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Na Galeria Jamuene…

Nas proximidades do Museu Nacional de Etnologia, na cidade de Nampula, encontra-se a Galeria de Arte Jamenue. De fora, por causa do material precário de que é feita, a estância não é atraente. Mas por dentro é surpreendente. Descubra-a na terra das “muthiana horera”…

O que é que um turista (estrangeiro/nacional) aprecia num destino turístico? Gente da terra? A sua gastronomia? Perceber a sua vivência e/ou a sua maneira de conviver? A sua produção artístico-cultural ou o seu artesanato?

Será que é em relação ao canto e à dança de uma terra que o cidadão forasteiro se interessa ou, provavelmente, ele encanta-se pela indumentária dos autóctones? Talvez, o turista ganhe interesse de uma boa hospitalidade dos nativos da região visitada. Ao certo nunca se sabe, mas todos esses elementos são importantes.

De qualquer forma, quando se está diante da Galeria Jamuene, na cidade de Nampula, muitas outras questões podem ser formuladas. Porventura, o coordenador daquela organização, Geraldo Constantino Maneira – ou simplesmente Jamuene, como prefere que o tratem no meio artístico – havia pensado nas apetências dos turistas quando, em 2010, por iniciativa própria, criou o estabelecimento?

E como é que uma pessoa se torna – mesmo sem passar por uma formação universitária de especialidade – um produtor de objectos culturais (com destaque para o artesanato) e gestor de uma galeria?

Não há dúvidas de que determinadas literaturas científicas – de especialidade nos tópicos – nos dêem respostas. De qualquer forma, quando se chega à Galeria Jamuene – onde, invariavelmente, uma série de quinquilharias povoam o espaço prendendo a vista dos visitantes – é quase impossível não se ficar impressionado.

Geraldo Maneira nasceu numa família em que a paixão pelas actividades culturais é algo natural. É por essa razão que há 30 anos, a mesma idade da sua existência, que trava uma relação umbilical com as artes, com destaque para o artesanato.

“Prostituto” das artes

Tratando-se de uma personagem que nasceu para as artes, torna-se muito difícil delinear quantos anos, dos seus 30, dedicou até agora às respectivas actividades.

“Dedico-me a (quase) todas as áreas artístico-culturais porque – ao longo da vida – aprendi um pouco de tudo. É que não há necessidade de desprezar nenhum dos conhecimentos que explorei”, afirma quando chamado a justificar a promiscuidade que faz entre o canto e a dança, o teatro e a pintura, incluindo o artesanato.

Digamos que Geraldo Maneira é uma “prostituto” das artes. É por essa razão que vezes há em que o artesão não consegue dividir-se entre as tarefas que possui. “Não é fácil assegurar todo o trabalho sozinho”, afirma ao mesmo tempo que justifica a legião de apoiantes que possui na galeria.

Quando criança, Geraldo Maneira trabalhava o barro e materiais metálicos, sobretudo latas, para produzir brinquedos e instrumentos musicais. Na adolescência, na igreja, aprendeu o canto, ao mesmo tempo que se filiou em algumas associações culturais locais como, por exemplo, a Casa Velha, a Casa da Cultura Provincial, entre outras, na Ilha de Moçambique. Essa relação proporcionou-lhe o aprimoramento dos seus conhecimentos sobre o teatro, o canto, a dança, o corte e costura, sendo essa experiência a sua fonte de motivação.

Lamentações

Ainda que a moral, como é claro, seja uma força motora essencial para a efectivação de qualquer actividade, quando Geraldo Maneira se recorda de que os bens materiais, sobretudo o dinheiro, são factores determinantes na sua materialização não consegue abrigar as lamentações da classe artística.

“O que está a acontecer na nossa província é muito triste. Não difere de carregar a cruz nas costas, sabendo que tu vais morrer e sem nenhuma esperança. Nós, os artistas de Nampula, temos dado o nosso máximo, o nosso melhor no trabalho que fazemos, porém, ao fim e ao acabo, a população e o Governo não valorizam a nossa obra”.

Foi a fim de fazer face a esta realidade que Geraldo Maneira criou a Galeria Jamuene – um espaço onde se produzem e comercializam obras de arte e de artesanato. O mais importante é que o espaço está aberto para acolher os outros artistas de Nampula. “É com o dinheiro que se adquire nesta galeria que consigo financiar a produção de algum material, como camisas, chinelos, mochilas, incluindo a compra de tinta para a criação de telas”, refere.

Granjear simpatias

E como nem tudo pode estar errado, apesar do fraco apoio que se direcciona à cultura, a imaginação criativa dos artistas acaba por se impor como a força motriz para a sua evolução. Caso contrário, como se explicaria a demanda (cada vez crescente) em termos de visitas que cidadãos idos das cidades da Beira, de Quelimane, de Maputo, incluindo outros que se deslocam de diversas partes do mundo para Nampula?

A resposta é simples: os poucos que visitam a Galeria Jamuene ficam impressionados com o que vêem e, multiplicando a (boa) mensagem sobre o espaço entre os seus próximos – fazendo, por essa via, publicidade –, atraem-nos para conhecer a estância.

Para manter o ritmo, Geraldo Maneira afirma que “trabalho todos os dias. Crio novos produtos a fim de poder atingir um patamar alto no panorama das actividades culturais da província de Nampula. Espero que se chegar a vez de me tornar um artista conceituado, não fique preguiçoso, como tem acontecido, sob pena de cavar a própria derrocada”.

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