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Nyangane: “Maputo tornou-se um espaço de digladiação pela sobrevivência”

Nyangane: “Maputo tornou-se um espaço de digladiação pela sobrevivência”

Existem mil e uma possibilidades que tornam a cidade de Maputo um espaço simplesmente encantador: as lendas, as glórias, os monumentos, as personalidades, os lugares e os artistas. No entanto quando, a par disso, se recorda de que a capital moçambicana possui uma (outra) faceta contrária à sua evolução, perde-se o encanto. Foi nesse caos que, inconformado com a realidade, o artista plástico moçambicano Nyangane se inspirou para gerar arte. @Verdade descobriu outras motivações…

Nyangane, o nome tradicional de uma verdura alimentícia, é a forma como o artista plástico Belmiro Marrengula encontrou para resgatar o seu apelido cuja inscrição no seu assento de nascimento foi inviabilizado pela incompetência do colono português. É o seu nome artístico e, quem sabe, no futuro pode ser dos seus filhos.

De qualquer modo, a identificação oficial de Belmiro não foi a razão que nos moveu a escrever essas linhas. Mas a sua forma de interpretar a realidade social maputense e, por extensão, moçambicana que, diariamente, lhe chega à casa pela janela do seu quarto nas primeiras horas do dia.

“Afinal, o que Nyangane vê a partir da sua janela?”, é a pergunta que lhe colocámos para iniciar a conversa sobre as obras que expõe, na Mediateca do BCI – Espaço Joaquim Chissano.

“Sou da opinião de que todo o artista é egoísta. A sua percepção da realidade é individual e, por essa razão, a forma como a interpreta e produz a sua arte é subjectiva ainda que a sua meta seja atingir a sociedade”, diz Nyangane para explicando as razões de a sua exposição que encerra amanhã se intitular: “O que vejo da minha janela”.

Nyangane conta que “sempre que o dia nasce, eu tenho o hábito de abrir as janelas do quarto. Do meio externo, além dos raios solares, recebo elementos ruidosos. Isso dá-me a noção dos desafios que, ao sair de casa, terei de enfrentar”.

Na verdade, é a partir da visão de um cidadão que recebe manifestações sociais das diferentes formas de vida, da luta pela sobrevivência, que interpreta a cidade de Maputo, criando obras de arte. Uma perspectiva que lhe diz que a cidade está a crescer, quer em termos de infra-estruturas, quer em termos de habitantes.

De qualquer modo, a percepção do espaço urbano como um caos não lhe escapa. É por essa razão que, na sua pintura, Nyangane chama a atenção dos gestores municipais sobre inúmeras situações torpes e entorpecentes.

Ou seja, um pensamento que concebe a cidade sob duas perspectivas – uma de urbanização, outra de urbanismo – em que, na primeira, o Homem é que transforma o espaço em seu benefício, devendo, sempre que necessário, deixar-se transformar pelas regras e normas que orientam a vida social no espaço urbanístico, o que, infelizmente, acontece de forma deficiente em Maputo.

Um espaço de digladiação

De acordo com o expositor, a cidade de Maputo é uma metáfora da savana. E tal pode ser notado na obra “Maputo savana urbana”, em que o artista nos apresenta a disputa dos cidadãos pela sobrevivência. Os mais fracos perecem rapidamente.

É que “nós sabemos que a savana, no sentido lato da palavra, sugere a ideia de um espaço de concentração de animais ferozes em que, igualmente, não faltam os fracos. É uma forma de, em certo sentido, afirmar que Maputo se tornou um espaço de digladiação social pela sobrevivência. A corrupção, as diversas injustiças sociais que sucedem, a criminalidade – que decorrem em Maputo – tornam a capital pouco diferente da savana.

Por exemplo, “eu sou grato à iniciativa das pessoas que praticam diversas actividades comerciais, mormente as senhoras. Sucede, porém, que tais produtos não são bem encaminhados devido à limitação do espaço físico para o efeito, em Maputo”. Isto faz com que, uma vez instituída uma postura de vida na urbe, decorra uma digladiação de forças. Há uma disputa constante de espaços, mesmo para a realização de actividades comerciais.

Na capital moçambicana as viaturas ocupam o passeio – espaço legítimo para a circulação do pedestre que, muitas vezes, se vê impelido a contornar o carro, correndo o risco de ser atropelado. Está-se diante de uma realidade que demanda processos de gestão urbanística, de que, muitas vezes, carece.

O lamentável é que “as entidades que devem realizar essa gestão espacial fazem ouvidos de marcador ao clamor do cidadão a quem devem servir, ou cegam a vista para um problema manifesto”, diz.

Maputo centenária

Depois de “Maputo savana urbana”, a outra obra que chamou a nossa atenção foi “Maputo centenária, tempo que passa”.

É como se a referida obra mostrasse as mutações pelas quais a capital moçambicana passou ao longo dos anos. De uma ou de outra forma, o que o artista pretende dizer é que “Maputo foi mais histórica no passado do que nos dias que correm”. Ou seja, “nós vangloriamo-nos mais com os monumentos construídos no passado. Ainda não conseguimos construir nada que imortalize a nossa imaginação criativa”.

“Defendo a opinião segundo a qual as nossas obras devem ser referências. Por exemplo, o Estádio Nacional de Zimpeto é apenas um edifício tradicional que, em termos de mensagens, pouco diz. Ora, nos dias actuais, o turista está mais interessado na forma como os povos das regiões onde visita pensam, idealizam e realizam as suas criações”.

Recorrendo aos exemplos dos estádios monumentais da África do Sul e de Pequim, nomeadamente em formato de cabaça e ninho de pássaro, o artista – que representa o engenho dos respectivos povos – defende que “nós temos que fazer obras que sejam monumentais e não refugiarmo- nos naquilo que os outros produziram há séculos como, por exemplo, a Casa de Ferro e a estação dos Caminhos-de- -Ferro de Maputo”.

Nyangane considera que é problemático perceber que a visão urbanística actual não produz obras que sejam monumentais e, pior ainda, os mesmos edifícios, muitas vezes, bloquearem a visibilidade de infra-estruturas históricas.

O novo parque de estacionamento de automóveis que, presentemente, está a ser edificado nas proximidades das avenidas Samora Machel e 25 de Setembro, ofusca a visibilidade da Casa Amarela – Museu Nacional da Moeda. A questão que se coloca é: “porque é que não se trabalha a nova infra-estrutura de tal maneira que seja harmonizada à realidade local?”

Ninguém quer falar

O pintor produziu uma obra de arte em que desvaloriza a crucificação de Cristo na actualidade. E sobre a mesma considera que foi produzida intencionalmente para chamar a atenção em relação ao facto de, nos dias que correm, a religião ser muito abordada numa perspectiva comercial.

“Em Moçambique, muitas igrejas não se diferem de empresas. A sua intenção é angariar dinheiro ao invés de passar a mensagem de Deus”, diz acrescentado que, como tal, “eu pergunto: o que Jesus, diante da situação, faria actualmente se não tivesse sido crucificado?”

O artista reitera que a instituição religião está infestada de práticas corruptas, uma situação que se agrava pelo facto de o nosso município autorizar a prática de religiões, muitas vezes, sem questionar o seu contributo para a sociedade – o que é normal, uma vez que o Estado é laico – “mas eu penso que é preciso avaliar os outros factores”.

Por exemplo, “eu como professor tenho alunos que não concordam que se digam palavras que não vão de acordo com a sua visão religiosa. Nós temos uma disputa em relação à forma como a comunidade muçulmana veste. Por isso, numa situação em que o Estado é laico, é preciso perceber que as instituições são autónomas”.

Levando a sua opinião ao extremo, Nyangane considera que “o problema é que, em Moçambique há uma simbiose entre o Estado – entendido como algumas pessoas com interesses egoístas – e a religião”. Logo, gera-se uma discussão em relação à religião sobre a qual ninguém quer falar.

Ora, numa situação em que, na sua programação, “a televisão começa a ceder muitos espaços para a igreja é vital questionar até que ponto isso é necessário”, diz. É que, para Marrengula, “se uma igreja quiser criar um programa televisivo religioso, que o faça, mas não deve ocupar os espaços públicos que devem ser utilizados para (outros) fins de interesse geral da sociedade”.

Entretanto, é bom que se entenda: “Não estou contra a religião porque também sou crente. Mas não comungo de algumas formas como a igreja se manifesta na sociedade, distorcendo as mentes fracas do povo. Não me posso referir ao nome da igreja que tem essa prática. Mas tenho reparado que algumas pessoas – com mentes fracas – têm sido colonizadas”. Pior ainda, “não conseguem evoluir na vida. Misturam ciência com religião”.

Preservar a vegetação

A realização de jornadas de plantio de árvores em Maputo, como nos últimos anos tem acontecido com frequência, é um aspecto positivo, o problema é que as árvores não sobrevivem.

Isto sucede porque se está a tornar frequente ver pessoas a urinar sobre as árvores, destruindo-as sem a devida reposição. Esta é uma das preocupações do artista na sua abordagem pictórica sobre a capital moçambicana.

Por isso alerta, referindo-se ao facto de que “Maputo está a perder o seu aspecto característico – a preservação dos espaços verdes – que sempre teve. O exemplo clássico é o Jardim Tunduro que está em processo progressivo de deterioração”.

Numa situação em que a estufa do Jardim Tunduro foi destruída, onde é que serão produzidas as acácias? Sempre que se constroem prédios abatem-se mangais. Por isso, “não tardará muito que as nossas casas sejam mais ornamentadas com base em plantas artificiais que naturais. A cidade de Maputo corre o risco de perder o verde devido à multiplicação do betão”.

Zona burguesa

Nyangane concebe o bairro de Sommerschield, em Maputo, como uma zona burguesa. Uma região dominado por um pensamento burguês que nos diz “que eu tenho dinheiro. Por isso posso realizar os meus projectos da forma como quero”.

O impacto dessa perspectiva é que, tomando em conta que naquele espaço passa um lençol freático é sempre mestre ter em conta as suas condições geográficas subjectivas. Isso equivale a afirmar que, “não tardará muito para que as esquadrias das residências edificadas na zona da Avenida Julius Nyerere sejam danificadas por causa da movimentação que corre por baixo da terra”.

O artista, que possui uma formação em História, afirma que o mesmo sucede em relação à Avenida Acordos de Lusaka onde, vezes sem conta, ocorre uma concentração de águas:

“De que vale construir um passeio de betão – no lugar de placas de ladrilhos – naquela região quando, de antemão, se sabe que aquele material, devido às suas propriedades e do local em que se encontra, no futuro irá ficar oco, partindo-se?”, questiona realçando que “se me fizer a pergunta, daqui a cinco anos, será para confirmar a actualidade do estudo feito”.

Por isso, “o que me entristece é que os mentores das obras e as pessoas que autorizam a sua execução ignoram as pesquisas feitas. O arquivo histórico possui obras científicas que explicam as propriedades físicas da cidade de Maputo”.

A título de exemplo, na cidade de Londres, em Inglaterra, chove quase que todos os dias, mas a vida social não é interrompida por esse factor. “Isso significa que não devemos abrigar-nos em aspectos naturais para justificar a nossa incompetência, como acontece”, diz para depois insistir: “Temos que pensar em função da realidade para transformá-la”.

Ou seja, “se em Maputo chove e o espaço fica alagado, então, como resolver o problema de uma vez por todas?”, questiona, para a seguir afirmar que esse é o problema mais preocupante.

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