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Inhagóia: um bairro esquecido

Inhagóia: um bairro esquecido

Localizado a sul do distrito municipal Ka Mubukwana, Inhagóia carrega ainda problemas que, para a maioria dos bairros periféricos da cidade de Maputo, parecem minimizados. Crescimento desordenado, fecalismo a céu aberto, miséria, falta de transporte e desemprego fazem da zona um lugar que todo o mundo quer deixar para trás.

A história deste bairro começou bem antes da independência e, em tempos idos, era conhecido como “receptáculo” dos recém-chegados da província de Inhambane. Porém, o tempo passou e os bitongas e os chopes já não constituem a maioria da população. Não obstante, até os dias de hoje Inhagóia é considerado o bairro daqueles grupos étnicos.

Os vestígios da passagem dos “bitongas” por Inhagoia são inúmeros e os enormes coqueiros são disso um exemplo, enquanto dos “chopes”, as mafureiras que sobressaem aos olhos de quem por lá passa vincam a passagem desta etnia pelo bairro.

Os nomes Nhagoiene e Ka Nhagóia são uma marca indelével da passagem dos bitongas e dos chopes”. Para os primeiros, o bairro chama-se “Nhagoiene” e, para os segundos, é nada mais, nada menos que “Ka Nhagóia”.

À semelhança de muitos outros bairros da cidade de Maputo, Inhagoia debate-se com sérios problemas de saneamento e distribuição da rede eléctrica, fruto de um crescimento desordenado. A ausência de parcelamento tem provocado o êxodo. Alguns moradores queixam-se da construção desordenada de casas que a cada dia que passa vai engolindo as ruas impedindo a circulação de veículos automóveis.

Porquê “Inhagóia”?

O secretário do bairro, Felisberto Soquiço, conta que o nome Inhagóia, vem da palavra “góia”. A história remonta ao período colonial, quando um cidadão português, de nome Lima, foi expulso da zona onde residia no centro da cidade, concretamente na zona em que hoje está erguida a Assembleia da República.

Lima foi, depois da referida expulsão, instalar-se na zona da ROMOS (Av. do Trabalho, em Maputo), onde hoje está instalada a empresa Toyota de Moçambique. Para seu azar, Lima foi mais uma vez expulso e, já cansado dessas idas e vindas, decide ocupar o espaço que hoje é tido por Inhagóia.

Com a sua chegada, os nativos, tendo tomado conhecimento da sua triste jornada, atribuíram- -lhe o nome de “góia”. Na língua Ronga, “goia” é o nome atribuído a um gato sem lar, que vagueia de casa em casa.

Daí, as pessoas que se dirigissem ao que hoje se chama de Inhagóia, sempre que o fizesse diziam “Hiya ka mwa Góia” (Ronga), o que traduzido para na língua portuguesa quer dizer “vamos à Goia”.

Os portugueses, que na altura colonizavam Moçambique, sintetizaram o “Hiya ka mwa Goia” usado pelos Rongas. Desta forma surgiu o nome do bairro e até hoje prevalece, com ou sem “góias”. Hoje o bairro está dividido em duas partes, nomeadamente “A” com 38 quarteirões e a “B” com 28.

Pântanos que perigam a saúde pública

A zona baixa do bairro, que é limitada pelo Vale do Infulene, é o maior local de concentração de mosquitåos. Constituída por terras argilosas, o mais agravante é o facto de existir capim, com altura desmedida, cujo crescimento parece impossível de se parar devido à humidade.

A zona pantanosa parece um ponto a que o desenvolvimento não chegou. As construções precárias com chapas de zinco a reivindicarem substituição são o melhor que se pode encontrar em termos de habitação. Porém, há também residências de caniço, de lona, papelão e de esteiras que surgem todos os dias.

Além das deploráveis condições físicas da zona, há vários outros factores que parecem contribuir para o iminente perigo à saúde pública, como é o caso da partilha de latrinas sem as mínimas condições de higiene. Em alguns casos mais de 20 pessoas servem-se da mesma retrete.

O mais grave é que a profundidade das covas que são usadas como latrinas é quase que nula, visto que, ao cavar-se os primeiros 50 centímetros, a água proveniente do lençol freático emerge impossibilitando a progressão das escavações.

Alguns moradores afirmam que dificilmente se faz uma latrina com mais de um metro de profundidade. Teoricamente, estamos a falar de um bairro da cidade de Maputo onde defecar a céu aberto é normal.

Há relatos de que Inhagóia nem sempre foi assim. Apontam-se as cheias de 2000 como o motor da desgraça que o bairro é hoje. Segundo os populares, a renitência de algumas pessoas face às mudanças, associada à procura de habitação própria, é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do bairro.

Na sequência das cheias, algumas pessoas foram retiradas daquela zona para outros bairros, com destaque para Magoanine “C” (Matendene), porém, grande parte regressou à antiga casa. Há também indivíduos que, vivendo em casas alugadas, viram, na saída das vítimas das cheias, uma oportunidade de usufruir dos mesmos “privilégios” destinados aos afectados pelas inundações.

Neste momento, segundo nos deu a conhecer o secretário do bairro, vinte das setenta famílias que ocupam a zona de risco, estão a ser retiradas para o bairro de Albazine. Das vinte contempladas pelo projecto, cinco serão retiradas ainda esta semana.

“Espera-se que, num futuro próximo, as restantes famílias sejam abrangidas pelo processo, porque o espaço que ocupam é propenso à ocorrência de cheias, bem como de doenças”, disse Soquiço.

Drama de morar num bairro intermédio

Olhando para a localização do bairro, parece inconcebível falar de problemas de transporte. Diz o ditado que nem todos os vizinhos da padaria comem pão todos os dias, o mesmo aplica-se à situação do transporte público.

Apesar de o bairro estar localizado à beira da Estrada Nacional número 1 (EN1), os moradores, à semelhança de outros munícipes de Maputo, clamam por transporte.

Alguns residentes sugerem ao Governo que crie condições para que alguns autocarros tenham como destino a paragem daquele bairro. Efectivamente, o facto de viverem numa zona intermédia faz com que os autocarros passem sempre cheios e que os residentes cheguem frequentemente atrasados aos seus compromissos.

Hospital incapaz

Mesmo com focos evidentes de eclosão de doenças diarreicas como a cólera, o bairro dispõe apenas de um pequeno posto sanitário.

O facto de existirem muitos pântanos contribui sobremaneira para o aparecimento do mosquito causador da malária. Sem um hospital de grande dimensão por perto, as pessoas são obrigadas a recorrer ao Hospital Geral José Macamo e, em alguns casos, ao posto de saúde de Bagamoio.

Adelaide Macave, residente no bairro há 22 anos, considera que a falta de uma unidade sanitária já contribuiu para a morte de muita gente, em situações que podiam ter sido evitadas. “Há gente que morre aqui por falta de primeiros socorros”, conta. Adelaide não pede muito, apenas roga ao Governo que potencie o centro de saúde, de modo que este possa prestar melhores serviços. Podiam até transformar o nosso posto num autêntico centro de saúde”, diz.

Mercado informal, formalizado

Diz o ditado que quando não se tem cão caça-se com gato. Inhagóia não dispõe de um mercado, diga-se formal, apenas de um conjunto de bancas que se foram aglomerando num único ponto, até que a administração do bairro concluísse que se estava diante de um mercado.

De acordo com o secretário, Felisberto Soquiço, as condições em que funciona o único mercado de Inhagóia são extremamente deploráveis. “O nosso mercado e péssimo”, disse Soquiço.

No referido mercado, por sinal, o principal, apenas se vêem montões de areia, nos quais as “mamanas” colocam os seus produtos. É nestes montões que se vende um pouco de tudo, desde o tomate até a própria areia.

Benvinda Machaca, vendedeira deste mercado há mais de cinco anos, disse que o mercado surgiu com a comercialização de petróleo avulso, cujos vendedores durante a noite se concentravam naquele lugar para transaccionar o seu produto.

Depois destes, a zona começou a ser invadida por comerciantes de hortícolas colhidas nas machambas do vale do Infulene. “Dali em diante, as pessoas começaram a trazer produtos para vender aqui e o mercado foi crescendo”, acrescentou.

Iluminados, mas sem água

A rede de distribuição de água, de acordo com Soquiço, é totalmente defi citária. A falta de parcelamento, diz, é a principal causa do infortúnio porque impede que sejam feitas canalizações.

Associado a esta situação, a degradação do material de canalização, dado que este remonta ao período colonial, tornam ainda mais precária rede de distribuição do líquido precioso.

Nos becos do bairro podem-se ver tubos cortados e contadores destruídos. Uma equipa do FIPAG tem estado a trabalhar no bairro com vista a melhorar a situação, segundo nos deu a conhecer Soquiço.

O mesmo não se pode dizer em relação à rede eléctrica que cobre neste momento 90% da população do bairro. Contrariamente à situação da água, a expansão da rede eléctrica é feita ligando-se as baixadas de uma casa para outra. Em alguns becos estão colocados postes de transporte de cabos, o que permite que haja disponibilidade de corrente eléctrica.

De acordo com o secretário Soquiço, estima-se que até no final do próximo ano a rede cubra 99% da população. Embora a cobertura seja satisfatória, Soquiço lamenta a recorrência de oscilações que acabam por destruir os electrodomésticos. São reportados três a quatro cortes diários no fornecimento de energia.

Bola e copos no fim-de-semana

O quotidiano de Inhagóia é difícil de decifrar. Há nele, uma mistura de coisas. Durante o dia, o maior destaque nesta parcela de Maputo é o futebol. Crianças jovens e velhos, de ambos os sexos concentram-se no único campo ali existente para assistirem a uma partida do desporto-rei.

Ali no coração de Inhagóia (na zona do círculo do bairro), o desporto é o “prato forte”. Não há motivos para duvidar de que foi ali onde a estrela do futebol moçambicano, Dominguês, evoluiu. Ainda no mesmo local, os amantes do basquetebol vibram com a modalidade, num campo onde as tabelas foram consumidas pelo tempo.

Quando cai a noite, a vida muda. Os bares ficam superlotados. As cervejas são o que mais se pode ver. Estas sempre apimentadas com música diversa e muita descontracção.

As barracas do mercado fazem, nestes dias, o seu maior lucro, segundo nos deu a conhecer Matias Mathe, proprietário de uma delas. “O fim-de-semana é mesmo para fazer dinheiro”. Um pouco distante das barracas, ouve-se o som de “xigubo”. Sem sombra de dúvida, percebe- se que estamos diante de um culto religioso perpetrado pela igreja Zione, no seu estilo característico.

Segurança e tranquilidade públicas

A situação de segurança neste bairro não se distingue de outros da cidade de Maputo. De acordo com os moradores, não se tem registado situações extremas no que concerne a criminalidade. Fala-se de agressões físicas que surgem como resultado das bebedeiras do fim-de-semana. De quando em vez, também há roubos. Em suma: a população local fala de tranquilidade.

Por seu turno, Soquiço reitera o dado avançado pela população indicando que o bairro vive um clima de tranquilidade.

Tentámos ouvir o chefe do único posto policial ali existente, mas este remeteu-nos ao comando da PRM da cidade de Maputo porque não estava autorizado a falar à Informação.

“Queremos uma escola secundária”

Com uma população de 16.408 habitantes, o bairro de Inhagóia conta com apenas duas escolas do nível primário. Para os níveis restantes, os residentes socorrem- se da EPC Unidade 2, que para além do ensino primário lecciona também o nível básico e secundário.

Outra opção para quem quer continuar com os estudos para além do nível primário é a Escola Secundária Zedequias Manganhela, localizada no bairro 25 de Junho.

Quando se perguntou ao secretário do bairro sobre o que se tem estado a fazer para colmatar esta situação, este referiu que, até agora, nada está projectado ao nível do bairro, e não tem conhecimento de qualquer projecto a nível do Governo central, que visa solucionar o problema.

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