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Mais um músico à deriva

Mais um músico à deriva

Se neste país a qualidade das obras de arte – até, sob o ponto de vista de conteúdo – fosse um factor determinante para a popularidade do autor, o jovem moçambicano Hullo Octávio Grammyo seria um dos mais famosos da nossa terra. Com 27 anos de idade, 11 dos quais dedicados à música, o artista, residente no bairro do Aeroporto, em Maputo, luta a fim de popularizar as suas obras. Entretanto, apesar do aparente fracasso, o criador tem metas claras – publicar, ainda neste ano, o seu primeiro trabalho discográfico. Terá de transpor algumas muralhas…

@Verdade: Enquanto músico, como se define na sociedade moçambicana?

Hullo Grammyo: Sou músico e compositor que se dedica à produção do estilo musical Pop, não obstante o facto de explorar outros géneros musicais como o R&B, o Ragga, a música electrónica, o Deep House, o House e o Jazz, incluindo alguns ritmos de música tipicamente africana.

@Verdade: Há quanto tempo se dedica à música?

Hullo Grammyo: Estou envolvido no mundo artístico há sensivelmente 11 anos. No entanto, a cada dia que passa avanço e procuro aprender mais sobre a música a fim de me profissionalizar.

@Verdade: Analisando o seu percurso e tendo em conta que já é longo a que ilações chegou? Está a valer a pena a sua aposta?

Hullo Grammyo: Da mesma forma que acontece com as outras formas de arte, em Moçambique não é fácil fazer música. Entretanto, apesar de ser difícil, e olhando para o trabalho que está a ser feito agora, acho que estão criadas as mínimas condições para se dar continuidade ao projecto já iniciado. Temos, para o efeito, de ultrapassar uma barreira básica – a resistência dos empresários em aceitar a possibilidade de contribuir para que os músicos sejam pessoas promissoras.

@Verdade: Na sua opinião o que faz com que os empresários não apoiem os jovens?

Hullo Grammyo: Acho que eles não acreditam muito nos projectos dos jovens, muito em particular, porque há muita juventude cuja obra não possui qualidade e, infelizmente, todos somos sancionados de igual modo.

@Verdade: Qual é o seu factor de diferenciação?

Hullo Grammyo: Além do beat, as minhas composições contêm boas mensagens – o que faz de mim um artista versátil com uma obra que possui qualidade para circular no mercado internacional.

@Verdade: Porque é que facilmente a área da música atrai artistas amadores, quando comparada com as outras formas de arte?

Hullo Grammyo: A música é o meio mais fácil que os artistas têm para expressarem as suas ideias e sentimentos. Por exemplo, as artes plásticas precisam de uma grande capacidade de interpretação por parte de quem as pratica e do consumidor. Talvez seja por essa razão que não são muito consumidas em Moçambique.

@Verdade: Na sua opinião, o que é que concorre para a pobreza, em termos de mensagem, que há nas composições da música dos jovens?

Hullo Grammyo: Há muitos ignorantes a dedicarem-se à música. O que não sei é se tal situação resulta da facilidade que as pessoas têm de iniciar uma carreira artística ou há outros factores. A verdade é que os músicos são incultos e não querem aprender.

@Verdade: Tendo em conta a imensidão das dificuldades que envolvem a prática musical, qual é a sua motivação para a sua dedicação?

Hullo Grammyo: Gosto da música. Há dois anos participei no Festival Showesia que é, na verdade, um concurso artístico e cultural, especializada na luta contra a SIDA, com a música Vamos Prevenir a SIDA. A obra foi sancionada favoravelmente. Compreendo que há muitas pessoas que apreciam o meu trabalho. Eles não estão satisfeitos com o facto de eu ainda não ter conquistado alguma visibilidade na Imprensa bem como no mercado, não obstante a qualidade das minhas obras.

@Verdade: Que factores têm em conta na elaboração das suas obras, muito em particular aqueles cujo enfoque é a luta contra os problemas sociais?

Hullo Grammyo: É muito importante que, antes de se emitir uma mensagem, se olhe para o nosso entorno social a fim de se perceber os desafios que nos envolvem. Por exemplo, em relação à música sobre a luta contra a SIDA, além da actualidade do assunto, fiquei a saber – através da Rádio – da existência do Festival Showesia, que continha um espaço concorrencial. Compus a obra e participei.

@verdade: Em que consiste o projecto Showesia?

Hullo Grammyo: Trata-se de uma iniciativa promovida pela escritora e cantora moçambicana, Tânia Tomé, com o objectivo de utilizar as artes – música, poesia, teatro e artes plásticas – na luta contra a SIDA, bem como na educação das pessoas sobre como resolver esses problemas sociais.

@Verdade: Como analisa, na actualidade, o envolvimento dos artistas moçambicanos no combate à SIDA?

Hullo Grammyo: Há artistas que se envolvem nesta forma de arte só por puro divertimento. Os resultados das suas brincadeiras reflectem-se na forma e no tipo de música que produzem. Ou seja, existem músicos em Moçambique cujas obras não emitem nenhuma mensagem educativa. Em contra-senso, a nossa sociedade, neste momento, ainda precisa muito de receber mensagens que contribuem para uma construção social favorável.

@Verdade: Canta preferencialmente em inglês. Existe alguma razão particular para esta postura?

Hullo Grammyo: Como havia dito, a minha música é internacional. Por isso, canto em português e inglês. Infelizmente não posso interpretar as minhas composições em todas línguas bantu. De todos os modos, as músicas estão disponíveis para serem cantadas nos idiomas locais.

@Verdade: Entre o músico e o produtor em quem recai a responsabilidade da produção de uma música fraca, sob o ponto de vista de mensagem?

Hullo Grammyo: A culpa é do músico porque, muitas vezes, os produtores ajudam em termos de ideias sobre como melhorar uma dada composição. O drama é que os músicos não acatam os conselhos.

@Verdade: Já procurou perceber porque é que as suas músicas não chegam ao mercado?

Hullo Grammyo: Tenho músicas gravadas desde 2013. De uma ou de outra forma, penso que a Imprensa moçambicana é muito corrupta. Os locutores e apresentadores de programas musicais dizem que preferem transmitir as obras de artistas famosos, mas o problema é que se esquecem de que ninguém começa uma carreira artística a partir da fama. Infelizmente, devo dizer, as pessoas que conhecem a minha música entristecem com o facto de as mesmas não serem tocadas das rádios. Eu já solicitei esse espaço, mas, os radialistas são indiferentes.

@Verdade: Quando é que pretende lançar o seu primeiro álbum?

Hullo Grammyo: Já estou a trabalhar para a materialização do meu projecto. A única dificuldade, aliás, a maior, é o acesso ao patrocínio. Mas, se tudo correr como previsto, gostaria de lançar o meu primeiro trabalho discográfico ainda neste ano.

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