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Escrutínio Escolar d´@Verdade: Mbhoromani

Corriam os anos da década de noventa. Qualquer incidente lembrava os terrores dos bandidos armados, ainda respirados à memória cheia. Celeiros queimados. Gado levado. Crianças piladas e moídas como cereais. Mulheres violadas. Ah, país vandalizado.

O início do ano 2000 seria, no acreditar de muitos, o início das destruições apocalípsicas. Já o seu fim seria o fim do universo. O universo tinha, como se acreditava e se apregoava, o ano 2000 desta era como o limite máximo da sua existência. Nenhum vivente ousaria atravessar as fronteiras do tempo para experimentar outros anos. Chuvas imparáveis. Terramotos. Tsunamis. Dias sem sol e noites sem estrelas. Até demónios e diabo de carne e ossos eram esperados no suposto último ano do fôlego do universo.

Mbhoromani, o maior e mais famoso ladrão, assassino e violador de mulheres, era, depois de matsanga, a maior sombra do apocalipse que, supostamete, se avizinhava. Vivia em Maxaquene, em Mavalane, em Hulene, em Laulane, em todos e em nenhum bairro. Não havia pior forma de insultar alguem nos subúrbios de Maputo senão chamar-lhe Mbhoromani.

– Eyheee… xiduvukile – diziam os suburbanos correndo e saltando – Mbhoromani foi apanhado – ninguém acreditava que o fantasma humano, falhado em mil perseguições da polícia e de populares, poderia ser apanhado vivo. Crianças. Mamanas. Até idosos arrastavam bengalas a caminho da Escola Primária Combatentes da Luta de Libertação Nacional onde era exibido o demónio nascido de homens santos.

Muitos veriam Mbhoromani pela primeira vez. Antes, cada mente criava uma imagem fantasmagórica para o propalado nome do Mbhoromani. Panelas deixadas a ferver anunciavam queima. As lareiras esqueceram-se das cozinhas para verem a figura cujas obras prenunciavam o fim dos tempos.

Os populares chegavam aos pulos. Enchiam o pavilhão arenoso daquela escola implantada no bairro histórico, Forças Populares de Libertação de Moçambique, que separa Mavalane de Maxaquene e Aeroporto do Ferroviário. Mbhoromani viu-se rodeado de gente de todas as idades que rasgavam as bocas em cantares insultuosos que colocavam o seu nome no lugar onde fica o do diabo nas canções religiosas. Esperimentava ser retido depois de tanto escorregar.

– Afinal é uma pessoa normal como nós? – admiravam-se os que o viam pela primeira vez – não, não é normal este gajo. Parte grades metálicas da cadeia e esquiva-se de balas – corespondiam uns – deixem-no connosco – replivavam outros.

Sem resistência, Mbhoromani recebeu o seu troféu: um pneu da Mabor no pescoço. Riu-se como se visse tolos quando recebeu uma rega de petróleo. Entre aplausos do povo, um palito de fósforo cobriu-lhe de fogo. Há quem esfregava os olhos para melhor ver, mas a verdade é que o fogo consumia o pneu, mas Mbhoromani não ardia. Ria-se.

Mais um pneu e gasóleo. Apareceram nyangas que bateram na sombra do Mbhoromani. O demónio humano gritou. Correu de um lado para o outro com o fogo a prestar-lhe uma fiel cortesia. Ardeu. Para o espanto de todos, o esqueleto continuava a chorar aos gritos. Mais um pneu. Mais gasóleo. Viram-se cinzas de Mbhoromani que permaneceram muitos anos naquele lugar. Hoje há muitos Mbhoromanis tolerados.

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