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O pedestal é que faz grandes as estátuas

Há cerca de 10 anos, Moçambique participou pela última vez num CAN, o treinador era Arnaldo Salvado. Somou um empate e duas derrotas. E o melhor é que esse empate, embora não tenha servido para nada, foi perante o finalista vencido.

“Naquele CAN nunca fomos derrotados no plano estético do jogo”, disse na altura um conceituado jornalista desportivo. Mesmo para os estudiosos ocasionais do fenómeno, a sua afirmação tem uma reverberação lúgubre. Uma das trocas de ideias mais famosas sobre futebol surgiu, alguns anos depois, entre Jorge Valdano, filósofo do desporto-rei, e um treinador italiano. Valdano recorda-se de lhe ter dito: “O futebol precisa de artistas para conseguir grandes resultados”. Ao que o técnico italiano retorquiu: “Pode ser verdade. Mas é irrelevante.”

Para os críticos, especialmente para os ‘resultadistas’, todas as campanhas moçambicanas no futebol continental, tanto a nível de clubes como de selecções, excepção feita às do Matchedje e do Ferroviário, foram autênticos pântanos. Mas por vezes os clichés tornam-se verdade e, especialmente nos últimos anos, o nosso futebol parece regredir para a sua pré-história.

As semelhanças são perturbadoras: o seleccionador, Mart, ansioso por mostrar a sua firmeza, garante que podemos bater a Nigéria e qualificarmo-nos para o Mundial 2010. E até pode ser verdade, mas apenas no plano das hipóteses.

O futebol a que prestamos culto não é de modo nenhum o espelho do nosso potencial. É como uma mulher que violentamos, um corpo semi-falido, com clubes incompetentes e corruptos, que ao longo desses anos fingem que vivem da formação de jogadores. Aqui e ali disfarçamos as nossas lacunas, exportamos Dominguez e Simão, o primeiro melhor jogador sul-africano da época passada, o segundo, um dos dez melhores jovens a jogar na Europa.

A Federação Moçambicana de Futebol e o Ministério da Juventude e Desportos estão de acordo quando se diz que o investimento no futebol deve ser reforçado. O que é preocupante é que ninguém foi capaz de dizer para que servem investimentos adicionais no FUT 21, excepto para serem uma espécie de torniquete para estancar a sangria – enquanto alguém não surgir com uma estratégia de baixo custo que tenha hipótese de funcionar.

Já não é cedo para dizer exactamente que projecto tem o timoneiro da FMF. Há alguns sinais – difíceis de interpretar com segurança mas não menos sugestivos – de que o clientelismo está a penetrar pelo menos em alguns sectores importantes do actual elenco. O facto de a família do presidente da FMF ter ligações com negócios em torno do futebol contribui ainda mais para atiçar a desconfiança sobre a estratégia de liderança.

Quando vencemos o Botswana, a FMF recebeu os Mambas de braços abertos, pensando que os pés de Tico-Tico e Dominguez elevariam o nosso futebol ao topo do continente e, quiçá, do mundo.

Ignoram ou fingem ignorar que o processo de construção do nosso futebol pode ser uma causa perdida. Foram poucos e espaçados os momentos de glória. O insucesso tem sido a norma ao longo dos anos. Se na África Austral, todas as selecções cresceram muito mais do que nós foi porque apostaram na formação.

Obviamente que uma vitória sobre a Nigéria é capaz de insuflar de orgulho o nosso ego. Contudo, por vezes, os nossos piores inimigos parecemos ser nós. A longa lista do nosso insucesso aponta no mesmo sentido: a situação do nosso futebol é grave e tende a piorar. Nos escalões de formação, agora, como há anos quando nos qualificámos pela última vez, há um número crescente de cépticos. Dito de outro modo, o problema não está e nunca esteve nos recursos humanos – entenda-se treinadores e jogadores que, diga-se em abono da verdade, são dos mais dotados técnicamente a nível de África – o problema, está enraizado a nível institucional, apenas. O sucesso do futebol assenta, portanto, em dois pontos básicos: apostar na formação e no desenvolvimento de infraestruturas. Se o Governo, Federação e Clubes não canalizaram o seu pensamento para a formação, Moçambique encontrará a estrada certa para o nosso futebol caminhar no relvado, hoje e sempre.

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