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Moçambique: Como algumas canções perpetuam o patriarcado, por Bayano Valy

“Essa dama é uma goya, xipixe xa nova xa kufana ni lexiya (gata selvagem parecida com a outra…)” Este é o trecho de abertura de uma pretensa canção do pretenso género musical Pandza, que, à partida, parece pretender criticar o comportamento considerado promíscuo de certas mulheres.

A tal pseudo-canção é da autoria dos Cizer Boss, com a participação de um tal Dey. Portanto, são jovens do sexo masculino que talvez pretendam interpretar o social através das suas pseudo-canções. E no vídeo aparecem moças, as tais goyas, a dançarem com movimentos obscenos.

Obviamente que tanto a canção como o vídeo são a representação de uma subcultura musical eivada de violência e sexismo à la “gangster rap” norte-americano. O conteúdo resume-se à objectivação sexual da mulher e seu corpo – nos Estados Unidos, alguns pesquisadores têm vindo a fazer estudos muito interessantes que até certo ponto estabelecem uma correlação entre os “raps” violentos e desumanizantes e a alta do crime, especialmente dos casos de estupro.

Talvez em Moçambique precisemos de fazer estudos para ver até que ponto as mensagens e conteúdos (?) Pandzas não estejam a perpetuar os estereótipos do género, e a ajudar na manutenção do sistema patriarcal que insiste em querer controlar o corpo da mulher, isto é, a mulher não pode decidir por si o que pode ou deixar de fazer com o seu corpo.

Quando uma mulher aparentemente adopta “comportamentos masculinos”, é logo etiquetada com as mais violentas e negativas etiquetas. É só ver, por exemplo, quando se diz popularmente que “mulher que trai é uma puta, mas homem que trai é macho”.

Existe, pois, uma grande dualidade de critérios na adjectivação. O mesmo comportamento quando praticado por uma mulher assume uma conotação negativa e quando praticado pelo homem adquire uma conotação positiva. É preciso vermos que isso enquadra-se dentro duma lógica dominante cuja raiz é o sistema do patriarcado.

Sendo que o patriarcado é um sistema social no qual o homem é que organiza o social e exerce a autoridade sobre as mulheres, os filhos e bens materiais e culturais. Sendo por isso sintomático que uma das fortes características do patriarcado é o controlo da sexualidade feminina. No que toca à sexualidade masculina, ensina-se o modelo do homem macho e viril como tipo ideal para garantir a continuidade da dominação masculina sobre a mulher.

Não foi por acaso que Thaddeus Russell, no livro “A Renegade History of the United States” disse que: “No século XIX, uma mulher que tivesse uma propriedade, ganhasse altos salários, fizesse sexo fora do casamento, tivesse realizado ou recebido sexo oral, usado métodos contraceptivos, convivido com homens de outras raças, dançado, bebido ou tivesse o hábito de caminhar sozinha em público, além de usar maquilhagem, perfume, roupa de estilo – e não se envergonhasse – era, provavelmente, uma prostituta”.

E esta forma de olhar para uma mulher senhora de si e do seu corpo ainda persiste nos nossos dias. Portanto, a pseudo-canção do Cizer Boss não existe num vácuo. Ela existe dentro desse contexto do patriarcado e da sua perpetuação. Por outras palavras, a mulher deve-se guardar e o homem deve-se espalhar.

O interessante é que sem a existência das tais mulheres consideradas “goyas”, os homens não teriam sítio por onde se espalhar. O que torna qualquer crítica masculina às mulheres que não conformam ao tipo modelo definido pelo patriarcado um tanto ou quanto irónica senão hipócrita.

Essas pseudo-canções ganham expressão com a introdução do Pandza. O Pandza tem mesmo o condão de ser praticado por jovens com um cunho de agressividade à mistura. O sociólogo Elísio Macamo disse há anos que o que o deixava intrigado “… nessa música jovem é a sua natureza lacónica. Não é nem sequer a temática sexual que essa é previsível, mas sim a forma bruta e agreste como ela é apresentada.”

Lacónica, sexual, bruta e agreste. O que me chama a atenção é a semelhança do nome “Pandza”, enquanto pretenso género musical, e “Panzer”, enquanto tanque alemão. Acho que ainda nos lembramos dos tanques tipo “Panzer” de Rommel. Verdadeiras máquinas de guerra; brutas e assassinas.

Socorrendo-me do “Xirhonga” da minha mãe, detenho-me na palavra “pandza”. Penso eu que vem da raiz “kuPandza”, isto é, rasgar, despedaçar, estilhaçar, rachar (por exemplo, nipandza ti hunye – racho a lenha). Como podem ver, essas palavras todas têm um q de violência nelas. O “Pandza”, pois, é violento. Violento no seu conteúdo; violento na sua instrumentalização.

E é esta violência que consumimos passivamente no nosso dia-a-dia; e para além de, como homens, continuarmos a violentar fisicamente as nossas mulheres, usamos o Pandza para as violentarmos psicologicamente e perpetuar a noção de que a mulher não pode ter o controlo da sua sexualidade.

Bayano Valy é o Editor do Serviço Lusófono de Opinião e Comentário da Gender Links. Este artigo faz parte do Serviço de Opinião e Comentário da Gender Links

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