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EDITORIAL: Morte anunciada

Rosália, empregada doméstica, algures no bairro da Polana aufere 1700 meticais de salário por mês. Pessoa pouca instruída, devido ao troar dos canhões de uma guerra fratricida e estúpida entre irmãos, foi obrigada a interromper os estudos e a mudar-se para a segurança do cordão da cidade capital.

Em Maputo encontrou um tio distante que lhe deu guarida, mas não lhe proporcionou educação formal. Na verdade, Rosália foi transformada numa serviçal. O que, no entender dela, nem era mau. Trabalhava muito, mas tinha o que comer e um lugar para dormir.

Meio perdida na grande cidade de pedra, Rosália deixou-se engravidar. Prontamente foi feita a cerimónia de lobolo e Rosália foi viver para a casa dos sogros, algures no Polana Caniço. Com 21 anos e sem nenhum tipo de formação para além da mestria nas lides domésticas, Rosália encontrou emprego como empregada doméstica de uma residência na Julius Nyerere.

Hoje, volvidos 10 anos, Rosália já é uma senhora na casa dos 30. Porém, ainda é empregada doméstica e não ganha grande coisa. O marido é funcionário de uma empresa de segurança onde ganha um mísero ordenado. Na verdade, só é possível chegar ao fim do mês por causa das sobras na casa onde Rosália trabalha.

Nem sequer há dinheiro para medicamentos quando os filhos adoecem. Mas isso não é problema. Ao longo dos anos, a empresa estatal FARMAC desenvolve um trabalho humanitário na área do fornecimento de medicamentos aos cidadãos.

Efectivamente, os medicamentos são sempre mais baratos nas farmácias públicas. Com cinco meticais (dinheiro que não chega para comprar um pão) um doente consegue adquirir grande parte dos medicamentos de que necessita. No sector privado um simples cartão com 12 paracetamóis custa 80 meticais, um valor insuportável para 90 porcento dos cidadãos deste país.

Esse, diga-se, será o novo preço da saúde uma vez que a função social da FARMAC está à beira do fim. O Governo manifestou a intenção de privatizar a empresa. Olhando para as taxas aeroportuárias aplicadas aos medicamentos importados, o Executivo de Armando Guebuza só pode estar a pensar na aniquilação colectiva dos cidadãos deste país.

Uma pessoa com níveis residuais de racionalidade não pode ficar indiferente, por isso, a uma eventual privatização da FARMAC.

Uma pessoa racional, diga-se, não pode cruzar os braços diante de tal hipótese. Se entregar a empresa a privados, por um lado, significa encarecer o preço dos medicamentos, por outro, é vedar o acesso à saúde ao grosso dos cidadãos moçambicanos.

Portanto, é legítima e oportuna a crítica do presidente da Associação dos Profissionais e Farmacêuticos de Moçambique no Magazine Independente, Luís Gouveia, segundo a qual “privatizar a FARMAC é uma autêntica asneira”. Concordámos em género, número e grau com tal visão e juntamo-nos às vozes críticas contra pretensão tão criminosa.

Quando Rosália soube que os medicamentos podem, num futuro breve, ficar literalmente inacessíveis ao seu bolso, as lágrims vieram-lhe ao mesmo tempo que perguntava: “Quem vai comprar os medicamentos para os meus filhos são as pessoas que fizeram a guerra que me impediu de estudar e ser gente?”.

Não respondemos. Até porque essa pergunta também é um pouca nossa. Não só pelos que deixaram de ser “gente” pelos estragos de uma guerra, mas por todos aqueles que vivem na cave da subsistência…

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