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“Onde não se constata nenhuma Evolução, a arte deve ser usada para a Revolução”

Em Maputo, as chuvas que caem no país – além de semearem luto e miséria no “maravilhoso povo” – agudizam a crise habitual. No entanto, intrépida em relação à dor alheia, a “Senhora Faztudo” exibe-se com a sua Limusine. Aqui está tudo estagnado, “não se constata nenhuma evolução”. Por isso, a arte deve fecundar a Revolução…

Na cidade de Maputo, a capital moçambicana – ninguém está imune aos problemas do sistema de transportes públicos moribundo como os que, presentemente, se tem. A diferença é que, o povo – que nitidamente constitui a maioria desfavorecida – é que sente mais os efeitos da dura (ditadura imposta pela) realidade.

Em resultado das chuvas que se abatem um pouco por todo o país, na altura em que escrevemos este artigo, a população ressente- se do seu impacto. A informação da meteorologia não é consoladora: “haverá uma bolsa de chuvas intensas no próximo fim-de-semana e com consequências devastadoras”. A vida deve continuar. O problema é que, em pouco tempo, ao que tudo indica, a população experimentará o ápice da perturbação implantada por um Sistema de Transportes Públicos falido.

Em contra-senso, os dirigentes do país – na sua arrogância habitual – fazem-se à rua nas suas viaturas de luxo. Tudo o que se escreve, até aqui, discute-se num objecto artístico. Pode ser lido por qualquer pessoa. O que se nos impõe como um grande espanto é o seguinte: Como é que uma obra de arte, “A Limusine da Senhora Faztudo”, pode sintetizar, de forma fiel, as vivências de um povo sobre quem se diz Maravilhoso?

Talvez, nesta semana, não falássemos sobre a produção artística de Vasco Manhiça. Este artista plástico, ainda que atento à realidade local do seu país, Moçambique, está em Alemanha. Lá na Europa. Mas aqui, em Maputo, chove. E quando é assim, a vida das populações fica estagnada. Deslocar-se de um ponto para o outro é um risco de saúde, ou seja, quase de vida: noticiou-se sobre duas crianças, nesta cidade de Maputo, que durante estas enxurradas foram engolidas pelas águas.

Aqui no Jornal, pela natureza do trabalho, há que se produzir informação sobre tudo o que acontece – para o benefício do estimado leitor – mas o fenómeno da chuva moveu um dos nossos entrevistados a desmarcar o encontro. “Vire-se o repórter”, afinal não faz parte dessa “geração da viragem”?

Foi assim que, a par de outros factores, conhecemos o artista plástico moçambicano, Vasco Manhiça que, presentemente, vive na Alemanha há sete anos. Foi igualmente nesse contexto que conhecemos “A Limusine da Senhora Faztudo”, uma das suas belas telas que naquele dia prendeu a nossa vista.

Uma interacção necessária

A página de Facebook de Vasco Manhiça pouco difere de uma galeria (virtual) de arte. Na verdade, é isso. Por essa razão, os apreciadores das artes plásticas, sempre que o visitam, perdem-se por lá. Não se querem desconectar. No nosso caso, naquele dia chuvoso, o que nos prendeu foi a obra com o título “A Limusine da Senhora Faztudo”.

“Parece-nos que, nessa obra, o artista capta uma realidade local de Moçambique, concretamente de Maputo. Não é verdade?”, curiosos, perguntámos, pelo que Vasco confirmou o facto ao mesmo tempo que nos esclareceu que a criação foi gerada no ano passado, em Soweto, na África do Sul.

Em relação à criação, Vasco Manhiça considera que se está diante de um retrato dos acontecimentos que, infelizmente, têm inquietado o país. Na verdade, este é apenas um exemplo de muitas peripécias brutas que mancham o nosso dia-a-dia nesta terra.

Ou seja, por exemplo, em Moçambique “enquanto o povo é obrigado a ser empacotado como sardinhas, ou pendurado como cabritos, nos escassos meios de transporte públicos, os top-funcionários do Governo desfrutam de Limusines e outros meios de transporte luxuosos. (…) a bomba explodiu da parte do povo e eu venho deste meio, como mensageiro ou amplificador do clamor popular, para que o mundo oiça o nosso grito. Basta!”

Uma rica experiência em Soweto

Em 2012 Vasco Manhiça, ou simplesmente Kito, esteve na África do Sul – concretamente em Soweto – onde participou numa oficina de criação de arte. Foi no referido encontro que nasceram “A Limusine da Senhora Faztudo” e “Senhora Faztudo”, criadas com base em técnicas mistas sobre as telas. Entretanto, ainda que Soweto seja uma cidade de contrastes, nada nos podia convencer de que a narrativa que se desenvolve na primeira obra tinha muito a ver com a realidade sul-africana.

A verdade é que, ainda que estejam noutros pontos do mundo, os artistas moçambicanos não ignoram a realidade local. “Tenho acompanhado os acontecimentos do país. Muito recentemente estive em Moçambique, antes de ir para a oficina artística em Soweto. Desta vez, a crise dos transportes foi terrível. É uma realidade que experimento sempre que visito o país”, enfatiza.

Ora, se uma pessoa leiga em matérias de artes ficou impressionada com “A Limusine da Senhora Faztudo”, qual, então, teria sido a crítica dos especialistas? A obra é um sucesso irrecusável. Os críticos sul-africanos, entre outros que participaram na oficina de criação artística, sancionaram-na favoravelmente.

No entanto, ainda que isso seja importante para a promoção das artes, da cultura e do artista moçambicano no mundo, o mais importante para Kito foi a possibilidade de interagir com outros criadores – no contexto das artes africanas – como, por exemplo, o célebre artista plástico sul-africano Ayanda Mabulu, bem como granjear daquele alguma admiração.

Sabe-se, porém, que, perante as obras de Vasco Manhiça, os artistas sul-africanos viram-se impelidos a reconhecer que estavam a apreciar uma forma diferente de ser e estar no panorama artístico-cultural.

É em resultado disso que, na segunda metade de 2013, depois de o artista realizar uma mostra em Maputo – agendada para Setembro que será acompanhada de workshops sobre temas afins do mundo artístico – Joanesburgo será o lugar onde a produção artística nacional irá ampliar a sua esfera de acção e representação.

O fim da Senhora Faztudo

Se num momento de crise como o actual, cujos efeitos se abatem sobre os moçambicanos, a “Senhora Faztudo”, sozinha, se faz transportar num carro de luxo enquanto o povo, por si dirigido, experimenta as mais excêntricas inseguranças deste século XXI, no mínimo, isso possui um significado – “a Senhora Faztudo é egoísta”.

Por essa razão, um dia terminará solitária, privada, inclusive, da sua Limusine. Talvez essa possa ser uma forma de justificar a criação de uma obra com o mote “Senhora Faztudo” que se constitui como uma crítica social e política.

De qualquer forma, explicando o seu ponto de vista em relação à dita obra, Manhiça – este cidadão africano cujas raízes se denunciam pela valorização, na sua obra, de temas resgatados de uma tradição oral – revela-nos que “durante a infância, os mais velhos sempre diziam que os mentirosos e egoístas, um dia irão expelir monstros. Portanto, nesta obra, procurei de uma forma muito simplificada retratar um(a) mentiroso(a), muito elegante, a defecar aberrações a sangrarem”. Trata-se de um retrato da alma dos mentirosos e egoístas. Do seu final infeliz.

É neste prisma que, na sua intervenção, Kito impõe a arte como uma ferramenta de luta. Um veículo de transmissão de conhecimentos, objecto de registo das manifestações sociopolíticas e culturais de povos como ferramenta de luta contra os males que deterioram uma sociedade, assim como contra a ignorância (produto da continua e sistemática lavagem cerebral). Portanto, por todas estas razões, Manhiça entende que “onde não se constata nenhuma Evolução a arte deve ser usada para a Revolução”.

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