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O lado B de Amy Winehouse

Drogas, agressão à pele em forma de enfeite, e perda da auto-imagem. Os fãs identificavam-se com o seu comportamento, mas não notaram a gravidade da sua doença psiquiátrica.

Não houve glamour na vida e muito menos na morte de Amy Winehouse. Houve doença, uma intrincada enfermidade psiquiátrica denominada Transtorno da Personalidade Borderline – as suas portadoras (predomina em mulheres na proporção de género de três para um entre a população mundial adulta) são invadidas constantemente por avassaladores sentimentos imaginários de abandono e sofrem terrível desmoronamento do ego, desintegração da identidade e da auto-imagem.

São impulsivas, mantêm as suas relações interpessoais como um elástico que se estica ao máximo, as suas emoções e humor são fios descascados em curto-circuito.

Sentem-se esburacadas e autolesionam a pele para aplacar a dor da alma, sempre encharcada pela sensação, quase nunca real, de perda de pessoas que lhes são queridas. Assim, nesse inferno psíquico, viveu Amy Winehouse, falecida em Londres no sábado, dia 23, e cremada alguns dias mais tarde segundo os preceitos religiosos judaicos.

O funeral ocorreu sem que se soubesse com precisão a causa da morte, e isso só virá a público em algumas semanas, assim que a médica legista Suzanne Greenaway concluir os exames toxico-lógicos das vísceras retiradas do cadáver da cantora.

Seja qual for a causa, no entanto, um facto está dado: mais do que simplesmente morrer, Amy descansou um corpo maltratado, um cérebro sem sensibilidade e um músculo cardíaco esmagado pelo uso ininterrupto, abusivo e nocivo de vodca e coquetéis de outras drogas que chegaram a cruzar cocaína, heroína, anfetaminas, ecstasy e até quetamina (anestésico de cavalo).

Noutras palavras, ainda que a causa da morte não revele overdose, a sua precoce partida aos 27 anos foi acelerada pelo Transtorno de Abuso de Substâncias como um transatlântico que se dirige loucamente para espatifá-lo contra um icebergue.

O Transtorno de Abuso de Substâncias é, digamos assim, uma das franjas visíveis, concretas e palpáveis do Transtorno da Personalidade Borderline, e também uma das suas marcantes características.

Essa expressão inglesa significa fronteira ou fronteiriço e foi utilizada pela primeira vez para determinar um tipo específico de distúrbio patológico da personalidade no final da década de 1960 pelo pesquisador Otto Kernberg – nos primórdios da psicanálise ela servia para designar a fronteira entre a neurose e a psicose, serventia totalmente desconsiderada pela psiquiatria moderna, que cravou um diagnóstico próprio da doença.

A rigor, ser Amy Winehouse não é para a mulher que quer, é para a mulher que pode. Isso vale para a sua fenomenal voz de branca a cantar como uma diva negra do soul, mas esqueçamos a voz e continuemos concentrados no seu comportamento. Ou seja, para ser a turbulenta Amy há-de trazer consigo “pesadas ferramentas” biológicas, psicológicas e ambientais para desenvolver tal tipo de personalidade.

É por isso que se diz, aqui, que não é para quem quer, mas, tristemente, para quem pode – e, creiam, a mulher que possui tais ferramentas agradeceria à ciência ou a Deus se com elas pudesse nunca ter entrado em contacto, assim como Amy, aos berros e na impulsividade, ou aos prantos e na depressão, muitas vezes implorava querer “ser trocada por outra”.

No campo psicobiológico, aquilo que se chamou de “ferramenta” pode ser traduzido tecnicamente pelo funcionamento descompassado no cérebro do neuro-transmissor serotonina. Tentativas recorrentes de suicídio são traços do transtorno e estudos recentes constataram concentrações mínimas do ácido 5-hidro- -xiindolacético (5-HIAA, metabólito da serotonina) em pessoas deprimidas que haviam tentado o suicídio. No campo ambiental, pesa na infância a negligência ou a desatenção dos pais, abusos físicos, emocionais ou sexuais da criança.

Pois bem, tentativas de suicídio – praticamente crónicas – não faltaram na vida da cantora ao utilizar drogas e cruzar vodca (a sua dependência química prevalente) com medicamentos (cerca de 6% das borderlines que tentam o suicídio conseguem consumá-lo, aproximadamente 60% de mulheres em ambientes institucionais psiquiátricos ou prisionais são borderlines). Quanto ao ambiente, sabe-se que o seu pai, Mitch, disputava desde cedo com ela a atenção da mãe, Janis.

Na idade adulta, o que se viu foi novamente o pai taxista a tentar apanhar boleia na fama da filha a ponto de se lançar como cantor, atitude que arrastou Amy para uma profunda depressão – tal comportamento de Mitch voltou a ser criticado recentemente pela imprensa inglesa e americana.

Falou-se antes da constante oscilação e perda da auto- -imagem e identidade como fortes componentes do Transtorno da Personalidade Borderline, e nesse buraco da identidade é que entram, por exemplo, a droga e o “lance da pele” (é como se faltasse uma pele protectora do ego), que vai da dermatotilexomania (provocar escoriações no próprio corpo) ao prazer ou auto-agressão em cobrir-se de tatuagens.

Ao não ter fixada uma identidade em si nem um ego consistente, Amy, até por viver sobre palcos e sob reflectores, fez da sua pseudo-imagem de adicta a sua própria identidade enquanto pessoa – ou, na inteligente e sensível expressão do professor de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Ronaldo Laranjeira, para a cantora “a doença fazia parte de uma liberdade poética”.

Os seus ias incondicionais, o público em geral e a indústria da música, por sua vez, “compravam” e “vendiam” essa identidade, era cada vez mais essa a identidade que esperavam de Amy e, perversamente, de forma involuntária ou não, reforçavam-na. No meio de tudo isso e a todos, ela era idealizada e idolatrada quando parava em pé no palco, desvalorizada e ridicularizada quando se exibia cambaia, como aconteceu ainda este ano no seu último show, na Sérvia. Por incrível que pareça, poucos viram que ali não havia nada além de doença.

O público é sempre passional e volúvel. Quanto aos fãs, com certeza é com carinho e boa intenção, mas também com grande dose de ignorância sobre saúde mental, que levam garrafas de vodca ao santuário que se montou diante da casa da cantora no bairro boémio londrino de Camden Town – se Amy só se identificava com a Amy alcoólica, os seus fãs, num processo quase psicoterapêutico de transferência, também se identificam com essa Amy. Para a indústria do som, cifras nos olhos, o que não é lucro não está no mundo, e já festeja o facto de que o álbum “Back to Black”, de 2006, saltou para o primeiro posto na lista de mais vendidos nos EUA assim que a morte da artista foi anunciada.

Nos buracos do cenário borderline, com simbólicos pregos emocionais por todos os cantos, a portadora do transtorno vai pondo tranqueira atrás de tranqueira na busca desesperada de preencher o seu vazio e aliviar o “torno psíquico” que não cessa de apertar.

É comum encontrar-se mulheres presas que são borderlines e deveriam estar em tratamento e não encarceradas – acabam presidiárias porque, na ânsia de se “colarem” ao outro para ter uma identidade psíquica, muitas vezes “colam-se” em tranqueiras traficanes.

Elas anónimas, Amy Winehouse famosa, a história é a mesma. A cantora, no auge de uma das suas crises, casou-se em 2007 com o produtor e traficante Blake Fielder-Civil. O relacionamento durou dois anos e na maior parte dele Blake passou na cadeia – e lá continua por roubo e posse de arma que não era verdadeira, era de brinquedo (ele não foi autorizado a sair da prisão para ir ao funeral).

Agora, funeral feito, o que não faltam são vozes a dizer que Amy errou, não se tratou medicamente, não aproveitou as internações: “tentaram mandar-me para reabilitação/ eu disse não, não, não/ele tentou mandar-me para reabilitação/ mas eu não vou, vou, vou”, diz uma das suas famosas canções, chamada “Rehab”. Os que agora a criticam, e certamente entre eles há os que depositam garrafas de vodca diante da sua casa vazia, precisam de saber que Amy era, na essência, enferma.

Em “Beat The Point To Death”, ela cantou: “além disso estou doente/de ter de encontrar alguma paz”. Amy hoje tem paz, o “torno” borderline afrouxou-se, a montanha-russa borderline cessou de desabar, mas é a inútil paz dos mortos, não a fecunda paz dos vivos. De facto, não houve nenhum glamour na sua vida e muito menos na sua morte.

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