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EDITORIAL: A mensagem que fica

A reunião de quadros da Frelimo, ou melhor, do Governo da Frelimo, foi uma viagem à realidade virtual daquelas que proporcionam parques de entretenimento. Estivemos, por três dias, na realidade alternativa, não em Moçambique. Ou seja, nunca, em tão parco espaço físico e de tempo, vimos no país tamanha demostração de força, tantos carros de luxo e tantos quadros seniores de instituições públicas reunidos. Em suma: temos dois países, o da Frelimo e o dos outros.

O problema, contudo, é que, na política e na vida pública, nem tudo se resume à cegueira selectiva dos filhos do sistema. O que esquecem, nestas manifestações de poderio financeiro e com tamanha prontidão, é que há vida para além do luxo. Há bolsas de fome, hospitais sem medicamentos e ambulâncias, madgermanes, antigos combatentes e jovens desempregados.

Há memória, concorrência desleal e luta pela sobrevivência. Há ressentimento diante do enriquecimento ilícito e da imagem abastada com que se presenteiam os desterrados da terra. Existe também um número cada vez mais ruidoso de jovens que não seguem o calendário festivo do Governo. E há, sobretudo, o funcionamento normal da sociedade e das instituições que não se compadece com este universo artificial e manipulado em que vivemos.

Também há pessoas de dentro que não se conformam com a posição de veículos de mensagens feitas como combate à pobreza, apóstolos da desgraça e derivados. Por exemplo, Ornília Machel, filha do primeiro Presidente de Moçambique independente, vê a realidade moçambicana com outros olhos e, ao contrário dos camaradas, afirma que não temos paz porque os níveis de analfabetismo e pobreza são muitas altos.

Um posicionamento, diga-se, diametralmente oposto ao discurso dos camaradas que continua igual a si próprios, ainda que a tranquilidade e o bem-estar de um povo se tenham vindo a esvair face ao custo de vida cada vez mais violento, musculoso e perturbador.

A cereja no topo do bolo, diga-se, veio da Televisão Pública que teve o desplante de interromper o seu telejornal para transmitir em horário nobre e para todo o país a cerimónia de encerramento da famigerada reunião de quadros. O que, compreendamos, não é estranho quando se sabe que seis mil refeições diárias, numa reunião partidária, foram servidas por uma empresa participada pelo Estado através dos Aeroportos de Moçambique.

Assim podemos depreender que se a TVM encontrasse um ministro a tentar arrombar um cofre no banco estatal transmitiria aos moçambicanos que Exa. estava só a apertar um parafuso. Afinal, também no caso das refeições não viu nada de eticamente duvidoso nem de moralmente reprovável.

De qualquer modo, seja qual for a conclusão, duas certezas ficam connosco. Uma: há muito dinheiro no país e é bem capaz de estar nas mãos de três mil pessoas apenas. Duas: este país teve sempre donos e os maus exemplos vêm de cima. Com estes hábitos, com este estilo, com esta obsessão pela ostentação e com esta prática de protagonismo e esbanjamento, a tão proclamada AUSTERIDADE não está em boas mãos.

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