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“Sou o rei do Rock moçambicano!”

“Sou o rei do Rock moçambicano!”

Rui Michel é um dos poucos – senão o único – jovens artistas que nos faz mudar a nossa percepção sobre a música. Há quase dez anos de militância pela cultura Rock, conhece perfeitamente os temperamentos da fama. Até porque, ao longo da sua carreira, já experimentou “o pão que o diabo amassou”. Mas depois veio a bonança, uma espécie de consolo: em 2010, foi agraciado com os prémios “Artista mais Popular” e “Melhor Artista Rock Nacional”.

A menos de um ano de publicar o seu primeiro trabalho discográfico – o que acontecerá em 2012 –, Rui Michel predispõe- -se a apoiar todos os discípulos do Rock. Fá-lo, incondicionalmente, até porque não lhe faltam pretextos. “Não posso dar um mau exemplo”. Afinal, “depois dos Rockfeller assumo a paternidade do Rock. Sou o rei do Rock moçambicano”, diz.

Em finais da década de ´90, à guisa de divertimento, o “puto dos cabelos loiros” fundaraos “Raros e Únicos”, uma banda musical por meio da qual,na companhia da tribo Mondlane –Orlique Fernando (guitarra), Soares (teclado) e Miranda (bateria) – deu os primeiros passos do que seria mais tarde um eterno vício: “tocar e cantar Rock”.

“Começámos a fazer concertos ao vivo. Na altura, fazíamos um Rock suave. Ao passo que a maioria das bandas de Rock moçambicanos tocava um género muito agressivo. Por isso, éramos muito contestados”.

Algum tempo depois, por diversos motivos, o grupo desfez-se. Em 2003, após a morte da sua mãe (Olga Maria Faustino), Rui Michel sentiu-se solitário. “Consolei-me com a música”, conta o artista remetendo- nos aos germes da eclosão dos Unlocked Mind, o seu segundo grupo musical que, além de si e Orlique Fernando Mondlane, o mais velho entre os irmãos, mesclou outros fazedores do “Heavy Metal” e “Hard Rock”

“Tivemos de aprender este tipo de Rock. Introduzimo-nos nos palcos, para demonstrar (entre os grupos) que tínhamos sabedoria para tocar qualquer estilo de Rock”, conta.

E mais: “E provámos, por via disso, que tocávamos o Rock suave não só por incompetência mas, acima de tudo, por gosto. Nesta época, com a excepção dos Rockfeller, os Unlocked Mind eram a maior banda Rock no país”.

Infelizmente, “em Moçambique, por mais que o artista seja oriundo de uma nobre família, nunca é fácil viver da música. A marginalização começa no lar. Vivemos numa sociedade cheia de conflitos”, lamenta. Como tal, e porque a música é algo que precisa de muito fervor, ao longo do tempo, alguns integrantes da banda começaram a dispersar. Estava “decretada” a crise generalizada dos Unlocked Mind.

O Fama Show frustrou-me

O autor do sucesso“I’msorry” conta que muito antes de, em 2005, intérpretes como Nelson Nhachungue (AceNells) e Inês Pereira participarem do Fama Show – programa de descoberta e divulgação de talentos na música – já interagiam sobre a música na escola. Uma das pessoas que fazia parte do grupo é o músico moçambicano Baka que mais tarde se tornou produtor de Michel.

Inclusive, o nosso interlocutor militava na área há muitos anos em relação aos dois primeiros. Sucede, porém, que estes ganharam espaço e aceitação na arte de cantar. Então, “descobri que algo estava errado em mim”, comenta.

Foi por essa razão que (em 2006) “decidi entrar no projecto Fama Show – que me foi um grande impulso – apesar de não ter ficado muito tempo. Penso que, do jeito queacreditei e como as coisas aconteceram, o Fama Show não me foi benévolo, em termos de longevidade. Isso frustrou-me porque eu tinha qualidades para permanecer na academia. Precisava muito de aprender e estava a gostar dos ensinamentos”.

De qualquer modo, “penso que aprendi muito. Aprender era um sonho,uma necessidade. Por isso, penso que não se devia sair do Fama Show”.

Porque nem todos os males vêm por infortúnio, logo depois de abandonar o reality show ingressou nas fileiras da Top Lable a convite de Paulo Manhique, o mentor da iniciativa. De seguida, conheceu a Zema, o manager da Gabriela, com quem criou a música “brokenheart”, um verdadeiro e eterno conto de fadas, laureado como“Melhor Rock” nos Mozambique Music Awards -2010.

De frustrante ao antídoto

Além do Rock, Óperas e música clássica, antes de ingressar ao Fama Show Rui Michel não escutava outros géneros musicais. Tinha uma espécie de fobia. Inclusive para a música tradicional moçambicana. “Recusava-me a escutar. Era egoísta em relação à música”.

No entanto, já na academia, onde residia uma diversidade de artistas e estilos musicais, e sobretudo devido à interacção existente e a necessidade de troca de experiência com os colegas, reeducou o seu ouvido. Ou seja, “aprendi a ouvir a música moçambicana. De modo que agora sou uma pessoa muito aberta”. É caso para afirmar que da frustração criou-se um antídoto.

Desorientado, premiado e vaiado!

Não restam dúvidas de que o jovem músico conhece as idiossincrasias da luta pela fama, bem como pela estabilidade nela.

Em relação aos prémios dos MMA, que até certo ponto viriam a colocar o artista nos píncaros da carreira, Michel revela que “recebi os prémios, ainda miúdo” e, por conseguinte, “muito desorientado. E de há um ano para cá colhi muita experiência, muita maturidade. Colhi experiências de artistas conceituados, como, por exemplo, Moreira Chonguiça, Stewart Sukuma, Bang e Zema. E conto com o apoio financeiro de Rufino do Carmo Silva que é uma pessoa que me tem apoiado bastante”.

Paralelamente às insígnias do MMA, Rui Michel conta que recebeu de algumas personalidades que constituíam a plateia, uma série de vaias. “Foi por essa razão que eu disse a todo o mundo, perante a televisão, quenão sou nada. Sou muito pequeno para receber estes prémios – porque fui vaiado. Penso que queriam que tivesse ganho um outro artista com grande poder financeiro. Só os tais artistas já são populares. E o público – querendo elevar um outro artista – escolheu o Rui Michel”.

Ora, “isso é muito mau porque mesmo eu não esperava ganhar os prémios e tão-pouco o público. Então, que batam palmas. Que finjam! Mas não conseguiram fingir. Vi algumas figuras importantes, com longos anos de carreira na televisão a apupar-me. Não vou dizer que perdi o respeito, mas deixei de admirá-las. Já não me encantam mais”.

É por essas razões que o “Puto Rock” lamenta que os prémios do MMA só lhe tenham valido lágrimas. Muitas lágrimas! Além do prémio de “Melhor Artista de Rock”, “ganhei logo a seguir o de ‘Artista mais Popular’ do país. Mas alguns artistas não tiveram a abertura de reconhecer que eu tinha mérito porque trabalho, tenho talento e personalidade e por isso mereci. Não! Muito pelo contrário, contestaram dizendo que é porque estava a concorrer sozinho, entre outras vaias”.

Como tal, “eu gostaria de concorrer este ano e pedir ao público que me elevasse. Porque só o público pode fazer isso. Recordo-me de que concorri com artistas muito populares e se ganhei foi devido ao voto popular”.

Prémios do MMA são ocos

Questionámos ao músico sobre o que significava para a vida (carreira) artísticados congratulados pelos Prémios dos Mozambique Music Awards, ao que respondeu:

“Penso que o MMA não se pode equiparar a nenhum outro tipo de prémios. Primeiro, porque nos outros certames musicais os laureados têm tido um cachet, uma congratulação – o que no MMA não existe. Estamos muito atrasados em relação a isso”. Por isso, “penso que mesmo que não se desse algum valor monetário aos premiados, a organização devia (pelo menos) financiar a gravação de um trabalho discográfico do cantor. Sobretudo porque este programa possui um sponsor”.

Logo, o patrocinadordeviaresponsabilizar- se em catapultar, de certa forma, a carreira do artista, através por exemplo, de shows, viagens para workshops no exterior. Afinal, “o artista ganhou algo – o que faz com que tenha que haver alguma diferença em relação aos outros. Na verdade, nós, os artistas não estamos a pedir dinheiro, mas que a máquina da indústria musical funcione”, realça.

É este o conjunto de argumentos que fazer com que, cá entre nós, os prémios do MMA não ultrapassem o valor simbólico. Ou seja, são ocos!

Punir o cowboy

“Fiquei deprimido. Passei três dias sem sair de casa. Sem tomar banho. Sem me alimentar direito. Até que alguns amigos e fãs vieram consolar-me, convidando- me para sair”, conta o artista em alusão aos actos de exposição da sua vida privada perpetrados pelo animador do programa Atracções, Alfredo Jossias, veiculados na Televisão Miramar.

Além da depressão, Michel salienta que o susto foi grande porque “nunca se sabe como é que as pessoas reagem a estas coisas”. Mas, “recebi muitas vaias à parte e também muito apoio por parte dos que queriam que eu continuasse”.

De uma ou de outra forma,“penso que as pessoas que não queriam que eu continuasse (na música) naquela altura aproveitaram-se da situação”. Felizmente, “descobriram que também sou um ser humano e não um boneco. Perceberam que, para mim, cantar é um sonho, uma profissão, um dom, algo que Deus me deu!”

De uma ou de outra forma, Rui Michel sente-se feliz com a carreira que persegue. Sobretudo, porque não acreditava que muita coisa boa podia suceder em tão curto tempo.

“Sentia-me muito marginalizado devido à figura que eu levo – e que seria difícil para que as pessoas me aceitassem como sou – massou um artista negro africano, um cowboy. É preciso frisar isso. E é preciso agradecer às pessoas que me têm apoiado”, afirma finalizando.

Rui Michel Faustino Chissano nasceu em Maputo, a 13 de Maio de 1982. Fundou e dirigiu ao longo da carreiraas bandas “Raros e Únicos” (mais colegial) e Unlocked Mind. Presentemente a lidera os “The- Answer” desde o ano passado.

Para além de si, o agrupamento que se propõe como meta hastear a cultura Rock nacional respondendo à demando do estilo por meio de composições profundas, integra mais cinco elementos, nomeadamente Magaia (bateria), Pipas (teclado), Tonhão (guitarra rítmica), Wilson Chambruca (guitarra solo) e Tozé no baixo.

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