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60 segundos com Judite de Jesus

60 segundos com Judite de Jesus

Judite de Jesus é a presidente de uma das associações mais respeitadas na província de Maputo, no que concerne ao acolhimento e tratamento de pessoas vulneráveis e vítimas de HIV/SIDA – Associação Hishikwane. O amor e a esperança de um futuro risonho, que consegue transmitir aos que já tinham recuado na luta pela vida, fazem de si uma verdadeira mulher de armas. Judite tem 45 anos, gosta de ouvir o músico Dopaz e diz-se completamente apaixonada pelo marido.

Quem é Judite dos Santos?

Sou uma mulher simples, como todas as outras. Professa alguma religião? Sou crente da religião católica.

Qua é a sua idade? E naturalidade?

Nasci em 1965 na cidade de Maputo, bairro Lhanguene, zona do Hospital José Macamo onde havia 28 casas.

Quais são os seus defeitos e virtudes?

O meu principal defeito é confiar muito nas pessoas, mesmo sem as conhecer. A minha qualidade é gostar de aprender e perdoar facilmente.

Porque acha que é defeito confiar nas pessoas?

Porque cada vez mais a experiência me diz que as pessoas não dão valor aos esforços alheios e não fazem por merecer a confiança também dos outros.

E como foi a sua infância?

Praticamente fui criada por padres vicentinos da Igreja católica. Tive 15 irmãos uterinos dos quais cinco morreram. O meu pai tinha 32 filhos.

É casada?

Sou. Pelo civil e pela Igreja.

Vive maritalmente?

Sim. Com Rui dos Santos Eduardo há 27 anos e temos nove filhos, dos quais cinco órfãos de pais vítimas da SIDA, que adoptámos.

E como é a vossa relação?

Estável. Mas, como qualquer casal, também temos tido as nossas desavenças.

As desavenças são frequentes?

Sim. Mas, nunca saí de casa durante os 27 anos que vivemos juntos.

Porquê?

Porque sei que as brigas entre marido e mulher servem para consertar os problemas do lar e fortalecer mais a relação.

Quando é que brigaram pela última vez?

Foi em Dezembro.

Qual foi o motivo?

Não posso dizer aqui. São brigas de marido e mulher. Mas, apesar de tudo, amamo-nos bastante. Quando eu não estou presente ele não come e vice-versa. Há vezes que me esqueço de que somos casados. Ele é o meu ídolo. Digamos que está apaixonada… Sim. Qual é o segredo para que relação dure há 27 anos? Saber perdoar e pedir perdão. Compreender o outro.

O que acha da juventude actual?

Acho que está enquadrada no seu próprio tempo. Um tempo moderno, cheio de inovações e cada vez mais informado. São jovens que têm a oportunidade de estudar. É difícil lidar com eles porque muitas vezes sabem tudo o que a pessoa quer dizer.

Acha-se bonita?

Digamos que sim. Mas gostaria muito de emagrecer. Já tentei fazer de tudo para reduzir uns 25 quilos, mas está difícil. Gostaria de diminuir a minha barriga. É o meu principal defeito físico.

O que faz nas horas livres?

Gosto de cozinhar, fazer compras e passear no campo. Também adoro festejar com os meus familiares. Quando estou com eles até parece que bebo. Fico descontraída.

Dança? Sim.

Quais são as musicas ou músicos que prefere ouvir?

Gosto da música de Marlene, Lorena Nhate e NStar. Gosto também de Dopaz, mas detesto o que ele faz.

O que é que não lhe agrada nos procedimentos de Dopaz?

Age de forma infantil e mete-se sempre em confusão.

A propósito, em poucas palavras, como é que surge a Associação Hishikwane?

Surge quando perdi os meus parentes directos, a minha filha, o meu genro e a minha neta vítimas da SIDA. Algum tempo depois, numa noite, a 500 metros de casa, a minha irmã foi sexualmente abusada e abandonada no local por oito indivíduos desconhecidos. No dia seguinte rastejou sem roupa até à sua morada onde foi recebida pelo próprio filho de seis anos. Dali foi levada ao hospital, onde se descobriu que contraiu o HIV, naquela violação. Dias depois faleceu.

Daí passou a dedicar-se aos seropositivos?

Sim. Foi através dessa maré sucessiva de acontecimentos tristes, que marcaram profundamente a minha vida e se fizeram sentir durante meses seguidos.

Como é que foram os primeiros passos da Associação?

Fui incentivando as pessoas a fazer o teste de HIV. Recorri ao hospital de Chamanculo, mas encontrei muitas difi culdades relacionadas com as demoras no atendimento. Procurei ajuda dos Médicos sem Fronteiras, que aceitaram e os testes passaram a ser feitos na minha própria residência, onde também funciona a sede da Hixikanwe, porque ainda não temos instalações próprias.

Até o momento quantos testes foram feitos e quais foram os resultados?

Até o ano passado, entre os mais de 1000 testes realizados, 580 resultaram positivos, incluindo 130 crianças em que a mais nova tinha 10 meses de vida.

Para terminar, quais são os seus sonhos e planos para o futuro?

O meu sonho é conhecer a França, país donde veio a ESSEOR organização que nos ajudou a dar os primeiros passos no acolhimento das crianças vulneráveis, ao construir uma casa para 50 crianças órfãs. Por causa dessa generosidade queria conhecer as origens e a gente ligada a ela.

Os meus planos são lutar para garantir uma vida feliz e sem sobressaltos a todos os que tenho tido a oportunidade de ajudar, a começar pelos meus filhos de sangue e adoptivos até aos membros da Associação.

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