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O negócio de sucatas

O negócio de sucatas

Durante 15 anos a trabalhar como mecânico, Gerente Naiene viu, de um dia para o outro, a sua vida desmoronar, pois a empresa para a qual trabalhava declarou falência. Mas não se deixou abater e, na lógica segundo a qual “por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera”, decidiu abraçar o negócio de sucatas e produção de barras de pesca. Hoje, emprega 12 pessoas e prospera como nunca imaginou…

Aos 49 anos de idade, Gerente Alfredo Naiene, natural de Inhambane, pode-se considerar um (bom) exemplode sucesso. Mas a sua vida nem sempre foi (é) um mar de rosas. Desde cedo aprendeu a ganhar a vida para ajudar no rendimento diário da sua família.

Casado, pai de oito filhos e residente no município da Matola, Naiene passou a sua infância na cidade da Beira. Interrompeu os estudos (não foi para além da 8ª classe) pouco depois de o seu pai perder a vida. Hoje, tem uma história para contar.

Em 2002, optou por trabalhar por conta própria, extraindo o chumbo das baterias, fundir e transformá-lo em barras que servem para conceder peso às redes de pesca por entre as águas do mar. Ao mesmo tempo que começa a produzir barras, abre uma pequena oficina vocacionada à compra de sucatas para revender a grosso.

No processo de produção das barras de pesca, ele teve de arrastar quase todos os seus filhos. “Primeiramente, trabalhei com o meu filho mais velho na fundição do chumbo. Enquanto ele retirava o chumbo fundido do forno, eu preparava o molde das barras, um acto muito rápido, poisuma ligeira demora da colocação do chumbo no molde pode estragar tudo, uma vez que o chumbo já derretido leva poucossegundos a secar”, afirma.

Carregar um peso de 40 quilos nos ombros

No início da sua actividade empreendedora, Gerente Naiene, porque tinha pouca experiência, fazia por dia cerca de 100 barras, mas o seu negócio não tinha muito mercado, o que o obrigava a procurar clientes.

“Carregava nos ombros 40 barras, sendo 20 para cada lado. Apanhava um transporte para o bairro da Macaneta, uma zona onde há muitos pescadores, às vezes tinha de apanhar o ferryboat para Ka Tembe para onde afluem muitos pescadores”, conta e acrescenta que nestas duas zonas havia proprietários de barcos de pesca que encomendavam as barras.

Além disso, deixava as barras com um amigo de confiança, que era proprietário de um barco de pesca, que se encarregava de vender os seus produtos e nos fins-de-semana ia buscar o dinheiro, retirando uma parte para o seu agente.

Se no princípio Gerente, movido pela inexperiência, produzia cerca de 100 barras por dia e levava muito tempo para a sua comercialização, hoje não se pode dizer o mesmo: produz por dia 250 barras de pesca e quase todas são compradas num só dia. “Até posso fazer o dobro disso, basta que eu tenha chumbo para o efeito”, diz.

No processo de produção das barras, estão envolvidos quatro pessoas ele e um dos filhos mais novos trabalham sob altas temperaturas na fundição do chumbo e outras duas endireitam e arrumam.

“Antigamente, trabalhava no processo de fundição do chumbo com o meu filho mais velho, mas porque ele tem de ir à escola já não podemos trabalhar juntos. Para não parar com a actividade ensinei o mais novo a fazer o trabalho, ele colabora comigo já há cinco anos, enquanto prepara o molde das barras, euretiro o chumbo do forno”, conta para depois acrescentar que os seus filhos sempre revelaram talento nesta actividade.

O chumbo e o negócio das baterias

Aprodução das barras de pesca depende necessária e intrinsecamente do chumbo e uma das fontes desta matéria-prima são as baterias. Para garantir que haja chumbo, Gerente Naiene compra baterias já usadas ou estragadas.

As baterias são negociadas mediante os quilogramas que têm. Paga 17 meticais por cada quilograma, sendo que a mesma quantidade é revendida por 18. No entanto, existem pessoas que compram a um preço relativamente inferior. “O preço de mercado de um quilograma de bateria ronda os 14 ou 15 meticais. Mesmo reconhecendo esta realidade, pago um pouco mais de forma propositada, pois assim consigo angariar mais clientes, aliás, os vendedores vão para onde são bem pagos”, afirma.

O fabricante das barras de pesca assegura que nas baterias só precisa do chumbo e para tê-lo tem de parti-las e retirar o borne (parte exterior da bateria onde se fixam os fios para estabelecer a corrente). Depois de remover o que lhe importa revende-as a uma empresa indiana algures na Matola.

“O negócio das baterias trouxe- me muitos ganhos na vida. Graças à actividade construí a minha casa e comprei um camião, que serve para transportar as sucatas do estaleiro para posterior revenda noutras sucateiras”, afirma. Por dia, em média, consegue comprar cerca de 20 baterias, sendo que algumas os vendedores levam-nas ao estaleiro e outras são trazidas pelos seus trabalhadores de tchovas (carrinhas de mão) em punho.

As sucatas

São seis jovens que diariamente fazem o trabalho de recolha ou compra de sucatas, dois dos quais andam sempre juntos e os restantes individualmente. Gerente diz que por dia entrega mil meticais aos primeiros dois jovens e 700 meticais a cada um dos quatro. Feitas as contas, este empreendedor desembolsa 3.800 meticais diários.

“Eles trazem muitas sucatas no fim do dia e recebem diariamente consoante a sua produtividade. Se, por exemplo, eu der ao trabalhador 700 meticais e com este montante ele conseguir comprar sucatas que tenham um peso correspondente a três mil meticais, ele fica com a diferença, neste caso os 2.300”, diz.

Praticamente, Gerente não tem nenhum ganho neste trabalho, no entanto, dá espaço para estimular estes jovens que diariamente, por baixo de um sol abrasador, recolhem e compram as sucatas andando pela cidade.

Ele compra quase todo o tipo de sucatas, começando pelo ferro e alumínio, passando pelo chumbo até o bronze. Os preços são marcados mediante o tipo de sucatas.

“O facto de eu ser o único comprador de sucatas aqui no bairro Acordos de Lusaka e praticar bons preços de compra, faz com que quase todos os que tenham sucatas venham vender aqui”, assegura.

“Na verdade, o negócio das sucatas é complementar ao das barras e não me rende quase nada. Apostei mais no das barras de pesca aliado ao das baterias, estes dois negócios é que garantem os meus ganhos e sucessos”, garante.

Pequeno empregador

Gerente Alfredo Naiene tem 12 trabalhadores sob a sua responsabilidade, seis dos quais afectos à recolha ou compra de sucatas nas ruas ou residências e que são pagos por dia de trabalho, outros seis recebem mensalmente. Destes, duas são mulheres, que fazem trabalhos de limpeza no estaleiro e confeccionam as refeições para os trabalhadores.

Sem revelar o montante que desembolsa mensalmente para o pagamento dos salários, Gerente fez saber que as remunerações nunca falham, o que pode acontecer é algumas vezes eles receberem dois ou três dias depois.

Estes jovens trabalham de segunda a sábado, nos dias de chuva quase que não há trabalho, uma vez que o estaleiro não tem cobertura, estando expostos aos caprichos da natureza.

“Também quero apostar nos produtos alimentares”

Gerente não se conforma com aquilo que faz actualmente. “Quero abrir um armazém de venda de produtos alimentares a grosso, esta é uma forma de ajudar a comunidade e alguns comerciantes que para comprar produtos alimentares a grosso têm de percorrer quilómetros a fio”, diz.

Ele já dispõe de produtos armazenados, faltando alguns para poder arrancar com o negócio. Constituem o primeiro lote de produtos 100 caixas de sabão, 70 de bolachas, 25 de óleo vegetal, 60 sacos de arroz e 10 caixas de sabonete. “Se tudo correr bem, até próximo mês entrará em funcionamento o meu armazém. O que está a paralisar a materialização deste projecto que constitui um dos meus sonhos é a falta de dinheiro”, acrescenta.

Gerente afirma ainda que precisa de 300 mil meticais para comprar outro lote de produtos diversificados e logo de seguida abrir o armazém. “Eu até podia recorrer a um empréstimo bancário, mas não quero porque os juros são altos e isso pode prejudicar o meu negócio, cheguei a este nível sem nunca ter feito qualquer empréstimo bancário para a materialização dos meus negócios”, conta.

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