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‘@Verdade EDITORIAL: O nosso egoísmo

Quando visitámos o infantário Dom Orione, no Zimpeto, não são as deficiências mentais e motoras das crianças que ali se encontraram que nos cortam a respiração. O que corta o coração é percebermos que elas estão ali porque fomos egoístas. Que estão ali porque o mundo cá fora é um lugar impróprio para a sua sobrevivência.

Que estão ali porque não concebemos um mundo para pessoas diferentes. Estão ali, sobretudo, porque nunca conseguimos olhar para o próximo como a extensão de nós mesmos. É inconcebível que sejamos tão baixos a ponto de abandonarmos uma criança totalmente dependente na porta de um infantário.

É inconcebível que o fruto do nosso ventre seja largado, qual objecto sem serventia, num terreno baldio. É inconcebível que uma mãe abandone um filho e vá atrás de um homem que, no conforto da cama e no auge do orgasmo, jura-lhe amor. Porém, após a ejaculação renega-lhe o filho.

Custa e é complicado compreender se há prazer para quem viola sexualmente uma criança de cinco anos. Que motivações um ser humano pode ter ao cometer acto tão hediondo? Que tipo de pessoas somos? Como é que se explica, por exemplo, que membros de exército (deviam servir e proteger a pátria) engravidam pessoas indefesas mental e fisicamente?

O pior, contudo, nem é votar ao abandono pessoas que precisam do cuidado de todos nós. O pior é a nossa indiferença. O nosso descaso e desprezo por uma dor que, apesar de alheia, devia ser partilhada por todos nós.

Uma sociedade não é justa quando apenas nós progredimos. Não é justa quando os nossos filhos têm escola. Não é justa quando a alimentação deixa de ser problema para o nosso círculo de amizades e família. Uma sociedade é justa quando sentimos a dor do próximo e partilhamos o pouco que temos entre todos.

Devíamos visitar mais vezes os hospitais deste país e testemunhar o sofrimento das pessoas. Testemunhar o zénite da dor de quem nada fez. Carregar as crianças abandonadas no leito de uma cama de hospital por um pai que afirma que só faz filhos sadios. Por uma mãe que foge de um filho deficiente para proteger um casamento.

A decência, há muito, foi estrangulada e a história de vida destas crianças mostra que o mesmo aconteceu com os valores da família, o afecto e o amor. O infantário da Obra Dom Orione é o único lugar onde o amor foi possível para estas crianças.

Aqui pelo menos estão protegidas da sociedade. Esse desprezo, o preconceito e o abandono a que foram votadas estas crianças é uma espécie de espelho posto à frente da sociedade. O que esse espelho reflecte devia corar-nos de vergonha. Os animais são dignos ao nosso lado…

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