uma das forças que ajudaram a acender os primeiros protestos do 25 de Janeiro – a “6ª-feira de fúria”. Primeiro, Ghonim montou uma página anónima no Facebook, para homenagear Khaled Said, um jovem empresário de Alexandria espancado até a morte por dois polícias em Junho passado, e ajudou outros grupos de oposição a construir os seus sites em redes sociais.

A página de Ghonim converteu-se rapidamente num “canal de informação” – um ponto de encontro e organização para a campanha – inicialmente contra as brutalidades dos polícias. A maioria dos egípcios não conhecia o muito disseminado uso da tortura no país, até que as notícias começaram a circular pela rede. E essa transparência permitiu a todos ver por trás das telas, o Egipto verdadeiro, mas até então oculto, e isso deu muito maior alcance ao levantamento.

Só a história mostrará se Ghonim teve papel decisivo como catalisador da crise que afinal derrubou o presidente do Egipto. Mas não há dúvida de que há aí um personagem fascinante; revolucionário romântico, filho de uma família rica, graduado e com duas pós-graduações (engenharia de computação e administração de negócios), elegante, bem vestido, um geek hi-tech, além de ciberactivista.

É casado com uma americana e vive em Dubai, onde dirige o sector de marketing do Google para o Oriente Médio e Norte da África e de onde iniciou a sua campanha pelo Facebook; Ghonim só chegou ao Cairo dois dias antes da 6ª-feira que a sua campanha chamara de “6ª-feira de fúria”. Em poucos dias, o número de membros de sua página subira de 90 mil para cerca de 300 mil.

O papel de Ghonim na “revolução 2.0” como ele lhe chama levanta também outras questões sobre as relações entre um empregado que se envolve em papel tão central em campanha política tão ampla, e o seu empregador.

Para sorte de Ghonim, o Google é uma das maiores e mais poderosas empresas do mundo, facto que muito ajudou quando a própria empresa anunciou o desaparecimento do seu funcionário, visto pela última vez a ser arrastado por membros da polícia secreta. Em entrevista, o Google disse-me que está felicíssimo por Ghonim ter sido libertado e estar bem, e que muito se orgulha de o seu empregado ter “tomado posição”. Nem todos os patrões seriam assim tão abertos e dispostos a apoiar um empregado militante.

Outra questão a ser também analisada é o comportamento das empresas de telefonia celular e os provedores de serviços de Internet, que desligaram todos os equipamentos no Egipto (também na Tunísia, e mais recentemente na Líbia), obedecendo às primeiras ordens de governos ditatoriais e quebrando contratos com os consumidores, logo à primeira ordem que lhes chegou do governo.

Muito se tem falado do extraordinário poder das páginas Facebook, telefones celulares e Twitter, na divulgação das palavras de ordem e de protesto, e não surpreende que o Google, com o Facebook, já circulem como aves predadoras à volta da Twitter, avaliada em cerca de 10 biliões de dólares. Mas o governo egípcio conseguiu calar quatro redes de telefonia celular e os provedores de serviços de Internet e manteve todos calados por cerca de cinco dias (o Senado dos EUA discute uma lei que dará ao Estado poderes semelhantes a esses que o governo Mubarak exerceu).

Muito mais interessante, contudo, é que os manifestantes conseguiram meios para superar todas essas dificuldades. Segundo Renesys, que monitora os acessos à Internet em tempo real, o país inteiro desabou. Cerca de 3.500 rotas “border gateway protocol” caíram, deixando o país praticamente desconectado do mundo; única excepção foi o Noor Group – servidor que atende a Bolsa de Valores do Egipto.

A principal empresa operadora de telefonia móvel é, de longe, a Vodafone Egypt, cujo accionista maioritário é a gigante British Telecoms, com mais de 28 milhões de usuários-clientes de telefonia celular e serviços de banda larga – e que distribuiu mensagens entre os seus clientes, por ordem do governo, mandando não sair de casa e não participar dos protestos.

A Vodafone defendeu essa decisão, dizendo que se tratava de motivo de força maior, e que, se a empresa não obedecesse, as autoridades teriam obtido o mesmo resultado, accionando, directamente a base “kill station”. Se isso tivesse acontecido, alegou a empresa de telefonia celular, seriam necessárias semanas, depois, para religar todos os serviços. Pode-se dizer que a Vodafone é tão vítima, nessa relação, como os consumidores – e teve prejuízos financeiros bastante elevados.

De facto, chegou a hora de as empresas reverem o risco político de se associarem a regimes políticos voláteis. Os manifestantes também contornaram a queda dos sistemas usando servidores DNS – Domain Name System – não oficiais, que funcionam como “guias telefónicos” para a Internet, traduzindo nomes de computadores hospedeiros para endereços de Protocolo Internet (IP), o que permite acesso fora do país.

Tweets pediam a quem estivesse conectado, via Wi-Fi, que retirasse as senhas, para que todos pudessem ter livre acesso. Outros usaram velhos modems discados para enviar as suas mensagens.

Nós por cá, na cidade e província de Maputo, temos bem presente a ordem dada pelo Governo às operadoras mcel e Vodacom, para desligarem o serviço de mensagens de texto enviadas/recebidas por celulares, vulgo SMS, e em alguns casos até de chamadas de voz, como forma de afogar as manifestações de 1 e 2 de Setembro último.

Na sequência dos protestos populares também veio a lei do registo dos cartões SIM. Deste modo, espera o Governo, mais fácil será localizar e calar os manifestantes. Por outro lado, a restrição no acesso à informação é uma realidade que de certa forma parece estimulada pelo Governo, salvo a estação de Rádio pública, que cobre todo o território nacional, e é controlada até nos artistas musicais que divulga – de lembrar a censura feita ao rapista Azagaia.

A título de exemplo, a grande maioria dos media não é acessível fora da cidade de Maputo. O caso da redução do custo do Bilhete de Identidade, que não era do conhecimento do povo e, mercê disso, os serviços de emigração mantiveram o preço elevado que vinha a ser praticado anteriormente é apenas mais um caso ilustrativo de como a informação já é controlada em Moçambique.

Os serviços de Internet são um monopólio do Governo, os provedores dos acessos têm todos de fazer uso dos serviços da TDM – salvo pouquíssimas excepções que não estão disponíveis ao povo. Não obstante essas adversidades, isso não será de forma alguma um impedimento para o povo unir-se e fazer a próxima manifestação contra o preço da comida cada vez mais elevado, a falta de emprego, os abusos da polícia, a corrupção no Governo…

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