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Os desamparados de costume

Paraolímpicos ainda sem pernas para irem a Londres

Desamparada, a selecção paraolímpica que vai representar Moçambique nos Jogos de Londres tem de vencer primeiro um dos mais difíceis obstáculos para erguer a bandeira do país: o desleixo das autoridades que velam pelo desporto nacional. Sem condições de trabalho, os atletas torturam-se naquilo que, por eufemismo, o grupo convencionou chamar de treinos. Mas, na verdade, o difícil de calcular é o sofrimento da equipa.

@Verdade visitou o Parque dos Continuadores, local onde decorrem os treinos da selecção paraolímpica com vista às Olimpíadas na terra de sua majestade, com o intuito de se inteirar do estágio dos atletas que vão representar o país no maior evento desportivo mundial. Mas o cenário que encontrámos é desolador.

À primeira vista, a impressão é de que estávamos diante de um grupo de pessoas desocupadas, mas quando nos aproximámos do conjunto, depressa, nos apercebemos de que se tratava de um grupo de atletas que vai representar Moçambique nos Jogos Paraolímpicos de Londres 2012.

Encontravam-se na pista dois atletas, de um total de cinco que conseguiram as marcas exigidas para participarem nos jogos, nomeadamente Guildo José e Maria Elisa Muchava, e os seus respectivos técnicos Anelton Tinga e Fernando Lucas.

Com os olhares presos num ponto imaginário, os atletas não querem que lhes falem de limites, até porque, acreditam, “a esperança é a última a morrer”.

Apesar das inúmeras di ficuldades por que passam, desde a falta de equipamentos até a (péssima) qualidade do piso onde treinam, o qual não oferece condições sequer para quem queira realizar as menos exigentes actividades físicas, quanto mais para atletas de uma selecção nacional.

O que seria normal é que Maria e Guildo pulassem de alegria depois de terem conseguido as marcas mínimas para os Jogos Paraolímpicos de Londres. Porém, eles agora têm de vencer a mais dura das provas: o desamparo do Governo.

Diga-se, em abono da verdade, a possibilidade de a dupla representar o país é remota, pois o que devia ser um motivo de alegria torna-se a cada dia que passa num pesadelo. No dia em que conseguiram os resultados que garantiam o passaporte para os jogos tiveram conhecimento de que não havia sequer dinheiro para custear os treinos.

A notícia de que não havia fundos, dada no momento em que comemoravam a sua quali ficação para Londres, foi um balde de água fria para Maria. Subitamente, os seus olhos perderam o brilho e o sonho começou a esmorecer naquele instante.

“O que mais me custou foi aceitar a ideia de que não há dinheiro para nós representarmos o país e nem sequer para treinar”, diz enquanto faz alongamentos no pouco que sobrou do piso da pista do Parque dos Continuadores. Faz uma pausa e questiona: “O que são 100 mil meticais diante do que a selecção nacional de futebol gasta numa só viagem?”

A pouco menos de três meses para o início do maior evento desportivo mundial para de cientes, os Jogos Paraolímpicos de Londres 2012, a selecção nacional que representará o país nesta competição vive numa constante incerteza e em total estado de abandono. Não há, diga-se de passagem, com a exclusão da abnegação dos atletas, algo que corra dentro do normal na equipa nacional que já garantirá um lugar em Londres nos dias 29 de Agosto a 9 de Setembro.

O pesadelo

Houve, contudo, um período em que as coisas corriam na perfeição. Pouco depois de os atletas conseguirem as marcas consideradas ideais para a sua ida a Londres, os treinos passaram a ter lugar quatro vezes por semana. Enquanto uns treinavam no período da manhã, outros preparavam-se durante a tarde.

Essa vontade de treinar e procurar a melhor forma física foi esmorecendo ao longo do tempo, sobretudo quando os atletas tiveram conhecimento de que “não há fundos para custear as suas despesas” de treino e de deslocação ao país que vai acolher as Olimpíadas.

Efectivamente, ao contrário do que seria normal em situações do género, a selecção treina uma vez por semana a escassos meses dos jogos. A Federação Nacional de Atletismo e o Comité Paraolímpico de Moçambique alegam não terem fundos para as despesas decorrentes do facto de cinco atletas terem atingido marcas para o evento.

Dia-a-dia de sacrifícios e nenhuma recompensa

A firmar que o dia-a-dia dos atletas paraolímpicos é marcado por sacrifício é um mero recurso estilístico. Se para uma pessoal em perfeitas condições de saúde desa fiar os autocarros semicolectivos é um martírio, para duas pessoas com problemas visuais é uma demonstração de abnegação e vontade de superação.

Maria e Gildo vivem nos subúrbios de Maputo. Para chegaram a tempo e horas aos treinos, eles têm de se levantar muito cedo, por voltas das 4h00. Sem transporte próprio, ambos, de pontos diferentes, lutam por um lugar nos Transportes Públicos de Maputo. Outras vezes, quando ninguém cede um lugar, são obrigados a viajar apinhados em carrinhas de caixa aberta.

Outro factor que coloca numa situação de vulnerabilidade os nossos atletas é o facto de alguns serem portadores de cegueira total, facto que torna a sua locomoção um calvário sem a ajuda dos guias.

Herança dos Jogos Africanos

O atletas herdaram dos Jogos Africanos realizados em Maputo em Setembro de 2011 apenas sapatilhas. Quando se olha para Maria e Gildo, nada os identi fica como representantes de uma selecção nacional. Isso é o que eles sentem quando treinam com roupas próprias e sapatilhas herdadas dos Jogos Africanos.

Desconhecem o seu estado actual

Se treinar em condições é uma miragem, os atletas não estão surpresos com o facto de não competirem para atestar o seu nível actual. Para quem treina em terrenos baldios nos bairros todos os dias, com a excepção das segundas-feiras, porque nem sequer há dinheiro para o transporte, é doloroso conviver com a realidade do Parque dos Continuadores.

Os cronómetros que usam para registar as suas marcas são manuais e já caíram em desuso em locais onde o desporto é encarado com seriedade. “Não conhecemos o nosso real tempo. Não sabemos se melhoramos ou pioramos. Só sabemos que poderemos ir a Londres”, queixam-se.

Logo depois dos treinos, ou ainda no decurso dos mesmos, não há água para os atletas. Porque a necessidade de consumir o precioso líquido é enorme, os mesmos socorrem- -se da que jorra nos balneários do Parque dos Continuadores. O mais próximo de comida que conseguem ter é o cheiro que exala do centro social ao lado da pista.

“A dona Farida diz que não há fundo para isso e nós temos de aguentar até às 12h00 quando regressarmos às nossas casas e/ou esperar pelo fim do dia. Acreditamos que em Londres será também assim”, a firma Gildo.

O desporto que os nossos paraolímpicos praticam, como dizem, não é difícil e treinar por amor apesar da falta de condições. Embora estejam reunidas todas as condições para que desistam, nunca lhes passou pela cabeça deixarem de treinar. “Quem luta, espera sempre pela vitória”, a firma Maria.

Depois do anúncio de que não há fundos para os treinos da selecção nacional de atletismo, a responsabilidade foi remetida ao Comité Paraolímpico de Moçambique.

Para ultrapassar a situação, marcou-se uma reunião com Farida Gulamo, presidente daquele órgão, a qual tinha como objectivo encontrar soluções para as inquietações da selecção nacional e, segundo contam os próprios atletas, a reunião foi um fracasso. Uma das inquietações colocadas na mesa foi a necessidade de um estágio pré-competitivo como forma de testarem as suas aptidões rumo aos jogos.

A única resposta obtida do referido encontro foi que o Comité está sem fundos e que está a envidar esforços no sentido de ter algum dinheiro no seu cofre para responder às inquietações da Federação e dos próprios atletas.

Sobre o estágio os atletas fizeram saber que Farida Gulamo colocou-lhes num dilema: “Ou estágio ou escola, a escolha é vossa. Por mim vocês devem ficar aqui até ao período dos jogos”.

Depois da bonança, veio a tempestade

Os atletas paraolímpicos a firmam que foi com muito orgulho que conseguiram ocupar as vagas de Londres. Maria a firma que foi “a concretização de um sonho” que alimenta há anos. Gildo concorda e acrescenta: “há anos que queria chegar ao maior palco desportivo para de cientes” e lembra que o feito deve-se mais ao “esforço pessoal” de cada um.

Mas, visivelmente agastados, dizem que é com muita pena que foram votados ao esquecimento. É-lhes fácil enumerar as razões: “somos a selecção que apurou mais atletas para Londres e mesmo assim não temos equipamento, não temos alimentação, água, transporte; fomos impedidos de treinar no Estádio Nacional do Zimpeto, o nosso cronómetro é manual, não temos direito a estágio e nem recebemos selecções de fora do país para competirem connosco”, diz Gildo.

Maria sabe, porém, que podem ser cobrados resultados, ainda que não se tenha investido o mínimo. Mas adverte: “espero que ninguém do Comité Olímpico nacional muito menos do Governo nos exija nada em função do nada que nos deu”.

Em suma, os atletas estão descrentes em relação à sua deslocação a Londres. @Verdade ouviu a Federação e ficou a saber que 100 mil meticais é a quantia necessária para cobrir as despesas dos treinos diários dos atletas em solo moçambicano.

Maria Elisa Muchava

De 20 anos de idade, ela tem problemas visuais desde a nascença. Enxerga imagens até a uma distância de 20 metros. Começou a correr quando tinha 13 anos. Acorda às 6h00 e a primeira coisa a fazer é ir à escola. Aos treinos chega no segundo período do dia.

Diz ter sofrido muita discriminação nos seus primeiros anos de escolaridade. Mas hoje é um assunto ultrapassado. Tem namorado e não pensa em ter filhos. No início, segundo conta, era muito difícil. Muitas vezes, tropeçava e feria-se. Mas persistiu.

Os seus dotes na corrida descortinaram-se no bairro 3 de Fevereiro em Laulane. Narciso e Izé, lembra, foram os seus primeiros treinadores que acreditaram no seu potencial. Ainda competia na prova de meias maratonas na zona.

Criado o Núcleo Desportivo de Laulane, foi chamada a fazer parte e daí avistou-se o caminho para o crescimento no atletismo. Conheceu a sua primeira pista em 2007 e, graças aos treinos, adaptou-se.

Foi chamada ao Clube de Desportos Matchedje em 2008. Lá, afirma ter ganho maturidade como atleta profissional e, porque só podia competir com atletas convencionais, foi transferida para a Federação Moçambicana do Desporto de Pessoas Portadoras de Deficiência onde teve a sorte de vestir pela primeira vez a camisola de Moçambique como atleta em 2010.

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Conta que no Matchedje corria os 800 metros em 2:45minutos e já na Federação, graças ao seu esforço e dos treinadores que encontrou, começou a percorrer aquela distância em 2:30 e 2:29 minutos.

Com o decorrer do tempo passou também a correr em pistas de 100, 200 e 400 metros. Foi campeã nacional dos 400 e 200 metros. Maria participou nos jogos africanos e, segundo narra, foram muito pesados. A responsabilidade de representar o país a nível africano era acrescida. Contudo, o seu esforço e perseverança foram suficientes para sair com uma medalha de bronze nos 200 metros.

Aos Jogos Paraolímpicos

Qualificou-se no presente ano na Tunísia. As marcas exigidas para chegar a Londres eram de 30 segundos mas conseguiu fazer 29 segundos nos 200 metros. A sensação foi boa mas não se sentiu feliz pela penosa situação a que esteve sujeita.

Conta primeiro que a viagem foi estafante. A temperatura não ajudava e o local de hospedagem era muito longe do local dos jogos. Só para recordar, aquando da estadia na Tunísia, a selecção nacional dispôs de 7.2 dólares por dia em comparação com os 350 diários da sua congénere do Botswana, cuja selecção foi derrotada pela nossa.

Guildo Zacarias

Também tem problemas visuais desde a nascença. Vai a Londres competir nos 200 e 400 metros. Deu os primeiros passos nos jogos escolares da cidade de Maputo.

O seu dia-a-dia tem sido normal como o de qualquer atleta. Acorda às 4h30 e sai de casa, no bairro do Alto-Maé, por volta das 5h00 a caminho do Aeroporto Internacional de Maputo a fim de aproveitar a pista lá existente para praticar exercícios, situação que ocorre nos dias em que não tem treinos, ou seja, de terça a domingo.

Por volta das 8h00 retoma à casa. Cumpre com os deveres de casa. É formado em Desenho de Construção Civil pelo Instituto Industrial de Maputo. Neste momento não encontra- -se a estudar, tendo o atletismo como seu foco.

Os seus hobbies são namorar ou praticar game no seu computador. Supera as dificuldades e não sente nenhum obstáculo pela sua deficiência, tentando de tudo para fazer o mesmo que os outros.

Qualificou-se para Londres na Tunísia mas, devido a questões ligadas à organização, o apuramento foi anulado, o que resultou na sua participação num novo certame, já em Portugal. Foi e ganhou, inclusive melhorou no tempo outrora obtido na Tunísia.

Anelton Tinga, atleta guia

É um atleta que escolta o outro com problemas de visão. Acompanha o seu desempenho na pista de corrida. É quem dá as instruções sobre as curvas, a meta e outros eventuais obstáculos que possam surgir. Não sofre de nenhuma deficiência.

Ele é guia de Celso Moisés Simbine, atleta paraolímpico que vai vergar as cores nacionais nas pistas dos 400 e 800 metros em Londres.

Para Anelton, não é fácil treinar um atleta com problemas visuais. “É muito difícil porque tenho que controlar duas pessoas em simultâneo, ou seja, a mim e ao meu acompanhante”, disse.

Tem de correr e dirigir o outro atleta de modo que não entre na pista do outro concorrente porque, caso isso aconteça, é automaticamente desqualificado da corrida.

A sua maior dificuldade é, por exemplo, manter a comunicação com o seu par durante a corrida. Diz que não é fácil falar durante a corrida pois isso cansa mais. Começou a treinar um paraolímpico no ano passado.

Entrou no atletismo em 2002 através do núcleo desportivo de Benfica no bairro George Dimitrov. Ingressou no clube do Matchedje em 2004 como atleta. Chega à Federação do Desporto para as Pessoas Portadoras de Deficiência em 2011 onde começa a trabalhar como atleta guia.

Participou dos Jogos Africanos de Maputo onde diz ter aprendido bastante, e foi a sua primeira alta competição. Sente-se muito feliz por ir a Londres realizar o seu sonho de participar nos jogos Olímpicos e, inclusive, qualificar o país para o campeonato do mundo.

Fernando Lucas, atleta guia

Entrou no atletismo em 2001 na Escola Primária Segundo Grau de Bagamoio. Nos finais de 2003 ingressou como atleta no escalão de iniciados no Clube Desportivo de Matchedje. Chegou a envergar as cores nacionais pela selecção nacional sub-17 como atleta convencional em 2007. No ano seguinte representou Moçambique no campeonato regional da zona IV.

Em 2009, foi às Maurícias competir no Campeonato Regional de Corta-mato em juniores e no ano seguinte participou do Campeonato Regional da zona IV do mesmo escalão etário em Maputo. O seu treinador, ciente do seu acometimento no desporto, chamou-o com a finalidade de guiar um atleta deficiente visual na selecção nacional.

Em 2011, esteve com o seu acompanhante num estágio em Portugal, por um período de cinco meses, onde participou num campeonato local tendo amealhado duas medalhas de ouro e uma de prata.

Foi a Algarve, Portugal, onde qualificou o seu acompanhante para os Jogos Paraolímpicos de Londres. E neste mesmo campeonato foi sortudo: qualificou dois atletas no mesmo dia na pista dos 400 metros, o Peter Rondão e o Celso Simbine com os mínimos de 56.32 e 58.4, respectivamente, dos 59 exigidos.

“Qualificar o meu acompanhante não foi tarefa fácil. Até porque nunca foi fácil trabalhar com atletas com cegueira. É preciso ser cauteloso para controlar os movimentos do atleta”, disse.

A sua maior dificuldade reside na comunicação com o seu acompanhante. Diz que não é fácil correr a falar.

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