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Escrutínio Escolar d´@Verdade: Não era cliente, era ladrão!

Cheia de talheres à venda, uma pasta pesava-me às costas. Como duas montras combinadamente baloiçantes, as minhas mãos, já habituadas ao peso, exibiam colheres de chá, colheres de sopa, facas de mesa e garfos.

Ambulava incansavelmente pelas tão movimentadas ruas dos bairros periféricos. Circulava com muita paciência quando certas ruas me levassem a desembocar nos mais frequentados dumbanengues, onde fazia clientes fixos e fiéis.

A minha boca de criança, pequena para tanto barulbo que provocava, ganhava uma forma geométrica completamente circular quando gritava e promovia, quase profissionalmente, os produtos de que dependiam as minhas refeições. Escola também.

– A swipunu halenu! – gritava para conquistar a atenção dos que não se apercebiam da passagem, não tão urgente, do pequeno retalhista de talheres.

– I male muni? – Os interessados perguntavam os preços. Senhoras de capulana e lenço foram maioria dos meus clientes. Estava-se nos dias em que as pontas das capulanas ainda tinham restos de salários dos mulumuzanis.

Aliviava-me do peso da pasta em cada encontro com clientes. Vendia uma dúzia de colheres de chá aqui.Vendia duas dúzias de garfos ali. Vendia meia dúzia de colheres de sopa acolá.Vendia, vendia e vendia.

– Khanimambu fraguejo – dizia a cada cliente em cada venda que efectuasse. Contava o dinheiro, abençoava-o com um sorriso e metia-o no bolso mais pequeno da pasta.

Contemplei o rosto, quase fantasmagórico, de um novo cliente, que me parara para apreciar o meu produto numa rua não tão distante do dumbanengue que acabava de deixar. O cliente era jovem e dspertava-me medo com os seus olhos vermelhos. Pareciam ter sido pintados a cor do fogo. A boca torrada com fumo de cigarros e soruma, era negra, muito negra. Parecia bife grelhado na lenha em fraca combustão a libertar muito fumo.

O cliente escolheu dúzias e dúzias de garfos, de colheres, até de facas de mesa. Agradeci por dentro. A minha alma antecipou o habitual khanimambu porque nos subúrbios vendia mais colheres e garfos. Das facas nem queriam saber o preço.Talvez fora por questões do civismo que ainda estava em expansão. Se poucos comiam a garfo, quantos usariam faca de mesa?

– Quero pagar isto tudo, faça as contas e diga quanto é que pago – disse o jovem já com muitos jogos de talheres nas mãos. Calculei cuidadosamente – quinhenthxu contu – disparei o preço certo com um português ajeitado.

– Olha, eu vivo aqui nesta casa – disse indicando a casa mais imediata – vamos entrar que preciso de levar dinheiro para pagar tudo o que levei – concluiu já a abrir alguns passos. As dobradiças da porta de zinco do quintal chiaram. Entrámos.

– Fica aqui no quintal, vou levar dinheiro lá dentro – disse ele e obedeci. Meia volta, o jovem saíu – miúdo, as minhas tias que me vêm visitar querem ver o teu negócio. Dá a pasta, vão comprar tudo – cedi a pasta, satisfeito. Não me lembrei de tirar o dinheiro do bolso da pasta. Dei tudo. O jovem levou horas a fio sem ressurgir pela porta da casa por onde entrou, facto que me deixou não só preocupado, mas também desconfiado.

Cansado de aguardar, bati a porta até me doer o pulso. Ninguém respondeu. Num gesto de desespero, de coragem e de arriscar, empurei a porta e me lancei dentro. Vi-me num apartamento sem nenhuma divisão. Ninguém lá estava, e uma outra porta semi-aberta via-se a contraparede.

– Não era cliente, era ladrão! – Chorei

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