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O pão-nosso de cada dia

O pão-nosso de cada dia

 

 

O encurtamento dasrotas por parte dos transportadores semicolectivos tornou-se prática corrente, um procedimento que se repete diariamente, nas manhãs e tardes da cidade de Maputo. Nas horas de ponta. O objectivo deste procedimento dos operadores de transporte é rentabilizar os meios, aproveitando o desespero das populações, para ir e/ ou voltar dos locais de trabalho. Perante cúmplice indiferença das autoridades competentes e conformismo da população.

 

Vejamos o cenário de uma manhã na terminal do Bairro Patrice Lumumba. Duas filas enormes encontramse
constituídas, sendo uma para a cidade Baixa e outra para o Museu, em alguns momentos uma terceira aguarda o autocarro dos TPM.

Um grupo de jovens de idade que mal se define, seja pelos rigores da vida, seja pelo que consomem para relaxar ou melhorar a
sua autoridade, desempenha o pomposo papel de fiscais ou pessoas da Comissão. A
sua tarefa, diz-se, é organizar as bichas e disciplinar as viaturas para o cumprimento
das rotas e outras obrigações que só eles conhecem. No entanto, a olhos vistos, vão metendo amigos na bicha, deixando entrar outros tantos conhecidos que lhes aparecam pela frente, a que preço não se adivinha. O
certo é que, rigorosamente, uma viatura de quinze lugares acaba levando apenas cinco ou seis das pessoas que se encontram organizadas e disciplinadas. Entre compromissos dos fiscais, amizades dos motoristas e cobradores, pessoas que se cumprimentam e vão mantendo longa conversa e ganhando lugar na bicha, o cidadão honesto vai gramar duas horas para conseguir transporte nesta terminal. Da função disciplinadora destes fiscais, relativamente aos transportadores, o melhor que se pode afirmar é ser ela nula. Mais do que nula, aliás, é prejudicial, na medida em que encobre e investe os transportadores de toda a impunidade para agir como o fazem. O que se assiste no dia-a-dia é que estes indivíduos estão ali para fazer a sua vida ou pé-demeia, ainda que acabe sendo pé de copo. A própria Polícia Camarária, neste caso adstrita ao Município da Matola, faz-se convenientemente desaparecida durante estas irregularidades. Por vezes, são visiveis dois policias desta camarária, passeando na praça, cuidadosamente distantes das bichas. Parecem ter medo ou vergonha
de si próprios.

MMB 98-38, um destes “mini-bus” de quinze lugares, sem inscrição de rota, provavelmente pirata, portanto, em manhã de 5 ou 6 deste Janeiro que corre, inicia o pregão Jardim Junta! Algumas pessoas da formação abandonam os lugares e lutam para lá entrarem. E lá vai com os dezoito passageiros, nenhum dos quais tem qualquer interesse na Junta ou no Jardim. Querem a Baixa ou o Museu, mas vão iludidos com a ideia de meio caminho andado.

Poucos minutos depois, uma outra viatura, desta feita de 29 lugares, com a inscrição de rota     Zona/Verde/ Museu, MMN- 58-78 iniciao seu carregamento, mas posicionando-se na cauda
da bicha, numa atitude de entra quem for podendo “pois estamos a tentar ajeitar as vossas vidas para não
atrasarem”. As pessoas, com o desespero que o decurso do tempo vai aumentando, o temor de alguma falta no local de trabalho, lá se vão acotovelando para entrar no carro. O cobrador, com a sua característica falta de educação, vai arrumando o melhor que pode esses “sacos humanos”, já habituados
a tanta humilhação, que ainda por cima agradecem.O masoquismo atávico da nossa população.

MLX- 27-01, exibindo a chapa Machava/Socimol/Xipamanine, 29 lugares, vem recolher passageiros na praça Patrice Lumumba e ainda por cima encurtar a rota. MTB- 08-83, 29 lugares, Boane-Baixa, está por
aqui à fazer jeito as populações. MMB-77-59, berra uma nova rota que é para EDM e exige dinheiro trocado. É um pirata.

Num intervalo de quarenta e cinco minutos, catorze viaturas encurtaram a rota, fazendo o tal pregão Jardim Junta!, com os fiscais ali a pularem de um canto para o outro, exibindo aquela aparência de embrianguez permanente e as populações a murmurarem, quando podem e deixarem alguns aldrabões safarem-se passando para à frente. Os dois policias da Camarária, ainda magrinhos, como se recémadmitidos, circulam por ali indiferentes a tudo.

Na terminal do T3, as coisas em cada manhã passam-se exactamenete desta mesma forma, com os mesmos utentes, as mesmas viaturas a encurtarem as rotas, os mesmos cobradores maleducados. A Associação dos Transportadores existe por aí e formalmente, impondo preços e negociando com o Governo, a Polícia Camarária também existe e tem os salários pontualmente pagos dos bolsos do cidadão desprotegido. Admitimos que a Associação dos Transportadores não passa de uma fraude, de um grupo de pessoas que não tem a mínima noção do respeito devido ao consumidor, indivíduos a quem chamar de irresponsáveis é um grande elogio. Salteadores de estrada é o que são, por deixar crescer o encurtamento das rotas e dele beneficiarem.Quanto à Policia Camarária, já não podemos esconder que é uma cambada de corruptos que nem a denúncia de alguma coisa poderá servir neste país de silêncios e medos.

Quando, a 12 de Janeiro, vi o cobrador do MLZ-28-80, descer na Manduca, com dinheiro na carta do condutor para atender à Camarária, fechei os olhos de vergonha e medo de ser deste país. Pena ainda maior é que os cidadãos estão tão conformados que nunca reagem, dizem sempre “que remédio! Isto é assim”. Que pena!

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