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Nomo: Um exemplo de persistência!

O sonho é uma perspectiva que nos move para a concretização de um desiderato, no percurso do qual há obstáculos. A coragem, a determinação e o amor – em relação ao desejado – são as principais ferramentas a aplicar. O multifacetado músico moçambicano, Vicente Ernesto Mondlane (Nomo), é um exemplo disso e de persistência.

Prefere que lhe chamem Nomo. Mas, no assento de nascimento, é Vicente Ernesto Mondlane. O artista possui uma história curiosa. Diz que nasceu a saber cantar, o que – na sua percepção – se comprova pelo facto de que “na minha infância, sempre que entoasse uma canção as pessoas ficavam maravilhadas”.

Desengane-se, então, quem pense que o aspecto peculiar da sua história seja esse. É que Nomo esmerou-se no canto no “laboratório” do curandeirismo do seu pai. E explica: “Como o meu pai era curandeiro, vezes havia em que ele me convidava para cantar enquanto fazia os rituais. Naquele momento eu observava como se tocava o batuque porque, em inúmeras ocasiões, se realizavam festas em casa relacionadas com o trabalho do meu pai. Eu aproveitava para aprender”.

Aos 12 anos de idade, além de admirar o seu ídolo Alberto Machavele, Nomo cantava e tocava batuque com alguma mestria. Desde então, em quase todas as actividades em que se envolvia, passou a ser bem-sucedido, o que, em parte, se deve ao talento invulgar que possui. A sua admiração pela pessoa de Machavele é outra força motriz que o conduz ao êxito.

A experiência que teve durante a proclamação da independência nacional, em 1975, é um dos episódios mais marcantes na sua vida artística. Sobre o assunto, Nomo recorda-se de que, na altura, era aluno da Escola de Matutuine onde – a par dos seus colegas – recebeu a informação sobre o feito e a missão de preparar, para apresentar em público, algumas performances artístico-culturais. Recriou uma canção sobre a prisão do imperador de Gaza, Ngungunhana – da autoria de Alberto Machavele –, incluindo algumas danças tradicionais que constituíram a ementa da sua actuação.

A carreira

Dois anos depois da proclamação da independência nacional, Nomo emigra para a província de Inhambane – a terra natal do seu ídolo – onde, para além de se associar a uma colectividade artística local, permaneceu quatro anos.

A sua partida para a República da África do Sul, em 1983 – onde ia procurar melhores condições vida – foi, para si, uma grande mágoa uma vez que foi no mesmo ano que conheceu Pascoal Gumbane, outro artista, que explorava o mesmo estilo musical de Machavele. “Senti-me triste com a situação, mas o facto de conhecer artistas como Black Mambazu – que exploravam o mesmo género musical na África do Sul – serviu-me de consolo”, comenta.

Ainda na África do Sul, em 1985, Nomo formou um grupo de canto no local do trabalho. Diz-se que o patronato apreciava o movimento que instalara pois ele dinamizava a massa laboral. Aliás, dessa experiência, bons resultados não faltaram: o artista foi promovido, as condições de trabalho melhoraram e ainda lhe restava um tempo suficiente para se dedicar à música. É como ele narra: “eu via a alegria nos meus colegas e o entusiasmo no trabalho”.

O meu pai tinha 42 filhos

De regresso a Maputo, no ano seguinte, juntou-se a alguns dos seus irmãos – como os quais cantava as sua composições e de Machavele. Sobre o processo da selecção dos artistas para a sua colectividade, Nomo revela que “foi fácil encontrar as pessoas para cantar comigo, porque o meu pai tinha 42 filhos e sete mulheres. Não precisei de solicitar o apoio de pessoas de fora da família. A banda – inspirada nas canções de Machavele – chamava-se A Mandla Mondlane. Muitas vezes cantávamos em cerimónia familiares como, por exemplo, casamentos, nas quais mesmo as minhas mães actuavam embora o grupo fosse, essencialmente, constituído por oito pessoas”.

De uma ou de outra forma, se Nomo se assume como uma pessoa polivalente, tal atributo não é expresso nas artes, mas nas actividades laborais. Nessa vida, Ernesto Mondlane já se dedicou a actividades comerciais, dentro e fora do país – foi canalizador, pintor, pedreiro, cozinheiro, etc. É como o cantor afirma: “desde sempre fui polivalente. Deus deu-me este dom”.

No seu percurso, houve épocas em que – na sua actividade comercial – Nomo trabalhava com 14 pessoas na condição de empregados. A partir de 1990, altura em que Nomo foi convidado a trabalhar numa padaria, o seu grupo de música desapareceu. É que o cantor se desligou definitivamente da arte.

Sonhar com o ídolo

Com a morte de Alberto Machavele, em 1992, Vicente Mondlane ficou muito abalado. É sobre isso que narra que, uma vez, enquanto dormia sonhou com o seu ídolo a dizer-lhe: “acorda e procura a minha casa”. Na manhã do dia seguinte prontificou-se a cumprir a missão dada.

A sua sorte é que o corpo do seu ídolo devia ser transladado para Inhambane – a sua terra natal –, onde foi realizado o funeral. Durante quatro dias consolou a família do malogrado. A concorrência da parte do sobrinho do falecido na interpretação das suas música foi o motivo da não ida de Nomo a Inhambane. “Ele queria ser o único a cantar as músicas de Machavele”, revela.

Instala-se um novo problema

Algum tempo depois, a banda musical de Machavele, Nkava Vanga Yete, procurou-o a fim de que ele se juntasse à colectividade. A situação indignou a esposa do perecido – não, necessariamente, por estar contra mas – por não se conformar com o facto de que Nomo fosse abandonar a sua actividade comercial, que lhe rendia elevadas somas, para se dedicar à música e ganhar 300 meticais diários por actuação.

Por outro lado, segundo Nomo, o sobrinho de Machavele não simpatizava com a ideia de que ele cantasse as músicas do seu tio. É que o seu sucesso nisso lhe abespinhava. Acusado de explorar as composições do finado, Ernesto Vicente foi multado e condenado pelo tribunal a não cantar mais as ditas composições.

A partir daí começou a compor as suas canções, preservando o estilo do mestre. Tornou-se famoso, contudo, o sobrinho de Machavele não lhe deixava em paz.

“Um dia, depois de um espectáculo, ele ameaçou-me, obrigando-me a parar de cantar. No dia seguinte acordei com a boca virada. Passei um mês sem conseguir falar. Melhorei gradualmente. Fiquei com problemas na boca durante três meses. Esses problemas vinham acompanhados de outras dores que não conseguia entender. Sofri muito. Foi aí que decidi parar de cantar”, releva.

Personalidades moçambicanas como, por exemplo, Marcelino dos Santos, Graça Machel, e Fárida Gulamo – que reconheciam o seu talento –, apoiaram-no no processo da recuperação. No entanto, refira-se, nem os pesares pelos quais passou Nomo se dá por vencido. Actualmente, possui um grupo cultural, com o mesmo nome (Nomo), e luta para se tornar um dos mais célebres artistas que Moçambique possui.

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