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“Nós os moçambicanos não nos conhecemos”

“Nós os moçambicanos não nos conhecemos”

De que maneira o conhecimento gerado na literatura artística moçambicana está a contribuir para o dissolvimento do país? A pergunta foi formulada ao recém-nascido escritor moçambicano, Nelson Lineu, o autor da obra poética ‘cada um em Mim’. O escriba afirma que a literatura é a única plataforma que nos possibilita o acesso a um maior conhecimento sobre nós mesmos. No entanto, o não usufruto de tais informações está a gerar impactos negativos.

“‘Cada um em Mim’ é um livro que possui duas vertentes – a interna e a externa. Como sujeito poético, no meu ego tenho vários ‘eus’. Neste sentido, a obra acaba por ser a cara destas personagens. O lado externo reflecte o modo como o mundo, as pessoas e todas as coisas envolvidas, principalmente o mar, vivem dentro de mim. Há uma dialéctica entre estas realidades que coabitam o mesmo espaço – o meu eu”. Esta explicação é expressa respondendo à razão de ser do título da obra. Mas, como mais adiante explica, o livro podia também ser intitulado “Palavras”.

Elas, formando textos poéticos focalizados no belo e no estético, incluindo uma lírica erótica, são abundantes. Com o livro impresso, o interior do poeta Lineu exteriorizou-se ganhando uma nova forma material. Como é que se descreve esse ego? Não há dúvida de que a leitura do ‘cada um em Mim’ é o caminho para se encontrar a resposta. De qualquer modo, explica o escritor que se está diante de “um passaporte para o nosso interior, na medida em que – com o livro – procuro incitar as pessoas para que descubram como elas são”.

Por outro lado, lembra Lineu, “a professora Fernanda Angius escreveu no prefácio que estamos perante um eu lírico, alguém que deseja uma partilha ou que acha que viver é, necessariamente, partilhar. De facto, para mim viver é partilhar experiências com os outros”. Assumindo-nos até como os arautos da literatura, dessa boa-nova artístico-cultural, o nosso trabalho oficinal quebra- nos na medida em que a urgência anunciativa não se compadece com a nossa vontade de realizar uma leitura interpretativa. A premência do autor em dizer ao mundo, por nosso intermédio, que já nasceu é também um factor desfavorável.

Contra o tempo da leitura. Porque ler é acrescentar algo. Recordar-se de algo. O problema dos poetas – dizemos isso em jeito de provocação – é esta maneira de escreverem um livro e esperarem que as pessoas percebam os seus textos. “Não acho que os poetas estejam preocupados com que as pessoas leiam os seus livros, mas que percebam o que está escrito no seu interior. Eu acabo por ser uma bússola, mas neste livro quero que as pessoas se leiam a si mesmas, a fim de compreenderem o que há no seu interior”, riposta Lineu.

Há nesse texto um exercício de ‘outrocização’ – acho que a palavra não existe, mas quero-me referir à forma como olhamos para o outro –, não no sentido negativo do termo, mas no da ‘construção social do outro’, como a literatura sociológica, com o título similar discute o tema. Lineu afirma que “o prefácio da obra tem essa ideia do outro que, para mim, significa uma extensão do meu ser. Não vejo o outro como se fosse uma coisa apartada de mim. Logo, é o prolongamento de mim e dos meus próprios membros”.

É um exercício problemático porque se se analisar o título, sob o ponto de vista de estudos semióticos, percebe-se que os outros, expressos em “cada um”, a olhar para os sinais gráficos, o ‘um’ que equivale ao outro, que é uma extensão dentro da sua explicação, é menor que ‘Mim’. Que imagens se pretendem produzir com esta criação gráfica?

“Como estava a explicar a obra comporta duas identidades – uma interior e outra exterior – esse ‘um’ também sou eu. O ‘cada um em Mim’ expressa os vários momentos que vivo porque, muitas vezes, os contextos sociais definem o nosso ser. Por outro lado, o outro pode não ser um humano, mas um animal, um cão, o mar que aprecio bastante”. De uma ou de outra forma, “o ‘Mim’ está destacado não só por uma questão de beleza artística mas, acima de tudo, por ser esse encontro dos ‘eus’ que estão dentro de mim, incluindo os tantos outros que coabitam o mesmo espaço”.

Uma assembleia de conhecimento

Talvez esta divisão da obra em duas categorias dialécticas – a interior e a exterior – por parte do autor seja uma postura egotista e, até certo ponto, reducionista. Um livro é sempre uma assembleia de conhecimentos. Por exemplo, no signo ‘cada um’, “este ‘um’ pode representar as várias vertentes como eu olho a poesia. Eu trabalhei muito com o belo e o estético – o que significa que a minha intenção não era gerar ideias revolucionárias. Como costumo dizer, o meu livro não é de intervenção social, mas é de intervenção pessoal”.

“Em princípio devia chamar-se “Palavras” porque uma boa parte de textos que o livro continha era sobre elas, embora haja alguns poemas de amor com um cunho erótico e um lado reflexivo muito grande. Espero que o leitor não seja passivo mas activo, a fim de construir as imagens das palavras que aí se apresentam como pedras”, afirma o autor.

“O título do livro – infere o autor desta matéria – recorda-me a experiência diária que realizo quando saio de casa para o trabalho. Do meio do transporte público, desço num dado ponto devendo terminar a outra distância – diga-se, longa – a andar a pé. É uma cena muitas vezes propositada, porque, a escutar música pelo auricular, no referido percurso, aprecio, igualmente, as várias realidades do espaço que contribuem para a minha formação humana, enquanto membro desta sociedade. Neste ‘cada um em Mim’ revejo este exercício no sentido de olhar para os outros”. Mas quem são esses outros? De que maneiras os percebe? Que mensagens eles emitem para si? E como é que se reaproveitam essas mensagens?

“De igual modo, tenho feito este exercício. Muitas vezes, acordo muito cedo e ponho- -me a andar por andar, sem nenhum outro objectivo além deste. Recorro também a esse movimento depois de estudar. Para mim, caminhar é uma experiência que me possibilita deixar os outros entrarem em mim. Quando isso acontece eu torno-me naquela criança que vejo a chorar, naquela mulher que se ri genuína e exageradamente na rua. Gosto de viver isso. Aprecio viajar para um bairro onde não conheço ninguém a fim de ver como as pessoas vivem e convivem”.

Trata-se de numa experiência única cuja maravilha dos seus podem ser percebidos em textos como ‘Morte de um poema?’ na página 55: “A imagem de uma mulher com bebé chorando no colo um saco procurando segurança na cabeça e uma enxada na mão ansiando beijar a terra fez-me desistir do poema. Agentes da educação Partindo do princípio de que toda a obra de literatura artística, incluindo o ambiente literário, representa um espólio do conhecimento, de que maneira esta informação contribui para o desenvolvimento do país? Nelson Lineu, de 26 anos, recorda-se de que “eu era um jogador de futebol, mas, em 2007, em resultado do acidente que sofri, tive a oportunidade de ter um segundo momento de vida em que fui educado pelos livros”.

Por outro lado, sabe-se que nos índices do desenvolvimento humano, “o nosso país está muito atrasado. Em contra-senso, felizmente, neste aspecto, a nossa literatura é muito rica. É abastada desta apreciação ao outro que faço no livro. Por exemplo, fala-se demasiadamente da unidade nacional. Para se estar em união com alguém é preciso que as pessoas se conheçam e tenham confiança mútua. Muitos dos nossos problemas, como moçambicanos, resultam do desconhecimento que há entre nós. Há muito preconceito no nosso seio”.

“Não falo só do conceito chingondo que se atribui às pessoas do centro e do norte do país, mas das dificuldades que há entre os moçambicanos dos sul se casarem com as pessoas do norte, por exemplo. Então, a nossa literatura é rica neste sentido. Ela possui um grande espaço que nos possibilita ter o conhecimento sobre nós mesmos. Os livros de Paulina Chiziane e de Ungulane Ba Ka Khosa são exemplares. Eles possuem vida”.

Mais importante é que “a partir do momento em que nós nos conhecermos, vamos crescer e esse desenvolvimento irá acontecer. Já devíamos ter, na escola, uma disciplina de educação artística, a partir da qual se activaria a apetência das pessoas pelas artes, no seu todo”.

Muito triste é constatar que “há muita gente infeliz no país. Por exemplo, eu sou um escritor. Mas, além disso, tenho de lutar a fim de conseguir um trabalho que nem me dá prazer, pura e simplesmente, porque não posso ganhar a vida com o trabalho artístico. Se as pessoas valorizassem as artes, a vida dos artistas iria melhorar. Mas eu trabalho no activismo artístico e, particularmente, no campo da literatura, descobri que as pessoas não lêem por falta de livros, nem por falta de dinheiro, mas sim dada a ausência de incentivo”.

Conduzindo a sua opinião ao extremo, Lineu afirma que “o nosso desenvolvimento deve-se reflectir no progresso da moralidade. Não estou a dizer que o fim da arte é melhorar a vida das pessoas, mas há a necessidade de se passar a mensagem que nos fez reflectir sobre a arte”.

Para si, “se a nossa educação investisse na arte não estaríamos a reclamar de muitos aspectos. Temos um país com cerca de 25 milhões de habitantes, no entanto estes não conseguem esgotar 500 exemplares de um livro. Há que se reestruturar o país, porque não faz sentido que uma editora publique 500 cópias de uma obra acusando, instantes depois, os moçambicanos de não gostarem de ler, quando não se fez um trabalho de divulgação neste sistema que acaba por fazer com que o livro seja um mito e uma forma de exclusão dos outros”.

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