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Menor é raptada na Matola

Na manhã do dia 25 de Abril último, uma senhora que se fazia transportar numa viatura luxuosa, cuja matrícula não foi registada, deslocou-se à Escola Primária de Siduapa, sita no bairro da Matola Gare, no município da Matola, onde aliciou uma menor de oito anos de idade, identificada pelo nome de Dionísia Albino Chiconela, conseguindo convencê-la a entrar no seu carro, supostamente para lhe entregar uma encomenda enviada pela sua mãe residente na África do Sul. A partir daí, a criança desapareceu durante seis dias, tendo sido resgatada na Ponta d’Ouro, na província de Maputo, quando estava prestes a atravessar a fronteira para aquele país vizinho.

A cada dia que passa surgem novos relatos sobre crianças, adolescentes e jovens que escapam de supostos traficantes de seres humanos. Em relação aos casos que temos vindo a divulgar, a Polícia ainda não deteve nenhum indivíduo em conexão com os mesmos. Entretanto, pelas artimanhas a que os protagonistas desses actos vergonhosos recorrem para atrair as suas vítimas, é de acreditar que em Moçambique ainda existe uma rede bem organizada de homens de má-fé que seduzem os seus semelhantes para fins até aqui desconhecidos.

Segundo o relato da família de Dionísia Chiconela, esta foi levada para uma parte incerta por três indivíduos. A rapariga não sabe como foi parar nesse lugar mas lembra-se de que no dia em que foi sequestrada adormeceu – supõe-se que tenha sido drogada – e acordou num quarto escuro com fortes medidas de segurança. Os rostos das pessoas que lhe davam de comer estavam cobertos, por isso não sabe dizer quem são elas nem lhes pode reconhecer.

Refira-se que a miúda a que nos referimos, cuja fotografia não vamos exibir para salvaguardar a vítima e seus parentes, é albina, ou seja, sofre da ausência completa de pigmento na pele. Em alguns países africanos, os albinos são severamente “caçados” como bichos, sofrem amputações de braços ou pernas para fins supersticiosos, sobretudo porque se acredita que o sangue deles ou o cabelo ajuda a acumular riqueza.

Na Tanzania, por exemplo, onde se estima que existem 170 mil albinos, há anos, houve uma demanda assustadora por pessoas sem pigmento na pele porque se acreditava que a ingestão dos seus órgãos genitais secos eliminava a SIDA. Em contacto com o @Verdade, Rosalina Langa, avô da petiza, de 48 anos de idade, narrou que no dia em que a sua neta foi raptada não perdeu os sentidos só por um golpe de sorte. Eram cerca de 14h:00 e a menina, que frequenta a escola no período da manhã, nunca tinha estado fora de casa até essa hora.

A senhora pensou no pior devido a histórias horrorosas que giram em torno da presença dos albinos numa família, em particular, e na sociedade, em geral. A miúda, cujo pai biológico é desconhecido, desapareceu numa sexta-feira e no mesmo dia os seus parentes procuram por ela em vão nas esquadras, nas unidades sanitárias e nas casas mortuárias.

O sofrimento aumentava a cada dia que passava porque não se tinha quaisquer informações sobre o paradeiro de Dionísia. Para saber em que lugar ela se encontrava, Rosalina Langa e o seu irmão recorreram aos préstimos de um curandeiro residente no bairro do Hulene, na cidade de Maputo. O bruxo garantiu que a criança estava viva e se encontrava algures na província de Maputo.

O “feiticeiro” recomendou que a família intensificasse as buscas no distrito de Boane e na Ponta d’Ouro e que dentro de três dias a rapariga voltaria ao convívio familiar. Numa terça-feira, 29 de Abril, Rosalina Langa e o seu irmão contactaram a Polícia daquelas das duas parcelas da província de Maputo para informar que estavam à procura de Dionísia e que iriam “acampar” na fronteira entre aquele ponto do país e a África do Sul.

É que o curandeiro já tinha alertado para o facto de que eles iriam ver a miúda a ser transportada numa viatura azul e luxuosa. Os agentes da Lei e Ordem que se encontravam na Ponta d’Ouro ficaram estupefactos e perguntaram aos parentes de Dionísia como é que eles tinham conhecimento e certeza de que os raptores passariam por aquela via com a criança. Sem revelar as instruções dadas pelo bruxo, Rosalina e o irmão responderam apenas que pretendiam ajudar a corporação a fiscalizar cada carro que passasse dali, pois a menina podia estar a bordo dum deles.

Depois de pernoitarem alguns dias no sítio em causa, sem dormir nem um minuto, na madrugada da quinta-feira, 01 Maio, o desespero de Rosalina Langa e o irmão chegava ao fim e a viagem forçada e perigosa de Dionísia foi abortada. Os parentes da menor viram um carro com as mesmas características descritas pelo curandeiro e com a ajuda da Polícia interpelaram o condutor. Os agentes da Lei e Ordem ordenaram que o veículo fosse inspeccionado mas os ocupantes não consentiram. Volvidos alguns minutos de discussão, a Polícia fez valer a sua autoridade, e sob ameaça das armas em sua posse fiscalizou a viatura à força.

Ao aperceberem-se de que acabavam de ser descobertos, dois presumíveis raptores puseram-se em fuga mas a senhora que alegadamente teria levado a menor da escola não conseguiu escapar. No mesmo dia, Rosalina e o irmão submeteram Dionísia a exames médicos no Hospital Geral José Macamo, tendo os médicos garantido que a criança gozava de boa saúde e não corria nenhum perigo.

“Queremos que a senhora seja transferida para a esquadra da Matola Gare para podermos acompanhar o caso”, concluiu a mulher que exige justiça em relação ao sequestro da sua neta. Sobre este assunto, o @Verdade contactou, telefonicamente, Emídio Mabunda, porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) no Comando da Província de Maputo. Ele disse que desconhecia o assunto e na esquadra da Matola Gare não há nenhum processo sobre a ocorrência. Na quinta-feira (05), o irmão de Rosalina dirigiu-se àquele posto para saber se a suposta raptora ainda estava ou não detida. Para seu espanto, a senhora foi restituída à liberdade.

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