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Na rota dos ‘pecados’ noctívagos

Na rota dos ‘pecados’ noctívagos


A actual juventude maputense bebe mais do que nunca. Aliás, hoje, bebe-se muito mais cedo, mas não é só o álcool que faz parte do itinerário da juventude noctívaga: droga e prostuição completam o rol das prioridades juvenis.

São 23 horas de uma quarta-feira chuvosa, a cidade ainda dorme, mas uma carrinha acaba de cruzar a Eduardo Mondlane, em pleno miolo do grande Maputo. O destino é a ´zona quente´, na baixa da cidade. A dirigir o Pajero made in Dubai está Telma, 25 anos, universitária. Com ela viajam as amigas inseparáveis Joelma, 18 e Dulce 14 anos. A parte traseira do carro está ocupada por dois jovens e um adolescente: Zetó, 35, Márcio, 27 e Nandinho, 16. Mas, antes de chegarem ao destino fazem uma “escala técnica” numa loja de conveniência de uma bomba de combustível para tragar os primeiros copos da aventura.

Por detrás destes seis jovens esconde-se uma história de vida igual à da maioria da sua geração que parece ignorar que está à beira do precipício. É que até a meia-noite eles já beberam mais do que o socialmente recomenado. Ainda assim, seguram garrafinhas (que também chamam ampolinhas) e, encostados à parede de um bar da zona (‘quente’), continuam a beber.

No interior, na pista de dança, incompreensivelmente repleta para uma noite de quarta-feira, a turma feminina está a mais. E, por tabela, mais à-vontade do que eles. Mas todos eles recitam, em coro desafinado, os considerados sucessos da nova leva de músicos emergentes da praça: “Você sabe bem” (de Hermínio) e “Está noite vou fazer streep tease” (de Valdemiro José) que por estas alturas mexem com a classe e já se converteram nos seus hinos predilectos.

Aqui – e noutros bares circunvizinhos – não se pode fumar desde 1 de Janeiro de 2008. Mas “eu não tenho paciência para ir fumar lá fora e não vivo sem tabaco”, confessa Telma, essa que veio de Nampula, propositadamente, para se dedicar à profissão mais velha do mundo: a prostituição. E, com base nisso, estudar (este ano vai fazer o terceiro ano do curso superior de gestão empresarial numa faculdade privada). Por isso: “Preferimos ficar aqui dentro a curtir o som”, acrescentam Joelma e Dulce, as duas inseparáveis companheiras da noite.

Uma servente de mesa confirma a nova tendência desta geração noctívaga: desde que a Lei anti-consumo de tabaco em locais fechados entrou em vigor, o consumo de “álcool disparou em flexa. E são elas que – atacadas pela fobia de ir fumar lá fora – preferem beber mais para suprir a ausência daquilo que os médicos consideram ser a principal causa de morte no mundo: cigarros entre os dedos. Aliás, é comum surpreender jovens a fumarem nos ‘WC´s’ ou mesmo no palco de dança, numa claro afronta à lei, aos donos dos bares e aos restantes convivas.

Comandados pelo vício da boca, gerentes de clubes nocturnos já descobriram um novo fenómeno: em contraponto, em noites chuvosas o seu negócio é mais rentavel. A razão? Simples: quando chove, os jovens que, normalmente, se recusam a ficar entre os seus e vão beber às portas de bares, são forçados a invadirem os bares adentro.

Perigosas madrugadas eróticas

Lá fora a chuva continua a cair intermitente e não se enxerga a aurora nem se escuta o chilrear dos pardais e outros pássaros que anunciam que já é quinta-feira. Cá dentro, o álcool ingerido já começa a fazer efeito por metro quadrado: os turistas – sobretudo estrangeiros – ganham coragem para meter conversa com as moças que, por estas alturas, expõem a nudez. Aliás, é uma tarefa hercúlea distinguir a fronteira natural entre os seios e o umbigo.

E os noctívagos – idosos e jovens provavelmente casados – já no grau zero de lucidez, tornam-se presas fáceis para as “predadoras”, as famosas catorzinhas que também expõem os corpos para serem “caçadas”. É assim que o que antes era encarado como um prémio da relação amorosa, o prazer sexual, passa a ser mercadoria cuja transacção inicia mais cedo num mercado de livre concorrência.

São cinco ou seis da manhã, mas a festa na pista continua. Telma volta à pista de dança, depois de dois ou três serviços bem feitos a turistas estrangeiros “porque pagam bem”, cerca de 100 Dólares por coito no banco traseiro do pajero ou 200 Dólares se for no seu apartamento, com direito a água quente, café e massagens especiais. Hoje com 25 anos, Telma é apenas uma das que confessam que descobriu o mundo noctívago aos 12. Desde lá nunca mais conseguiu abandoná-lo. “Foi assim que consegui concluir a 12ª Classe, ter este ‘pajero’ e entrar na universidade”, relata, sem o menor remorso.

Mais cedo, mais perigos !!!

A grande ‘revolução’ é este século XXI ter nascido embutido com um comportamento sexual de total ruptura em relação à família, à religião ou à sociedade. Sexo existe para dar prazer e para a procriação. Só que a juventude de hoje esquece facilmente que quando usado de maneira irresponsável, corre o perigo de contrariar o inimigo número 1 da humanidade: o SIDA!!!

Os bares da chamada zona quente da baixa de Maputo têm todo o tipo de clientes que podem levar qualquer um para a desgraça: dos idosos ricaços (mas frustados com a vida) aos jovens independentistas (libertinos e novos showfistas) ainda é bem possível enxergar a turma dos mendigos que fingem pertencer à chamada “high socialite” mas que na sua mente ainda acreditam que o futuro melhor está a caminho. Há também a turma dos mafiosos e ladrões de toda a espécie e alcoólatras incorrigíveis.

Se excluirmos a modéstia e fizermos fé num estudo recentemente efectuado pela Afriservey Consultoria e Pesquisas, há que também acreditar que os jovens do Grande Maputo são os que passam mais tempo a beber copos à noite em “pub’s”, discotecas e barracas. Na capital moçambicana, a turma noctívaga vai pelo menos a dois ou três bares/discotecas. Mesmo que de longe isto não deva significar que os jovens do resto do país não frequentem clubes nocturnos, o certo é que, se uma catorzinha prostituta pode arrecadar entre 250 a 500 Dólares (7.500 a 12.500 meticais) é verdade, também, que numa só noitada alcoólica os moços maputenses, de entre 14 a 35 anos, são capazes de gastar mais do que os das outras cidades: entre 100 a 200 Dólares (2.500 a 5.000 Meticais)..

O mais curioso e assustador é que maioria desses noctívagos que tragam álcool ou drogas pesadas para fazer sexo comercial estão menos preocupados com o uso de preservativo ou contraceptivos. Um desses exemplos e muito comentado no bairro central-B é o da Mila, 20 anos, que chegou ao mercado sexual aos 12. Ela engravidou de um branco com idade do seu avô, mas rico e com alguns interesses económicos em Maputo. Ele é que não quer ouvir falar de aborto que a namoradinha roga há 3 meses, alegando, em vão, que não está(va) preparada para cuidar de um filho. Mas, as más-línguas já evangelizaram que a sua insistência em abortar é por temer que o futuro filho venha a travar as suas habituais aventuras noctívagas. Ignorante dos avanços medicinais, ela teme que os controlos pré-natais revelem o que há muito se suspeita: ser seropositiva, não fosse que ela mesma, já embriagada, anda a propalar aos quatro ventos: “ Eu não sei se vai nascer um negro ou branco: é que me meti com muitos homens ao mesmo tempo”.

O jovem sociólogo Shareef Malundah, que conduz uma pesquisa sobre o ciclo Juventude-HIV/SIDA-Desenvolvimento, diz que contra este mal só há um remédio: “As famílias devem rever a idade em que os filhos podem começar a sair à noite!”

 

 


 

 

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