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Corpos (talentosos que) transbordam dança!

Corpos (talentosos que) transbordam dança!

Mais de meio século depois, por ocasião do VIII Festival Internacional de Maputo recém-terminado, o conflito entre os povos norte-americano e porto- -riquenho que deu origem à coreografia West Side Story – uma das obras artísticas mais nobres da cultura estadunidense – teve como palco a Cidade das Acácias. Desta vez parte importante dos seus protagonistas foi composta por artistas moçambicanos. Eles são um talento esparso na rua implorando melhor aproveitamento…

Além de tornar Moçambique um destino artístico- -cultural, cada vez mais, recomendado no mundo, o VIII Festival Internacional de Maputo teve o mérito inquestionável de deixar manifesto que, no País da Marrabenta, artistas talentosos para qualquer expressão artística, quer seja o canto, quer seja a dança, por exemplo, existem em qualquer lugar.

Aliás, eles são a metáfora de algumas espécies arbóreas que, em tempos idos, legaram à capital moçambicana o topónimo Cidade das Acácias.

Caso o leitor não esteja de acordo com a posição, convenha que ela representa o parecer de alguns bailarinos moçambicanos que tiveram a singular oportunidade de participar, como protagonistas, na mais célebre obra da arte e cultura norte-americana, o West Side Story.

Uma história necessária

No anos cinquenta, nos Estados Unidos da América, o género de música Jazz torna-se emergente e conquista o seu espaço no coração do povo. A par disso, um conflito sem precedentes opõe os emigrantes porto-riquenhos – que rumavam para o País de Tio Sam – aos nativos.

A contenda ganha uma dimensão pronunciada no poente da América do Norte. No meio disso, uma louca paixão desabrocha entre dois membros dos grupos em conflito. Que importância teriam as diferenças que os opunham quando, mesmo assim, entre eles podia existir uma relação de cordialidade e, porque não, de amor?

Sucede, porém, que diante de alguns precedentes objectivos – como, por exemplo, a falta de instituições de ensino formal das artes no país – promovidos no exterior como embaraçadores da (boa) formação dos artistas moçambicanos, algum cepticismo instalou-se na mente dos artistas americanos que iriam trabalhar na mesma obra, e partilhar o palco com os nativos do país acolhedor do Festival Internacional de Maputo.

Aliás, a posição é correcta, afinal, para eles a arte é ciência, o que (em certo grau) para os moçambicanos também é válido, no entanto, com um pormenor que faz uma grande diferença: “Para nós, a escola da arte em nada mais serve do que salientar o talento e a criatividade artística entranhados em nós. Ela ajuda-nos a aperfeiçoar as nossas habilidades artísticas naturais. Confere-nos algum domínio técnico”.

Para além da dança…

O conceituado encenador norte- americano, Greg Ganakas, com créditos firmados em diversas produções artísticas do seu país, foi o director do grandioso musical West Side Story – produzido pela inquestionável Broadway. Na verdade, trata-se de uma narrativa universal para a a cultura da humanidade que se trouxe para Moçambique, com a finalidade de realizar uma abordagem um pouco mais africana.

Talvez, por estas e outras razões já mencionadas, Dani Chindiya que trabalhou com os bailarinos moçambicanos na preparação da obra, compreenda a dúvida em relação às capacidades do seu elenco, por parte do director do musical, Greg Ganakas, na efectivação do evento.

É como o artista conta: “Eles não acreditavam em nós. Bastou- lhes o conhecimento de que em Moçambique não havia escolas de dança, para os americanos pensarem que ela, como uma manifestação artística, não existia”.

De qualquer modo, “porque a história, a coreografia, as sequências do West Side Story já existiam – em formato de vídeo produzido nos anos de 1950 – resolvemos que podíamos preparar o espectáculo e ensaiar os bailarinos para que, assim que o director chegasse, não encontrasse muito trabalho”, refere Dani, o Dance Captain, acrescentando que “a grande dúvida do momento era se tal se podia efectivar”.

Aliás, o cepticismo sobre a capacidade dos artistas moçambicanos não somente havia entre os artistas americanos como também na própria directora do evento, Moira Forjaz. No entanto, diante do trabalho feito, quando a directora do festival se apercebeu de que a obra estava a evoluir, ficou maravilhada de tal sorte que comunicou sobre o feito à equipa americana.

Refira-se que, “antes de verem o vídeo que retratava a evolução do ensaio, os americanos tinham planos de fazer a coreografia de modo que não permitisse a nossa visibilidade. Ou seja, a ideia era disfarçar a nossa suposta falta de qualidade ou conhecimento em relação à dança”. Como tal, “haviam planeado trabalhar no sentido de ofuscar o nosso aparecimento no concerto com base numa indumentária de roupas pretas”, reitera.

Um dado curioso é que, “quando chegaram a Maputo os norte- americanos ficaram emocionados perante o trabalho que havíamos feito. Recordo-me de que uma das bailarinas chorou – não somente pela nossa habilidade na dança, mas acima de tudo pelo trabalho realizado e pela forma como nós encaramos a dança”.

É por todas estas razões (e outras) que Mariane, uma bailarina moçambicana que participou no Festival Internacional de Maputo, pela primeira vez este ano, se sentiu impelida a comentar que “quando nós, os moçambicanos, dançamos transmitimos algo muito mais profundo que os outros artistas profissionais, inclusive de Broadway não possuem. Eles, os profissionais de Broadway, têm corpos bonitos e uma capacidade invulgar de flexão, mas isso não pode ser equiparado à alma que os moçambicanos têm na dança”.

Uma vontade necessária

Outro comentário pertinente é o feito por Sharon (uma bailarina moçambicana com um percurso artístico de pouco mais de cinco anos e que teve o primeiro contacto com a disciplina da dança nos certames de bailes de finalistas que a sua escola tem realizado) quando acrescenta que “é importante a experiência de intercambiar conhecimentos e aprender de artistas profissionais como o director norte-americano Greg Ganakas.

Durante os dias em que o evento decorreu, notou-se a participação de muitos artistas moçambicanos, e não só, vindos de outros países. Penso que a interacção que se promoveu foi muito positiva. O facto de haver um número maior de participantes nacionais é vantajoso porque contribui para a evolução das nossas artes”.

No entanto se, para Sharon, os artistas vindos de outros países – os americanos em particular – estimaram o facto de o povo moçambicano ter interpretado uma obra que é um ícone da sua cultura, por outro lado, a bailarina expressa uma dúvida em que se abriga um desejo de ver o seu país crescer.

É que “eu não sei qual é que será a capacidade dos moçambicanos para fazer o Festival Internacional de Maputo de si para si”. Ou seja, “a competência de podermos trabalhar sozinhos e realizarmos as coisas, porque, conforme digo, a experiência do intercâmbio com os artistas de outras partes do mundo foi muito positiva. Mas penso que se nós fôssemos capazes de montar obras desta envergadura sozinhos seria muito bom”.

De uma ou de outra forma, com ou sem escolas de arte, o mais importante é que, para os artistas moçambicanos, o VIII Festival Internacional de Maputo provou que, em Moçambique, “o talento para as artes encontra-se espalhado na rua. Imaginem se nós tivéssemos escolas de arte! O nosso país seria a capital universal das artes”, afirma Dani a terminar.

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