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Nova Aliança da Maxixe renasce das cinzas

Pelo menos será essa a pretensão, se acreditarmos no projecto traçado pelos actuais dirigentes do clube. Que se entregam afincadamente, com o espírito como guia, na formação de jogadores de futebol, mesmo sabendo que não têm dinheiro para suportar aquilo que se pode considerar um desafio total. São cerca de setenta e cinco miudos postos a correr todos os dias num terreno acidentado, sob batuta de Oliveira Garrine e, no fim de cada sessão, na falta do melhor, são lhes distribuídos pedaços de cana-de-açúcar para repôr as energias. O objectivo é apresentar uma equipa sénior daqui a dois anos. E isso é possível. O que conta é a fé. Sobretudo. E a determinação!

Por enquanto não se pode fazer muito, para além de se ir trabalhando nas condições existentes, com a crença de que amanhã tudo vai mudar. Para o melhor. E é exactamente esse sonho que alimenta a alma dos dirigentes de uma colectividade histórica, que chegou a ser vice-campeã nacional de futebol quando se disputava uma prova de alto nível, com equipas que iam ao campo apostadas em dar o melhor de si. Com garbo. Para começar era necessário encontrar-se um espaço onde todo o trabalho podesse ser desenvolvido, e não foi difícil.

Porque o Nova Aliança nasce de uma família, ou de algumas famílias oriundas da zona de Chicuque, nos arredores da Maxixe, e cada um desses clãs tem imensas terras com benfeitorias de não acabar, com particularidade para o coqueiro, venerado em toda terra dos vatonga. Foi cedido ao clube um terreno com 35 mil metros quadrados, onde se vai construir um campo de futebol relvado, pista de atletismo, campo polivalente para jogos de salão, piscina, centro de estágio, infraestruturas para serviços sociais, e um parque de estacionamento.

É um projecto gigantesco, que pode ser de longo prazo para quem treina sem luvas e quer ser campeão mundial de boxe. Porque na verdade podem ser considerados assim aqueles que sonham hoje sem meios, mas acreditam que os terão amanhã para realizarem um sonho que beneficiaria a um espaço espiritual que ultrapassa limites deste clube que merece, absolutamente, uma oportunidade para reaparecer.

Oliveira Garrine, responsável técnico da escola de jogadores, levou-nos ao lugar onde tudo poderá acontecer, um dia. Ou seja, a um lugar onde as coisas já estão a acontecer. No embrião. Fica a cerca de cinco quilónmetros da Maxixe, junto à costa, e o que vimos é apenas terra, coqueiros e cajueiros, que se erguem como dádiva de Deus. Vimos também aquilo que podemos chamar um campo de futebol, onde as crianças corriam atrás da bola sob orientação de professores de educação física afectos à Escola Primária e Secundária locais. “Daqui a dois anos queremos apresentar uma equipa sénior bem estruturada, e esse conjunto vai sair deste grupo que você está a ver”.

Parece inacreditável, mas não estamos autorizados a desmentir a utopia. E tudo aquilo parece utópico. “Temos um núcleo em Maputo que está a trabalhar no sentido de nos aproximarmos mais aos nossos parceiros, alguns dos quais já mostraram interesse em nos darem apoio”.

Mas não se fazem ovos sem omoletes, e os actuais dirigentes do clube ignoram esse ditado, querem fazer ovos sem omoletes. E já começaram. “Já esboçamos o projecto para todo o nosso sonho e está nas mãos do Fundo de Promoção Desportiva, faltam alguns detalhes, porém, em em breve tudo estará acertado. Acreditamos que as coisas vão decorrer a contento, senão não estariamos aqui”.

É a fé que os move. É a raiva também, de não quererem ver uma colectividade histórica a desaparecer. “Se não cumprirmos com esta missão estaremos a blasfemar os fundadores da colectividade, as famílias Garrine, Nhambihu, e Mbalango. Que em 1942 juntaram-se para fazer alguma coisa a bem do futebol. São eles que nos cederam este espaço, que se chama Guiciringaneni, para o clube não desaparecer. Para realizarmos aqui os nossos sonhos. Que são deles. E nós vamos valorizar essa confiança que depositam em nós”.

Tudo isto é um empreendimento. São várias ondas ao mesmo tempo despejando as águas para a terra. E o objectivo é único, voltar aos anais do futebol nacional. “Neste momento, apesar destas limitações todas de logística que temos, estamos a trabalhar com equipas de iniciados, juvenis e júniores, com 25 jogadores em cada escalão, e os treinos são feitos em coordenação com os professores de Educação Física das escolas primária e secundária daqui da zona”.

Este trabalho é feito ainda em coordenação com os pais das crianças, que se sentem satisfeitos pelo facto de os seus filhos terem uma ocupação saudável e, quem sabe, com um futuro no futebol nacional e não só. Será também uma outra forma de desviar as crianças do caminho do álcool, que está a constituir-se numa verdadeira praga que não poupa nem as crianças. E o acompanhamento psicológico delas é feito por Zacarias Garrine, que nega ser um psicólogo.

“Tomámos muito cuidado na forma como lidamos com as crianças. Infelizmente ainda há alguns miudos que vêm para aqui já tocados pelo efeito do álcool, mas estamos a travar um combate num processo que deve ser feito tendo em conta as condições sociais de cada aluno. Preocupamo-nos muito em concentrar o nosso trabalho no lado psiquico-intelectual e os resultados que temos colhido são animadores”.

De quinze em quinze dias há um trabalho de campo – a nível psicológico – que Zacaraias Garrine realiza nesta futura escola de jogadores, em coordenação com os pais das crianças. “Para mim o mais importante é que eles vêm jogar. Vêm treinar. Isso significa que estão motivados. Sabemos que não temos condições materiais e logísticas para exigir muito deles, mas não podemos ficar de braços cruzados.

Enquanto se fazem contactos com os nossos eventuais futuros patrocinadores, é necessário que se vá fazendo alguma coisa, e é isso que estamos a fazer. Acredito que daqui a dois anos já não seremos os mesmos, teremos, com certeza, uma equipa sénior bem estruturada para ombrear com os outros no provincial e, dessa forma, lutarmos para reocupar o nosso lugar no Moçambola”. Por enquanto a escola de jogadores conta com o apoio da empresa Sasseka, cujo incentivo não será apenas material, mas ajuda a equilibrar o lado psicológico.

Nova aliança nunca teve campo

Depois de onze anos consecutivos, o Nova Aliança da Maxixe decide, em 1989, retirar-se do Campeonato de Futebol. Era necessário que assim se procedesse por uma questão de honra. “Começampos a peceber que as nossas condições já não favoreciam muito e não podiamos continuar na prova disputando lugares subalternos”. E a partir daí o clube começou a viver do passado. Do nome que conquistou lutando sempre entre os melhores. E o que se vê hoje é completamente sombrio. Não há dinheiro, para além da alma que ainda arrasta um corpo que se recusa a ser moribundo.

A sede da colectividade funciona agora no ex-Clube Náutico, um local que deixa muito a desejar em termos de apetrechos. Depois da morte do “Gomes da Maxixe”, o pulmão financeiro do clube deixou de puxar oxigénio para dar vida. Todos reconhecem isso, e têm muito respeito por um homem que deu grande parte da sua vida ao clube, que nem era dele, mas mesmo assim amava-o como se fosse dele. Os actuais dirigentes não têm capacidade financeira para reerguer o monstro, que está completamente de rastos. E para piorar tudo isto, nunca tiveram um campo que fosse deles. Todos os jogos de glória no campeonato nacional de futebol foram sempre realizados nas instalações do Conselho Municipal da Maxixe, cujo campo confundia-se com o Nova Aliança.

Hoje foi-lhes cedido o ex-Clube Náutico. E pela história que transportam, merecem esse reconhecimento. É um local composto de um imenso salão que em tempos foi também usado para projecção de filmes, tem um campo para prática de jogos de salão e um espaço – agora ocupado supostamente de forma ilegal – onde se podiam realizar jogos de praia. Estivemos lá há bem pouco tempo e o que sentimos foi a própria desolação.

O presidente da colectividade, o senhor Jacinto Abrão, parecia um passageiro na estação a espera de um comboio que demora chegar. Tudo à volta está por reconstruir. Para se corporizar um sonho que parece só do Nova Aliança, mas que não é. É da província de Inhambane. Se um dia este clube voltar ao Moçambola, todos nós vamos rejubilar.

Lançamos a vista para o lugar onde seria construída uma piscina e para onde deviamos ver as areias da praia que acolhiam jogos de futebol e voleibol, e o que vimos é um futuro hotel, cujas obras foram embargadas pelo município. Mas o mamarracho continua lá, tirando- nos o prazer de contemplar o mar e lembrarmo-nos os momentos em que tinhamos regatas. Ninguém sabe quando é que vão demolir aquelas obras interrompidas para devolverem ao lugar, pelo menos, a paisagem natural, enquanto o dinheiro não vem para corporizar o sonho do Nova Aliança da Maxixe.

Cabazadas no provincial

O clube parece estar dividido. A equipa que participa no “provincial/ 2013” está a fazê-lo tendo como timoneiro Pedro Garrine, treinador que trabalha supostamente sem o consentimento dos dirigentes. E os resultados que tem conseguido são desastrosos, nunca teve uma vitória sequer, o que traz ao decima os imensos problemas estruturais que a equipa atravessa. Mas o presidente Jacinto Abrão destramatiza.

“Não há divisão nenhuma. Nós propusemos a nossa retirada do “provincial” porque não estavamos em condições de participar, só que, como já constávamos das inscrições e o calendário já estava feito, a Associação Provincial de Futebol ficou embaraçada, ou seja, se autorizasse a nossa saída desorganizava todo o esquema montado, e nós também ficamos complicados”.

Apresentada esta questão, alguns membros do clube acharam que deviam avançar mesmo com as dificuldades existentes, e assim aconteceu. “A equipa não tem meios porque todo o clube está a atravessar privações, e sem meios não se pode fazer muito, é por isso que estamos a registar derrotas atrás de derrotas, e vamos sair deste certame muito chamuscados”.

Pedro Garrine não aceita que tenha tomado a decisão de prosseguir à revelia. “Tinhamos que fazer alguma coisa porque estavamos inscritos. Para além de embaraçar a prova, a nossa desistência acarretaria multas pesadas que não estariamlos em condições de pagar”- Na verdade o Nova Aliança estava num dilema. E tudo está a ser feito para que esta sitiuação se ultrapasse para se porem as “mãos” no árduo trabalho de formação de jogadores “para daqui a dois anos termos uma equipa sénior que vai trazer de volta a nossa dignidade”.

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