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O preço de ser boémio

O preço de ser boémio
Vendeu a herança por dois milhões de meticais, desbaratou-a num ápice e hoje é mais um anónimo varredor de estradas na África do Sul, que vem sendo sustentado por uma compatriota que faz do sexo seu negócio. Esta é a triste crónica da vida de Picardo, jovem beirense a quem a morte dos progenitores pôs perante uma fortuna enorme e uma total desorientação. Amigos de ocasião, os muitos que aparecem quando se tem, vieram de todos os cantos para o esbanjamento.

Picardo nasceu há 33 anos na cidade da Beira. Filho único de um casal próspero, perdeu o pai aos 23 anos e a mãe aos 28, portanto já era ele um homem feito e de quem se podia esperar governar a vida com lucidez. Com efeito, durante os cinco anos que separaram a morte do pai da da mãe, Picardo não teve história, a não ser a normal esbórnia dos bem-nascidos sem preocupações e com a tranquilidade de quem não imagina que as coisas podem acabar.  
 
Por morte da mãe, o jovem entra na posse da bem mobilada mansão familiar em que crescera, de uma viatura cabine dupla de luxo e de uma conta bancária gorda. Foi quanto bastou para a horda de amigos consumidores de soruma aumentar, os móveis serem vendidos um por um, a viatura desaparecer em peças para a droga do dia-a-dia.
 
Em finais de 2007, a mansão já era grande demais para o seu único habitante, para mais numa situação em que nem móveis já possuía. O melhor dos momentos de habitabilidade seria quando os sem-abrigo se acoitavam na mansão para pernoitarem. Como solução, Picardo vendeu o imóvel por dois milhões de meticais e aportou Maputo, à busca de oportunidades de negócios.
A orgia 
Em Maputo, hospeda-se numa pensão, enquanto faz buscas para localizar um amigo de infância com quem entendia dever fazer bons negócios na capital. Enquanto não encontrava o amigo, seis prostitutas ofereceram-se-lhe para sexo colectivo, aquele tipo de profissionais do sexo que já pouco tem de atractivo, porque o tempo e noitadas lhe queimou o encanto. Apenas lhe sobra o calo de qualificação profissional.
Quando, finalmente, encontrou Otomar, 28 anos, outro boémio e drogado de primeira linha, este sugere-lhe passar a viver na dependência da vivenda do seu pai, a poucos metros da pensão. Negócio fechado e, num gesto benevolente, Picardo fixa a renda em cinco mil meticais, mais dois que o tabelado pelos proprietários da dependência. 
 
No princípio, Picardo fazia sexo apenas com uma de cada vez. Mas, à medida que ele passa a exibir mais dinheiro e ingere mais álcool e fuma mais soruma, começa a ‘fazer amor´ com duas ou com três parceiras por dia. Eram orgias sem fim. 
O preço de ser boémio!
É assim todos os dias. Uns perdem o juízo e trocaram os locais de trabalho pela dependência de Picardo. Outros perdem lares. Outros ainda – um pouco sortudos – são resgatados pelas esposas ou familiares. O dinheiro começou a rarear. Se no princípio a cerveja e a carne eram chamados por ‘tu’, agora é diferente. Muitos desapareceram. 
 
Picardo encontra uma inovação: ir ao banco e berrar ao gerente: “ Desfaça a minha conta a prazo, passe-a para corrente e emita-me o cartão de débito!”. Satisfeito, volta a chamar Paty, Sheila, Maninha, Mimi e Jó. Bitó, Mito, Nelo, Miro e Sotomar. Recomeça o festim no mesmo palco e com a mesma peça. Mas foi sol de pouca dura pois o dinheiro volta a rarear, e desta vez para sempre. Já não há “dilúvio” de cerveja, frango e bifes. As garotas regressaram ao Ribatejo e os chulos às suas casas, para sempre!
 
Para trás ficou Picardo, caído na alucinação: sentado, manda os outros calar porque ora  “estou a falar com a minha falecida mãe ou com o defunto pai que passam recados”. Ou porque “estou a escutar uma rádio aqui em cima da minha cabeça”, por aí em diante. Foi consultar os curandeiros da Catembe. Nada! Foi às igrejas rogar ajuda ao bom Deus: nada!
 
Sem dinheiro para pagar a renda, o primo e amigo expulsa-o sem contemplações. Sem côdea ou pão seco do dia anterior para matar a fome, Picardo só viria a ser salvo pela Mimi, umas das cinco a que, nos tempos das vacas gordas, dava menos atenção, por ser a mais velha do grupo. Passou a viver com ela no seu cubículo algures no Benfica, donde partiram juntos para as terras do rand em que, sem nome nem história, é visto a varrer estradas enquanto Mimi faz sexo nos cabarés para sobreviverem!
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