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O Carro Lunar

Há 40 anos, o primeiro automóvel transitava na Lua. O veículo para a próxima missão está a ser testado. Dê uma volta imaginária connosco.

Houston, temos um problema. Caramba, quantos pedregulhos há aqui na Lua. Entre eles, crateras espalham-se no terreno arenoso, do qual nenhum dos 4×4 aí da Terra conseguiria sair. De qualquer forma, tenho um carro com tracção 12×12. Ainda assim, a manopla de controlo não pára de rodar, pareço um cozinheiro a mexer uma sopa e não consigo acertar uma curva. Essa paisagem lunar é traiçoeira! Mesmo sendo uma simulação, as difi culdades são do outro mundo.

Houston, Texas, Centro Espacial Johnson, Galpão 9B. Aqui está estacionado o LER, Lunar Electric Rover. É o primeiro protótipo do carro lunar tripulado da agência espacial norte-americana, a NASA, com o qual os astronautas rodarão sobre a superfície do satélite terrestre em 2020 para tirar fotos, gravar vídeos e recolher amostras de minerais.

Para este tipo de missão é necessário ter o melhor carro do universo, pois lá em cima todos os outros fracassariam, sobre pedregulhos tão grandes como geladeiras e crateras com a profundidade de uma casa. A gravidade é seis vezes menor que a terrestre, e as temperaturas são extremas: variam entre -200° e +1500° C.

Temos hoje agradáveis 25° C, e Lucien Junkin, um dos técnicos da NASA e piloto de testes do LER, senta ao meu lado para explicar como é fácil dirigir este carro lunar. “Você aprende num dia, não se preocupe”, diz, enquanto pressiona alguns comandos num dos monitores touch screen que accionam o cockpit.

A minha manopla de controlo já está accionada – um dos dois joysticks instalados na lateral do assento do motorista, que podem ser encontrados com facilidade em lojas de informática. Empurro levemente para a frente e o meu carro lunar começa a rodar sobre todas as 12 rodas para fora do Galpão. Faço a curva para a direita, passo facilmente pelas carrinhas 4×4 estacionadas. Mas este é apenas o exemplo terrestre em asfalto plano. No fi nal da rua a Lua espera-me, na forma do campo de exercícios da NASA.

Não dá para comparar o LER com os carros lunares que os astronautas dirigiram na lua durante as missões Apollo 15 a 17, entre 1971 e 1972. O LER é muito mais seguro, confortável e resistente que seus antecessores. Doze motores que oferecem uma visão panorâmica perfeita. Sobre mim, apenas o computador, a minha conexão com a Terra. Atrás, uma câmara de marcha à ré. Sob os meus pés, bem armazenadas, baterias de ião-lítio.

Apesar do risco de apanhar a contramão na Lua ser nulo, coloco o cinto de segurança. Melhor assim, eléctricos, cada um com oito cavalos, impulsionam o LER. Para comparar: o automóvel da equipa do Apollo 15 possuía quatro motores de propulsão com 0,25 cv cada.

Para o embarque, a carroçaria desce quase até o solo e eu entro numa cabina hermeticamente vedada, na qual os astronautas na Lua podem trabalhar também de camiseta e bermuda. À direita na parede havia uma cama embutida. Uma segunda pode ser aberta, caso os tripulantes fiquem cansados.

Na parte de frente, há dois assentos de piloto na ampla cúpula de vidro pois pouco mais tarde vejo apenas o céu. Um céu azul com poucas nuvens, não aquele céu nocturno. Segurando com força as manoplas de controlo, escalo uma montanha de exercício cheia de pedaços de rochas.

Os seis pares de pneus seguem em todas as direcções – cada um consegue girar 360 graus. Todas as seis bases que levam aos pneus duplos possuem diferencial autoblocante e suspensões activas, com 66 centímetros de curso.

Sinto a Lua sob os pés como jamais havia sentido. Há 40 anos ouvia-se outra coisa. “É uma mistura de cavalo bravo com barco a remo num mar agitado”, comentou via rádio para a Terra o astronauta Jim Irvin, em 1971.

Hoje, posso afirmar que o LER é uma mistura de um caranguejo preguiçoso com um barco a motor de pouca potência num mar calmo. Ou coisa parecida.

No desenvolvimento do protótipo, a NASA fez uso das tecnologias existentes e contou com know-how da indústria automóvel: a GM, a Nissan e a Michelin participam. “Até a produção em série, o carro lunar ainda vai sofrer alterações, sobretudo no que diz respeito ao material”, afirma Rob Ambrose, chefe do projecto.

A carroçaria de aço será trocada por uma de fibra de carbono, e os pneus do veículo de teste por outros de borracha rígida sem ar, com raios flexíveis. O cronograma da NASA prevê que o segundo protótipo ficará pronto no primeiro trimestre de 2011 e poderá carregar a bandeira dos EUA (o que o meu carro de qualquer forma já carrega).

“Em 2018 estaremos prontos para partir”, diz Lucien Junkin. “Claro, se a crise fi nanceira não parar o projecto”, completa Ambrose, enquanto eu saio bem devagar de uma cratera. Por mais que eu insista, ninguém gosta de falar de valores na NASA.

Movo a manopla de controlo para a direita e saio da minha Lua de lado, num passo de siri (crustáceo do Brasil). Olá, Houston! Cheguei lentamente com o meu carro lunar. Estaciono, e então a porta com 30 metros de altura do galpão 9B fecha-se.

Fique bem, Lunar Electric Rover. Vejo-lhe em 11 anos. Na superfície da Lua!

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