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O futuro perdido no horizonte

Aquela era uma manha fria, tão fria como algumas manhãs de Setembro. Como todas as manhãs, o alvoroço substituía a quietude da noite, fazendo ouvir o acordar da cidade e o prenúncio de mais uma jornada. Como a confirmar isto um estridente e intrépido buzinar anunciava o rebuliço do tráfego e de gente procurando oportunidade na Grande Maputo.

Joaquim e Afonso eram dois jovens como muitos outros: os mesmos problemas, muitas esperanças, muito passado, algum presente e provavelmente nenhum futuro…

Enquanto se acotovelavam na enorme fila, buscando espaço no chapa, fazendo-se pela milésima vez à cidade onde trabalhavam um como empregado doméstico num dos bairros mais luxuosos da cidade, o outro lavava carros junto ao Maputo Shopping Center.

Joaquim, o mais cometido e ponderado, lançou o olhar triste aos inúmeros veículos que passavam pela única portagem que dividia as duas cidades vizinhas, Matola e Maputo.

E disse:

 

Meu irmão, julgo que nascemos destinados a vencer todos os percalços que a vida nos põe pelo caminho. Sabemos que da terra nascemos e a ela voltaremos, contudo também sabemos que dela extraímos o nosso sustento e a nossa riqueza, em suas vísceras arreigamos a nossa voraz sede de posse. Meu irmão, já tenho 25 anos completos mas não consigo sair da casa dos meus pais. Sempre que chego à cidade e vejo muitas coisas a acontecerem não sei quando elas serão minhas pelo menos a terra meu irmão, a terra que nos fora prometida em 75.

Afonso olhou o amigo com um misto de piedade e dor, rebuscou sobre o seu já gasto casaco um papel A4, prudentemente dobrado, e disse: Olha este casaco, tal como muitas outras coisas minhas foram-me doadas este, e apontou para o velho casaco já lambido pelo tempo, é das calamidades foi-me oferecido pelo Armando, aquele rapaz de dentes sobrepostos e amarelados que lava Mercedes Benz na Baixa.

O papel continuava pendurado entre os seus dedos agrestes, levantou- o até a dois palmos do nariz obtuso e proeminente do amigo dizendo: Isto é mais um pedido de terreno feito mais uma vez a já bastante tempo e que não tivera resposta. Afonso passou contínua suavemente seus dedos sobre o papel e pausadamente disse:

– Meu irmão, vemo-nos sempre neste chapa e todos os dias nos fazemos a cidade. Na minha pobre cabana choveu ontem e, o meu rádio parou no instante em que ouvia dizer que o Município de Maputo estava a dar terra, fiquei sem rádio e sem saber, parou justamente quando eu queria ouvir pormenores sobre o assunto. Hoje não vou lavar carros quero ir lá saber se poderei ter terra.

Joaquim lançou um olhar desafiante e disse: é provável que não consigas. O Armando diz que o dinheiro que ganhamos na Baixa não dá para comprar nem um pouco de material para fazermos a casa e o Muncípio cobra para termos essa terra.Só o Armando com a lavagem daqueles carros de luxo, que não nos deixa lavar, pode sonhar comprar um terreno.

Já ouviste dizer que terra não se vende, lamuriou Afonso. Quando será nossa a cidade? Quando terei os meus pés assentes sobre o soalho quente de uma casa de verdade?

Entreolharam-se uma vez mais e saíram do sonho, ao ouvirem a voz ensuredeceodra da verdade nua e crua gritando. Haviam chegado ao triste destino de sempre.

Mas uma incerteza pairava, os dois amigos pressipitaram-se para o pequeno ardina que gesticulava: – VERDADE, VERDADE GRATUITA, VERDADE PURA. Entreolharam-se na esperança de resgatar a notícia abruptamente interrompida pela chuva do dia anterior.

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