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O guerrilheiro desconhecido mais sanguinário de África

O guerrilheiro desconhecido mais sanguinário de África

A “última reencarnação de Jesus Cristo na Terra”. Com tão magno epíteto, ninguém duvida que o caso Joseph Kony – o líder do grupo guerrilheiro ugandês Exército de Resistência do Senhor (LRA, sigla em inglês) – se situa entre a loucura e o absurdo.

Nas suas duas décadas de luta por “um Uganda governado sob o signo dos Dez Mandamentos”, o LRA já foi responsável pela morte de 10 mil civis na região dos Grandes Lagos. Um confl ito silencioso para o qual a administração norte-americana anunciou na semana passada um plano – composto por quatro pontos – para destronar o seu líder. Entre eles, o incremento da ajuda humanitária à região. Este plano vem, sem dúvida, demasiado tarde.

De acordo com a organização de direitos humanos Human Rights Watch, nos últimos 18 meses, as forças de Kony iniciaram uma nova campanha de terror na República Centro Africana e no Congo, assassinando 255 civis e sequestrando outros 700 – um terço deles crianças – visando incorporá-los nas suas fi leiras ou transformando-os em escravos sexuais.

Também a organização “Enough” afi rma que, desde Dezembro de 2008, pelo menos 2500 pessoas foram assassinadas pelo LRA em incursões realizadas principalmente na região congolesa de Bas Uele.

O Arcebispo de Gulu mediador

Estes números são perfeitamente conhecidos por John Baptist Odama, arcebispo de Gulu e mediador do confl ito entre o grupo guerrilheiro e os governos locais. “Desde que se iniciaram a conversações de Juba – diálogo aberto em 2006 entre o Governo ugandês e o LRA para pôr fi m à violência o confl ito estabilizou na nossa região.

Presentemente, o nomadismo é a senha de identidade dos guerrilheiros”, afi rma o arcebispo de Gulu, citado pelo jornal espanhol ABC. Para este responsável, os actuais confrontos constituem “uma das piores tragédias humanas da história recente”, uma vez que o confl ito já deslocou mais de um milhão de pessoas e sequestrou cerca de 20 mil crianças.

Perante tais números, não deixa de ser curioso o facto de o responsável religioso definir o perfil psicológico de Kony como “uma pessoa normal”. “Durante os nossos encontros comportou-se sempre de uma forma correcta. Quando lhe fazíamos perguntas respondia com cortesia. É um simples ser humano como qualquer outro. Talvez seja este um dos seus maiores dramas”, refere o arcebispo.

Não é em vão, é precisamente o farol de misticismo que envolve a figura de Kony, a principal arma utilizada pelo LRA para expandir o seu legado de terror. Em duas décadas, o líder dos guerrilheiros concedeu apenas duas entrevistas, preferindo que sejam as suas vítimas – às quais costuma cortas as orelhas e os lábios – a servirem de improvisados porta-vozes.

Uma religiosa oferece apoio psicológico

A irmã Rosemary conhece estes crimes em primeira mão. Desde 2002 que esta religiosa oferece no centro de Kitgum, no Uganda, apoio psicológico a milhares de mulheres que conseguiram fugir do confl ito. “O nosso centro de Santa Mónica acolhe actualmente 220 mulheres – algumas delas com cerca de 15 anos em tratamento.

A grande maioria está aqui depois de sofrer atrozes violações e muitas estão grávidas. Para esta religiosa, o maior problema é a “rejeição que sofrem quando voltam às comunidades de origem.” E acrescenta: “Durante o tempo em que estiveram na posse dos guerrilheiros, foram todas despojadas de qualquer tipo de humanidade ao serem vítimas de brutais abusos.

O trabalho mais difícil é conseguir que voltem a reconhecer-se e a valorizarse como pessoas.” Em 2005, o Tribunal Penal Internacional (TPI) sentenciou uma ordem de prisão contra o líder do LRA por crimes contra a humanidade. Todavia, a sua captura está longe de se vislumbrar. Uns meses após a ordem proferida por esta instância de justiça internacional, uma operação sob os auspícios das Nações Unidas, na qual seis membros das forças especiais guatemaltecas foram enviadas ao Parque Nacional de Garamba para assassinar Kony, fracassou. Nenhum dos seis sobreviveu.

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