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Ninguém apoia a música tradicional

Há três anos que os Silita, uma banda de música tradicional moçambicana, procuram apoios para a gravação do seu segundo trabalho discográfico. A investida está a ser vã. Ao que tudo indica, no País do Pandza, ninguém quer preservar a tradição através do canto. Entretanto, o líder da colectividade, Simão Nhacule, que partilha a sua angústia, receando uma publicação póstuma, diz que esta, a acontecer, “será uma hipocrisia”.

A criação da Banda Silita, que existe há 15 anos, tem a ver com a fuga do seu líder, Simão Nhacule, da província de Inhambane para a cidade de Maputo, onde vinha à procura de melhores condições de vida e de prosperidade.

É que, antes da partida, o artista teve uma formação familiar em música com o apoio do seu pai. Na altura, ele era um adolescente e não resistia à Timbila e à Ngalanga entre outras danças tradicionais que praticava.

“Quando cheguei a Maputo fui acolhido pelo Grupo Cultural do Conselho Municipal, em 1994, de onde saí para o Grupo de Canto e Dança da Casa da Cultura do Alto-Maé, antes de, em 2000, passar para a Companhia Nacional de Canto e Dança”, refere.

Simão recorda-se de que ao longo do tempo em que permaneceu na Casa da Cultura sentiu a necessidade de criar uma banda musical – sonho que se concretizou com a formação dos Silita. “É que nos meus tempos livres, sempre tocava e cantava música tradicional, até que percebi que não devia parar por aí. Convidei um colega percussionista e uma vocalista e formámos o agrupamento”.

A partir daí, a colectividade participou em vários eventos culturais, no país e na Europa, mas o mais importante foi um concerto musical promovido pelo Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, em que os Silita foram os vencedores, tendo tido como prémio o direito de gravar o seu primeiro trabalho discográfico – Siva Tako.

Entretanto, “apesar de que o disco também foi disponibilizado ao mercado nacional, o mesmo foi mais vendido na Europa, a partir da cidade de Paris. Não sei as razões, a verdade é que a música tradicional moçambicana é mais consumida no estrangeiro”.

Objectivo obstruído

Reconhecendo que Moçambique é um país rico em termos de ritmos e géneros musicais, a acção do Grupo Silita é no sentido de preservá-los, divulgando-os para consumo actual e das gerações vindouras.

O contra-senso é que “nós estamos a ter dificuldades nesse processo. Há três anos que e o disco devia ter sido publicado. A situação é frustrante. Pedimos apoios em várias empresas, algumas das quais responderam negativamente, alegando que a banda é anónima – o que não é verdade – outras ainda explicaram que não nos podem financiar porque a música tradicional não é comercial – o que também não é verdade. Houve também organizações que simplesmente ignoraram a petição”.

O que preocupa esta colectividade é que “contrariamente àquilo que algumas empresas condicionam para nos apoiarem, nós não estamos preocupados com a fama, mas em preservar a nossa tradição através da música. Um país sem cultura não funciona”. Além do mais “a música tradicional é muito rica e nós investimos muito nela, mesclando ritmos de diversas partes do país. E quando não se dá o devido valor a esse trabalho, nós ficamos frustrados porque se cria um problema grave”.

O artista considera que a acção do Governo é mínima. “Ou seja, não estou a dizer que o Governo não está a fazer nada, porque, no mínimo, promove o Festival Nacional de Cultura, mas devia fazer mais pela cultura”. Gravado, “este disco seria uma mais-valia na nossa cultura e tradição, como um documento para as gerações vindouras – o que é muito bom – porque há muitos aspectos sobre culturais que estão a desaparecer por causa da falta de registo.

E aqui vale a pena recordar-se o tocador de timbila Capitine que, por volta de 1940, viajou de navio para Portugal onde gravou o seu disco. “Imagine-se que ele não tivesse feito o registo discográfico. Como é que nós iríamos conhecer os traços da utilização da ferramenta deste tocador?”

Partindo do princípio de que o Grupo Silita quer preservar os instrumentos de música tradicional e as melodias que eles produzem, Simião Nhacule considera que caso “esse projecto não seja concretizado criar-se-á mais uma história de alguém que terá de morrer para que depois – como tem sido apanágio nos nossos dias – as pessoas concorram para serem as primeiras a gravar esse disco. Infelizmente, as pessoas gostam de promover homenagens póstumas – o que é mau”.

Ou seja, “o problema é que os nossos empresários – mesmo aqueles que patrocinam a produção cultural – respondem às solicitações dos artistas, positiva ou negativamente, sem terem conhecimento do que estão a financiar. Eles guiam-se pela fama do artista e não, necessariamente, pela sua obra”.

A formação do colectivo

Primeiramente, o Grupo Silita era constituído por Simão Nhacule (na timbila, percussão e voz), Lorindo Cuna e Tânia Jacobe – os dois últimos apartaram-se da colectividade. Por isso, integraram- -se Amós Mawaie (na timbila, percussão e voz) e Linda Jamisse, ou simplesmente Xizimba, que é a vocalista principal.

“Cada membro da banda é porta-voz da sua aldeia. Por exemplo, eu represento a aldeia de Dukwa, mas no conjunto há gente que vem de Gule e Morrumbene. Então, cada pessoa sublima – no bom sentido e sem nenhuma disputa – as suas origens”. Ou seja, “nas composições, cada artista cria as suas obras à sua maneira. Mas existem músicas – algo de produção popular – que nós, nas nossas regiões de origem, escutávamos e dançávamos na infância. Procuramos resgatá-las, tal como elas são, trabalhando-as para que sejam escutadas num contexto mais alargado”.

Na sua produção musical, a banda utiliza a timbila, os batuques, as maracas, as vozes e, por vezes, a viola-baixo como forma de enriquecer a música. “É uma forma de dizer que a música tradicional não se limita apenas à utilização de instrumentos tradicionais”, comenta Simão Nhacule. A gravação do seu segundo trabalho discográfico pressupõe um investimento de 200 mil meticais.

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