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Toma que te dou: Há um mês que não durmo

Estou a atravessar um momento tremendamente assustador. Tenho tido crises constantes de pânico, e nem a minha aproximação a Deus me ajuda a superar este desfiladeiro íngreme. Não durmo. Basta fechar os olhos para caírem sobre mim todas as espigas de aço instaladas no inferno.

Procuro a fortaleza nas colossais quantidades de álcool que vou ingerir, e nada! O sono não me quer dar o descanso. Ligo o televisor e os programas que estão no ar são aborrecidos. Poxa! Desligo o aparelho.

Não posso ouvir música porque a minha sala de visitas está aqui perto do quarto onde a minha mulher está a dormir profundamente. Espreito lá fora e não vejo nada, senão os sinais do néon instalados na varanda das casas vizinhas.

Não oiço nada também, senão espaçadamente o piar dos mochos, ao longe. Quero ler um livro e o primeiro título que me aparece é Ualalapi, do Ungulani Ba Ka Khosa. Já li mais de mil e uma vezes esta obra-prima e não me importo de voltar a ela.

Aliás, sempre que leio esta enxurrada de emoções é como se estivesse a desvirginar uma donzela, já pronta para a vida. Mas desta vez não consigo ler o Ualalapi, ele recusa-se a dar-me o prazer e, por via disso, o sono que não vem. Que não quer vir. Estou a sofrer uma dilacerante tortura.

É como se estivesse em Guantánamo, onde os americanos inventaram uma das piores torturas para os suspeitos de terrorismo, precisamente a tortura do sono, que consiste em não deixar os prisioneiros dormirem.

E o horror em si que desce sobre mim e eu não posso fazer seja o que for para me salvar a mim mesmo deste poço de fogo e espigas de aço. Volto ao quarto e a minha mulher está a dormir como uma criança, sem dar conta de que eu estou a sofrer. Bastante.

Sento-me à beira da cama, sob a luz ténue que vem da lâmpada acesa da varanda. Olhando para a minha amada, que agora se vira lentamente para encontrar outra posição que a vai reconfortar. Ela está a dormir como um anjo, e isso faz-me bem a mim.

Rejubilo sem limites quando consigo pôr a minha companheira feliz. Aliás, com a idade que tenho, o mais que eu quero é ver minha mulher feliz, e ela parece estar. Não tenho a menor dúvida. E não lhe posso contar o drama pelo qual estou a passar, porque senão ela também não vai dormir. Deixo-a dormir, como uma criança pura, e, na verdade, esta minha mulher é um anjo de Deus.

Este Deus que não me vem socorrer, mesmo sabendo que sou incapaz de lutar contra este demónio que me calcina todos os dias. Revolto toda a minha memória para perceber este tormento e a resposta não demora a chegar. Sofro porque ando longe de Deus. E Deus está aqui mesmo, perto de mim. Olhando-me. Sem me tocar. E eu também não posso tocar a Deus, meu redentor.

Há muito que tenho ido para o lado contrário de Deus. Ele chama-me todos os dias e eu mando-O à fava. E ele ri-se de mim. Os faraós também se riem de mim. Descem com mais eficácia sobre mim, como agora, que não consigo dormir. Que me debato com serpentes enrolando-me o corpo.

Bebo muito a pensar que o diabo vai desistir de mim mas, quanto mais bebo, mais presente está o diabo. Merda! Apetece-me morrer, abrir uma fenda e enterrar-me sem cerimónias nenhumas, sem acompanhamento de ninguém porque não mereço nada disso. Quero morrer sozinho, sem ninguém por perto.

Quero morrer como um cão vadio. E apodrecer debaixo da terra com a minha merda toda. Quero morrer para viver de novo. Gosto da morte. Já morri várias vezes, e sempre retorno. Ressurjo do fénix. Sou pequenino como David e diante de mim está este Golias que vou triturar com as minhas mãos.

Ah, parece estar a vir o sol, o dia, estou a ver a estrela da manhã. Estou a ouvir agora o cântico inultrapassável das rolas que poisam diariamente no quintal da minha casa, e eu revivo. E digo: seja louvado Jehova!

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