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Moçambique digital, ainda uma miragem

Moçambique digital

O futuro próximo da Televisão em Moçambique é a Televisão Digital Terrestre (TDT). Alguns moçambicanos sabem que a migração do sistema analógico, em uso, é uma inevitabilidade daqui a poucos anos. Não se sabe muito bem como a mudança vai acontecer e, para piorar o cenário, ninguém faz ideia de quem vai pagar os elevados custos daí decorrentes.

É sombrio o processo de migração para a TDT em Moçambique, previsto para ter lugar em 2015 em comum acordo com outros países da África Austral.

Na passada quinta-feira, numa Conferência Internacional que aconteceu em Maputo com o tema Rádio e Televisão Digital Terrestre, o nosso Governo mostrou muita ignorância sobre os desa fios que esta mudança requer.

O vice-ministro que tutela as comunicações no nosso país, Eusébio Saíde, começou por a firmar que o Governo está comprometido com o processo mas, pasme-se, interrogou-se se em Moçambique ainda eram vendidos televisores analógicos!

O governante sugeriu ainda que a partir do próximo ano o Governo poderá proibir a importação de televisores analógicos. Nada mais absurdo. Primeiro porque pelas nossas fronteiras entram e saem habitualmente diversos produtos proibidos mas também porque os fabricantes de televisores já não estão a produzir aparelhos analógicos – o leitor se vive em Maputo terá reparado na descida acentuada dos custos dos televisores nas casas da especialidade.

Por outro lado, o vice-ministro dos Transportes e Comunicações ignora que os televisores analógicos, e mesmo os digitais existentes no mercado nacional, poderão ser receber o sinal da TDT bastando para o efeito os seus proprietários adquirirem um descodi ficador (setup box) onde conectam as antenas que possuem e os televisores que tenham.

Mas a final o que é a TDT?

A TDT – Televisão Digital Terrestre – é uma tecnologia que permite a transmissão digital do sinal de televisão, oferecendo uma qualidade muito superior e permitindo uma utilização mais e ciente do espectro radioeléctrico, o que proporciona espaço para mais canais de televisão, permitindo agregar outras funcionalidades à televisão, com destaque para uma maior interactividade.

A transmissão digital vai substituir com vantagem a transmissão analógica, nos vários tipos de suportes, tais como cabo, satélite e radiodifusão terrestre.

O grande diferencial da TV digital é a capacidade de fornecer aos telespectadores novos serviços que antes não eram possíveis no sistema analógico. De entre estes serviços, destacam-se:

– A gravação de programas, que possibilita o armazenamento num disco rígido dentro do aparelho para exibição posterior, mesmo quando o espectador estiver a assistir a outro canal;

– Acesso à Internet; Sistemas computacionais;

– Jogos electrónicos;

– As recepções móveis, que dizem respeito à captação em meios de transporte ou em receptores pessoais portáteis (telemóvel);

Estas e outras aplicações devem- se, principalmente, ao facto de a TV digital proporcionar a interactividade com o espectador, por meio de um canal de retorno.

O drama é que, para infelicidade dos países subdesenvolvidos como Moçambique onde o acesso à televisão ainda é um luxo para apenas cerca de 40% do povo, esta mudança não é uma opção mas uma imposição. Ou mudamos para a TDT, ou não já assistiremos à televisão.

Conteúdos digitais

Sendo uma inevitabilidade, é preciso estarmos preparados para a TDT. E o desa fio não é só para os telespectadores mas também para os operadores de televisão. Se olharmos hoje para Maputo (que não representa todo o país mas é onde se concentram todos os canais de televisão em sinal aberto) existem sete canais de televisão nacionais, porém a qualidade da sua programação deixa a desejar.

Salvo a televisão pública que produz mais de 60% dos seus programas, nos restantes canais aquilo a que assistimos são “enlatados” internacionais na maioria dos casos pirateados – desde música à sétima arte.

O grupo Soico, proprietário da STV, a firmou através do seu representante na Conferência, Enoque Jerónimo, que decidiu interromper a exibição de programas cujos direitos não tenham sido comprados e que está a trabalhar com os artistas nacionais para encontrar formas de pagar pelos seus direitos autorais. Nada mais natural. Errados estão todos os outros canais que mantêm na sua programação conteúdos roubados.

A TDT, muito mais do que a qualidade técnica do sinal, confere-nos a possibilidade de termos uma televisão efectivamente interactiva onde o telespectador não só faz perguntas ou envia mensagens aos participantes nos programas mas também pode respostas em tempo real, ter acesso a informação adicional sobre o que está a ver ou simplesmente ver quando quiser os programas que lhe interessam.

Nos programas filmados com mais do que uma câmara, o telespectador pode até escolher que câmara prefere visualizar. É uma experiência fantástica poder ver um jogo de futebol – como foi testado no último “Mundial” na África do Sul – pela câmara que mais nos interessa ou que o telespectador decida ser mais interessante por mostrar melhor o seu clube ou atleta preferido.

Mas a realidade é que os operadores de televisão nacionais não estão preparados para produzir conteúdos com este nível de interactividade, nem de qualidade.

Apesar de a TVM a firmar que grande parte da sua produção nacional já é feita com meios digitais o facto é que ainda não é possível, por exemplo, saber em tempo real qual é a programação deste canal para o próprio dia quanto mais ter acesso a informação detalhada sobre algum programa a que estejamos a assistir. Quantas vezes não vemos imagens sem qualidade de vídeo ou mesmo de som?

O sinal digital é apenas a forma de transmissão e captação da imagem e do som. O operador de televisão instala um transmissor digital e o usuário de TV precisa de um aparelho com recessão do sinal digital.

Para receber a programação com a qualidade de imagem perfeita, é necessário que o operador tenha uma produção em alta de finição ou em HD (do inglês Hight De finition). Algo que ainda não existe em Moçambique e, pelo que temos visto, apenas alguns operadores parecem estar preocupados em oferecer aos seus telespectadores uma imagem de alta qualidade.

Portanto, se a produção de programas para televisão já é cara vai ficar ainda mais cara com a TDT. O desa fio que se impõe aos operadores é encontrarem formas de suportar estes custos num mercado publicitário ainda pequeno e muito selvagem.

Quem paga?

Mas os custos da TDT não começam na produção de programas, mas sim no investimento que deve ser feito no transporte do sinal até aos telespectadores, passando pelo custo que os telespectadores vão ter para receber o sinal e até mesmo nas campanhas de comunicação e sensibilização sobre todo este processo, que não é simples nem fácil.

Hoje os vários operadores de televisão em Moçambique investiram em redes próprias para levarem o seu sinal ao país. Com a TDT esses transmissores deixam de ter uso, pelo menos para televisão, pois o Governo pretende criar uma empresa pública que fará o transporte do sinal digital aos moçambicanos.

Conceptualmente esta empresa investirá nas infra-estruturas necessárias e os operadores pagarão pela transmissão do seu sinal. Ora, sendo empresa pública, o investimento será do Estado, ou melhor do povo moçambicano e dos doadores que hoje ainda suportam cerca de 50% do Orçamento Geral do nosso país.

Por outro lado, existe o investimento que os telespectadores terão que fazer para poderem continuar a ver televisão. Este investimento pode ser numa setup box, que vai permitir aos televisores analógicos que todos temos receberem o sinal digital, embora sem tirar real partido de todas as funcionalidades que a TDT possui, ou então num televisor digital (IDTV) preparado para receber o sinal digital em padrão europeu (DVB-T2) que Moçambique decidiu adoptar.

Nos vários países onde a migração digital está a acontecer foram criadas formas de garantir que a maioria dos telespectadores não sofresse um “apagão” com a TDT. Por exemplo, alguns países subsidiaram, total ou parcialmente, a compra de setup box´s para os telespectadores com menos poder de compra. No nosso caso este subsídio seria para a grande maioria dos telespectadores e, quiçá, para os futuros novos telespectadores no Moçambique real.

Num país onde as prioridades se centram em questões básicas de saúde, educação, acabar com a fome, etc., vai ser necessário um esforço suplementar para encontrar financiamento para a migração Digital que, olhando os custos em outros países, deverá ficar em várias centenas de milhões de dólares americanos.

Inclusão social

Nos países desenvolvidos o advento da TDT possibilitou uma maior cobertura territorial particularmente para os operadores de televisão com menor capacidade nanceira, anteriormente, que passam presentemente a cobrir a totalidade do país.

O nosso país o Governo alinha pelo mesmo diapasão a firmando mesmo que a TDT será mais inclusiva, portanto mais moçambicanos poderão a passar a ver televisão com a chegada da TDT. Nada mais errado.

Hoje as comunicações entre o norte, centro e sul de Moçambique são em larga medida asseguradas por uma fibra óptica problemática, gerida pelas Telecomunicações de Moçambique (TDM).

É habitual esta rede nacional de transmissão de dados, que não cobre todo o país, ter cortes deixando em “blackout” vários centros urbanos.

Embora ainda não esteja decidido, é provável que seja através da “espinha dorsal” das TDM que a TDT seja levada aos telespectadores moçambicanos. Ora esta rede não cobrindo o país não poderá garantir que a televisão seja vista por todos.

Existe ainda a barreira financeira. O custo de comprar um setup box ronda hoje os 1.500 Mt, nos mercados internacionais, e este não é acessível à maioria dos moçambicanos que vive com o salário mínimo e nem mesmo àqueles que nem sequer têm um rendimento fixo mensal.

Para assegurar os custos da empresa que transporta o sinal digital, nos vários países onde o processo está a decorrer, foi criada uma taxa que os telespectadores pagam para assistir à televisão, algo similar à taxa de radiodifusão que hoje temos de pagar apesar de nem todos ouvirmos ou possuirmos rádio. Em alguns países a taxa é anual, noutros mensal.

Facto é que a televisão em sinal aberto na era da TDT não será gratuita e isso poderá ser uma causa para excluir do acesso à informação – um direito consagrado na nossa Constituição – milhões de moçambicanos que não têm meios financeiros para pagarem estes custos.

A nossa migração ainda nem começou

Na Conferência Internacional sobre a Rádio e Televisão Digital Terrestre da passada quinta-feira (30) foi possível conhecer como decorre a migração digital em vários países desenvolvidos. Salvo nos países nórdicos, da Europa, este processo de migração levou mais de quatro anos e não está terminado.

O processo de migração em Moçambique começou há pouco mais de um ano, com a criação da Comissão Nacional de Migração Digital em Fevereiro de 2011. Neste período poucas acções práticas acontecerem. Até hoje esta comissão só produziu um documento inicial, “Draft”, do que será a nossa estratégia para chegarmos à TDT.

O caminho é muito longo. Comparando com o exemplo da migração na Itália, onde o processo aconteceu em três grandes fases com 53 passos fundamentais, há motivos para ficarmos preocupados pois ainda nem sequer estamos no passo inicial que é termos uma estratégia aprovada de como chegaremos à Televisão Digital Terrestre.

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