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Escrutínio Escolar d´@Verdade: O guindza

De olhos acesos, aliás, em chamas de Double-Punch, o whisky avulso que lhe queimou não só os olhos que se viam em chamas, mas também a vergonha de agir com dignidade, o guindza, pescador de celulares e carteiras nos bolsos dos distraídos, ladeava. Parecia um leopardo à solta. Exibia uma ânsia artificial entre gente deveras ansiosa por chegar aos postos de trabalho para mais um dia laboral.

– Eish, transporte é um problema sério pá! – comentava consigo próprio, fingindo atraso. Olhava, de quando em vez, para um relógio que lhe decorava o pulso cicatrizado. Um relógio que anunciava o seu desuso com os ponteiros em pausa. Disfarçava preocupação. Dava voltas à toa e enchia a paragem dos escassos transportes.

Não havia coerência entre o que falava e o que gesticulava. Na fala, à semelhança da massa trabalhadora e estudante alí concentrada, o guindza queria conseguir autocarro. Já nos gestos estudava os bolsos gordos de carteiras e celulares de gente que, preocupada em lamber as botas o mais cedo possível, menor atenção dava aos seus haveres.

Os olhos acesos do guindza iluminavam fielmente a bolsa da mamana Dindirika, por detrás desta alcunha está a gordura que lhe fazia andar aos rastos como um hipopótamo em rios secos. Visivelmente distraída, a titia Dindirika não via a hora de assinar o livro do ponto na instituição pública onde enchia a bolsa mais de gorjetas que de salário. Ah sim, na função pública não há salário que engorda ninguém, mas há gorgetas que chegam a construir torres.

– Eish, transporte é um problema pá! Nem um chapa? – dizia o guindza com os olhos depositadas na bolsa daquela funcionária pública. Bolsa gorda como a dona.

Toda a gente lançou os olhos em direcção à estrada donde se via surgir um transporte semicolectivo. Pararam todos em posições que se confundiam com as de um exército prestes a atacar um adversário surpreendente. Tanta a gente que não caberia no comboio de cem vagões queria ser passageiro de um autocarro de 16 lugares.

– Museooo – disse o cobrador, relaxado, com a garantia de encher o carro sem precisar de explodir a garganta como lhe acontece nas horas paradas em que só consegue meia dúzia de passageiros em meia dúzia de voltas de Laulane para Museu e vice-versa. Afastou-se da porta do mini-bus com a alegria de quem vê tanto dinheiro que não cabe na sua sacola.

Na azáfama de entrar no mini-bus que, infelizmente, não poderia levar todos, titia Dindirika sentiu na gordura a massagem agressiva e aranhões de outros militares da paragem, mas não se apercebia da mão do guindza que, com muito carinho e zelo, lhe despia a bolsa. Trabalhadores e estudantes apertavam-se e acotovelavam-se na porta do mini-bus que os ia engolindo aos bocados até o cobrador lhes dar empurrões de acabamento.

– Txhovani, txhovani – dizia o cobrador ensardinhando-os – titia gorda, se não cabe desce – dizia ele à mamana Dindirika cuja luta lhe permitiu ganhar espaço, mas sem recinto, no transporte – arranja-te ou desce – ameaçava o cobrador.

Titia Dindirika descobriu-se desprovida de sua bolsa quando ajeitava as vestes desajeitadas na luta pelo difícil lugar no carro. O carro arrancou e aumentava a velocidade em cada grito desatendido da vítima do guindza: – minha bolsa, minha bolsa… – ninguém se importava, pois esses gritos são pão de cada dia.

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