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Não pertencemos a uma geração perdida!

Não pertencemos a uma geração perdida!

Uma década depois do século XXI – desde a sua descoberta –, se sistematizadas, as informações produzidas e disseminadas sobre a prevenção e o combate ao HIV/ SIDA podem originar uma nova corrente literária. A doença continua a devorar vidas humanas. Decerto, a enfermidade é incurável, mas não podemos permitir que destroce a nossa geração…

Em Moçambique – se nada falhar, e oxalá que assim seja – o ano 2012 pode ser determinante na história da luta contra o vírus causador da SIDA. Muitas iniciativas, no campo da Saúde, da Educação e da produção das artes e cultura animam o debate no espaço social agitando multidões na luta contra a pandemia.

Mas estas campanhas contra o HIV, para serem bem- -sucedidas, precisam de antes de mais conhecer, no campo do domínio psicológico que possuem sobre as populações humanas, as razões que “fragilizam” as mensagens que emitem.

De uma ou de outra forma se considerarmos que a iniciativa de realizar, durante todo o ano de 2012, de um modo continuado e ininterrupto, uma série de actividade de sensibilização e mobilização das comunidades afectadas e infectadas pela doença para um comportamento sadio em relação à sua prevenção e combate não somente representam um exercício necessário de cidadania, mas também o ponto mais alto de um desiderato comum, enquanto afectados. Por isso, temos de lograr sucesso.

Muito recentemente, num gesto que se manifestou como uma tentativa de levar o seu posicionamento, na verdade o desejo rechaçar o HIV/SIDA, ao extremo a Associação Cultural Showesia (que este ano promove a II edição do Festival com o mesmo nome com a finalidade de contribuir para que em Moçambique e, por extensão, em África e no mundo inteiro, haja Mais Saúde Para Nós – Por Uma Vida Positiva) realizou a primeira gala do evento.

Manifestações culturais e artísticas como literatura, poesia, canto, dança, declamação de poesia, teatro música, entre outras, associadas no mesmo espaço físico, o Centro Cultural Universitário, em Maputo, fizeram da necessidade da luta contra a doença o grito uníssono de todos os moçambicanos.

Mas, diga-se, um aspecto é verdadeiro: muitas pessoas não foram ao evento. Afirmar isso, num espaço como este, pode ser interpretado de várias formas românticas e, por conseguinte, tendenciosas.

Deixemos as tendências à parte. O facto é que, perante a grandeza da causa em prol da qual se está a lutar, o evento dinamizado pela célebre artista moçambicana, Tânia Tomé merece o envolvimento de toda a sociedade.

De qualquer modo, uma coreografia – na verdade, uma espécie de representação do que sucede no espaço social sempre que alguém se infecta pelo vírus da SIDA, o que imediatamente afecta as pessoas que o rodeiam – foi apresentada de forma artisticamente criativa.

Mas uma situação que eu, autor do artigo não percebo, é a seguinte: se a melancolia, a dor e o sofrimento que se instalam nas nossas vidas sempre que um ente querido encontra a morte devido à SIDA constituem uma sensação que não queremos experimentar, porque é que continuamos a ter comportamentos desviantes?

Na peça que nos foi apresentada, um jovem vigoroso é infectado. No seu país, Moçambique, apesar de algumas conquistas alcançadas, a pobreza ainda é extrema. Por isso, a camada juvenil é convida a ser activa. No entanto, infelizmente, esta ignora o seu papel.

E fá-lo sempre que não usa o preservativo nas relações sexuais sabendo que pode se infectar pelo HIV; envolve-se com inúmeros parceiros; repudia a fidelidade; preceitua que ser virgem equivale a tolice; que a preservação até o casamento é uma prática antiquada; que não pode praticar a abstinência, etc.

Infectado pelo vírus da SIDA, o jovem de que estamos a falar é uma figura que só se apercebe tardiamente de que se tivesse sido cuidadoso e criterioso – nas suas atitudes e comportamentos – podia ter evitado a infecção e produzido continuamente acções concorrentes ao desenvolvimento social do seu país.

Porque é que o activista da luta contra o HIV deve ser uma pessoa infectada? Ou seja, porque é que a consciência de que o combate à enfermidade é urgente – parece que só – é ganha depois da infecção? A SIDA pode não ser o principal, mas é um mal que assola toda a sociedade contemporânea.

Para combatê-la não precisamos de ser, necessariamente, artistas ou estar filiados a uma organização. O combate começa na mudança de atitude e comportamento. Não há nenhuma intenção de minimizar a acção da arte. Mas foi um pouco disso que apreendemos do discurso do ministro da cultura, Armando Artur, assim como do assessor para a imprensa e cultura da Embaixada dos Estados Unidos, Tobias Bradford.

A nossa geração pode ser perdida

Perante a doença, só há duas possibilidades para a nossa geração: deixar-se derrubar pelo HIV/SIDA e desaparecer ou, então, rechaçá-lo e perpetuar a espécie humana. Este discurso pode ser agressivo, mas o que sucede é que a SIDA está a ser bem-sucedido sempre que alguém encontra a morte por si causada. Isso é inadmissível.

Ficámos animados ao perceber, na coreografia apresentada, que na história da luta contra este mal os homens foram gloriosos. A humanidade será vitoriosa. Mas alguns golpes podem ser desferidos à referida pandemia agora, bastando para o efeito a mudança de atitude e comportamento. A SIDA será vencida. Até porque, convenhamos, ser positivo em relação àquele mal já não é sinónimo de morte.

Em certo sentido, ao apresentar- nos o texto de Jonathan Reed, Tobias Bradford não somente provou que todos podemos fazer algo na luta contra a SIDA, mas que caso não o fizermos e/ou se o fizermos mal, a nossa geração pode ser perdida. Aliás, a nossa (in)acção é metáfora disso:

“Sou parte duma Geração Perdida/ E recuso-me a acreditar que/ Posso mudar o mundo./ Sei que isso pode parecer um choque mas que/ A felicidade vem de dentro/ É uma mentira, e/ O dinheiro vai-me fazer feliz./ Portanto em trinta anos direi aos meus filhos que/ Eles não são a coisa mais importante na minha vida/ Os meus chefes vão saber que/ Eu tenho as minhas prioridades no lugar porque/ O trabalho/ É mais importante do que/ A família/ Digo-te algo:/ Há muito tempo/ As famílias eram unidas/ Mas na minha era não vai ser assim/ Esta é uma sociedade à procura de soluções fáceis/ Os peritos dizem-me que/ Daqui a trinta anos vou estar a celebrar o décimo aniversário do meu divórcio/ Não aceito que/ Vou viver num país da minha própria criação/ No futuro/ A destruição ambiental vai ser a norma/ Já não se pode dizer que/ Eu e os meus pares nos importamos com esta terra/ Será evidente que/ A minha geração é apática e letárgica/ É tolice presumir que/ Há esperança”. (Sic.)

Como se pode perceber, o poema de Jonathan Reed – o qual transcrevemos integralmente – é desolador. Fala-nos de uma geração inerte diante dos problemas sociais com que se defronta. No entanto, lido em sentido inverso, ou seja, do fim para o início, traz-nos uma mensagem revigorante.

Revela e comprova que a nossa geração além de activa, pode ser proactiva – imbatível. Leia o texto na outra perspectiva – do fim ao princípio – para que possa perceber que, de facto, “(…) recuso-me a acreditar que/ Sou parte duma Geração Perdida”.

Verdadeira arte abraça grandes causas

Convenhamos então que o ministro da Cultura, Armando Artur, diante do que viu reitere que a verdadeira arte é aquela que abraça grandes causas. Primeiro porque, segundo Artur, “o Showesia é uma disciplina artística agregadora que envolve várias expressões culturais, poesia, canto e dança, etc., numa só. E nós, como Governo, temos estado a acompanhar a sua evolução, de tal sorte que, doravante, de diversas maneiras, vamos apoiá-lo”.

Aliás, na actualidade, uma das grandes causas da luta das sociedades contemporâneas é o combate ao HIV/SIDA. Por isso, “o Festival Showesia abraçou uma causa nobre e, como tal, merece ser apoiada porque se apresenta como uma expressão artística comprometida com os problemas sociais”.

Segundo, o poema de que falamos, a par do Festival Showesia, “revitalizou em nós a esperança de que nós não pertencemos a uma geração perdida. A causa que abraçamos, esta luta contra a pandemia de HIV/SIDA, não está perdida”, considera Artur.

Um desafio necessário

Reconhecendo o acelerado desenvolvimento da Associação Cultural Showesia, assim como a expressão artística que ostenta o mesmo nome, mas acima de tudo a urgência de se disseminar a referida expressão artística – e a mensagem que este ano possui – por todo o país, Armando Artur lançou um novo desafio para os mentores e os mecenas da iniciativa, no sentido que garantir a sua participação no VIII Festival Nacional de Cultura, a decorrer de 11 a 15 de Julho na província de Nampula.

Enfim porque, efectivamente, “não podemos esperar do mundo aquilo que não fazemos por ele”, como comenta Tânia Tomé, é ”necessário que todos tenhamos informação, mas, sobretudo, que mudemos de atitude para que possamos quebrar o silêncio”.

Afinal, “a mudança começa no interior de cada um de nós”. Só assim podemos construir um mundo melhor. Um sonho comum está lançado, criar um mundo ideal, se estivermos prontos a prosseguir, a ideia de começar por combater o SIDA não é má.

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