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Seriam as revoltas árabes revoluções 2.0?

Seriam as revoltas árabes revoluções 2.0?

Eles estão a mudar o mundo. Os internautas e blogueiros, adeptos do Facebook, Twitter e YouTube, desencadearam uma mobilização popular que se vem estendendo a quase todos os países árabes. O ícone dessa geração chama-se Wael Ghonim, e ele é egípcio.

Aos 30 anos de idade, ele é director de marketing do Google para o Médio Oriente e reside no Dubai com a sua esposa americana e os seus dois filhos; reconheceu, depois de ter ido ao Cairo para participar da manifestação do dia 25 de Janeiro e de ter sido preso por doze dias pelas forças de segurança, ser o criador da página do Facebook “We are all Khaled Said”.

Baptizado com o nome de um jovem torturado e espancado até a morte por polícias em Alexandria, no dia 6 de Junho de 2010, a página foi fundamental para a consciencialização dos jovens egípcios a respeito dos abusos da polícia e do governo, e foi a chave, a par doutras páginas controladas por outros movimentos juvenis, da mobilização de 25 de Janeiro.

Uma ferramenta de mobilização

“A Internet é o espaço da liberdade do povo, o espaço onde cada um se pode informar e comunicar-se, e ‘We are all Khaled Said’ teve um papel crucial”, conta o advogado Gamal Eid, da Rede Árabe para a Informação sobre os Direitos Humanos. “Ghonim não tem ideologia. É isso que faz a sua força”, acredita a militante Mona Seif. “Ele conseguiu mobilizar pessoas como ele, que não se envolviam nunca com política. Ele falou a todos”. Wael Ghonim, que inflamou o povo egípcio durante uma entrevista à Dream TV quando saiu da prisão, e depois num discurso na praça Tahrir, faz referência a uma “Revolução 2.0”.

Um ponto de vista que não é unanimidade. O blogueiro Ramy Raoof diz num tweet que “a revolução 2.0, a revolução Facebook, a revolução Twitter são expressões desprovidas de sentido”.

O jornal Al-Ahram, por sua vez, revela que um certo Jamal Ibrahim, da região de Ibrahimya, tentando prestar uma homenagem aos revolucionários, baptizou sua filha, nascida na semana passada, de “Facebook”. “A revolução talvez não tivesse acontecido sem essas ferramentas, pois teria sido difícil mobilizar as pessoas”, acredita Mona Seif. “Em compensação, a partir da manifestação de 25 de Janeiro, o Facebook e o Twitter só tiveram um papel marginal. Não foi uma revolução 2.0, foi uma revolução de rua. As pessoas teriam ficado de qualquer maneira na praça Tahrir até a queda de Mubarak”.

A revolução egípcia também foi feita de discursos inflamados, preces, combates, sangue derramado. “É possível desencadear uma revolução em alguns cliques, mas, em seguida, é o povo que faz a revolução”, acredita a militante Gigi Ibrahim.

Um factor dentre outros

O jornalista Issandr el-Amrani, que mantém o blog “The Arabist”, fala sobre a génese da revolta. “Os egípcios estavam desiludidos com as riquezas não distribuídas, com a corrupção, com as torturas, com os escândalos eleitorais.

A página ‘We are all Khaled Said’ teve um papel importante, bem como outros militantes no Facebook e no Twitter, mas também houve a força da revolução na Tunísia, a matança dos coptas, a primeira manifestação do dia 25 de Janeiro, a repressão sangrenta de 28 de Janeiro. Foi por todas essas razões que o movimento se tornou tão forte. E teve a inteligência dos líderes do movimento, que passaram uma mensagem clara e nítida, e teve o apoio dos media”. Todos esses ingredientes resultaram, segundo El-Amrani, numa rara combinação de factores diferentes que levaram a um resultado inesperado.

Portanto, o corte da Internet e dos celulares durante alguns dias não teve o efeito esperado pelo governo, uma vez que a mobilização já estava forte. “Uma vez que os egípcios decidiram sair às ruas, foi bom”, conta o blogueiro Wael Abbas. “Em compensação, a Internet permitiu-nos levá-los às ruas, difundir informações políticas e detalhes logísticos. Acredito que nenhum de nós, militantes, esperava ver tanta gente reunida”. Os iniciadores dos apelos à revolução foram ultrapassados pelo poder das suas ferramentas, antes de serem surpreendidos pela determinação e pela coragem dos egípcios.

Uma comunidade de militantes

Segundo Gamal Eid, o país de 80 milhões de habitantes possui 24 milhões de pessoas conectadas à Internet, sendo que quase 5,45 milhões delas têm contas no Facebook, 300 mil no Twitter e 250 mil mantêm blogs. É suficiente para transmitir informações de forma eficaz. “Cada família tem pelo menos um membro conectado, por meio de computador ou smartphone”, observa Wael Abbas.

Todos admitem também o poder da televisão, e o papel importante exercido pela cadeia de Qatar, Al-Jazeera, pelo seu apoio demonstrado aos manifestantes. A comunidade dos militantes digitais do Egipto, que de agora em diante se contam às centenas ou aos milhares, de tanto que a inteligência política de um Wael Ghonim ou a força do testemunho de uma Gigi Ibrahim seduziram os seus compatriotas, está determinada a acompanhar o país na direcção da democracia”.

Não se sabe, por exemplo, se Wael Ghonim tem vontade de entrar para a política. Os líderes da revolução no Facebook não serão necessariamente os líderes do Egipto de amanhã, pensa Issandr el-Amrani. Mas eles terão um papel importante na mobilização dos jovens diante das eleições. “Wael Abbas está a perceber que ‘agora, todo o mundo permanece conectado. Logo, é a melhor maneira de exercer pressões sobre o exército, de continuar vigilante”.

Os partidos tradicionais de oposição, que não tiveram quase nenhum papel na revolução, vão tentar atrair a si esses incríveis militantes. Num país onde 65% da população têm menos de 30 anos, estes poderão ser a chave do futuro político do Egipto.

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