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Mais um dia na vida atormentada da Costa do Marfim

Laurent Gbagbo, que no Verão de 1993 esteve no Norte de Portugal, num Festival da Juventude Socialista, e que se tem recusado a abandonar o poder depois de se ter dito que perdera a segunda volta das presidenciais de 2010, aceitou levantar o cerco que as suas forças têm feito ao hotel onde se encontra instalado o seu rival Alassane Ouattara.

De acordo com uma declaração distribuída em Abuja, a capital federal nigeriana, o velho professor de História, com muitas amizades no meio académico francês, prometeu levantar o bloqueio ao enorme Hotel Du Golf, quartelgeneral do Presidente-eleito que é um liberal formado nos Estados Unidos e com carreira feita no FMI.

Tal declaração foi feita pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), depois de o Presidente Pedro Pires, de Cabo Verde, ter ido por duas vezes a Abidjan com outros políticos africanos, para tentar acalmar os ânimos.

Pires tem a particularidade de, para além de formalmente partilhar a opinião geral da CEDEAO e da União Africana de que Ouattara é o justo vencedor da ida às urnas, ser também como que uma espécie de mandatário secreto do seu homólogo de Angola, José Eduardo dos Santos, muito compreensivo em relação a Gbagbo.

“Mandatário secreto”

O astucioso Pedro Verona Rodrigues Pires, natural da ilha do Fogo, ajudou a negociar a independência da Namíbia e agora é como que uma máscara de Luanda no trio de enviados da CEDEAO à Costa do Marfim, enviados esses que foram acompanhados no início da semana pelo folgoso Primeiro-Ministro queniano, Raila Odinga, filho do histórico Oginga Odinga.

É preciso estar por dentro de todos estes meandros da História e da Política de África, seguindo-os desde há 47 anos (data das minhas primeiras passagens por Bissau, São Tomé e Luanda), para sentir agora na pele e na alma tudo o que se está a passar no maior produtor mundial de cacau.

E saber também que, no dia 1 de Janeiro de 1933, o território da antiga colónia francesa do Alto Volta foi partilhado entre os países vizinhos, um dos quais a Costa do Marfim; mas que recuperou a sua individualidade em 4 de Setembro de 1947.

Pessoas que há 64 ou 68 anos nasceram na Haute Côte d’Ivoire, e não na Basse Côte d’Ivoire, correm o risco de, nos tempos actuais, não serem consideradas autênticos marfinenses, cidadãos de pleno direito, susceptíveis de ocupar a chefia de um Estado que de forma alguma corresponde a uma nação.

Sobre estes conflitos de identidade na África Ocidental poderão ler-se trabalhos de Jean-Pierre Bejot, Pierre Kipré e Catherine Coquery-Vidrovitch, entre outros.

Para além da História da África Negra, de Joseph Ki- Zerbo, precisamente natural do velho Alto Volta, hoje Burkina Faso. Uma hora ou duas de pesquisa bastam para se começar a entrar em toda a complexidade da questão marfinense.

Mas será que muitos de nós estamos dispostos a fazê-la, quando nos pedem para arranjar 3500 caracteres sobre a Costa do Marfim?

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